Já era difícil. Vai ficar pior. Com o fim do vestibular e a adesão da maior universidade mineira ao Sisu, representantes de cursinhos preveem que concorrência vai disparar, especialmente com alunos paulistas

 

Rafaela  de Oliveira, que ainda pretende escolher direito ou administração, está entre os que temem disputa mais acirrada (Cristina Horta/EM/D.A Press)
Rafaela de Oliveira, que ainda pretende escolher direito ou administração, está entre os que temem disputa mais acirrada

Não se iluda ao pensar que entrar na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) ficará mais fácil com uma única etapa, representada pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), sem o peso das questões abertas da segunda fase. Nos cursinhos, o assunto de ontem foi um só: o fim do vestibular e a adesão da maior instituição de ensino superior do estado ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Nos preparatórios, a aposta é de uma disputa ainda maior, especialmente com estudantes de São Paulo, vistos como os principais concorrentes dos mineiros. Com gente de todo o país na briga, o que promete aumentar ainda mais a média de 60 mil inscritos por ano, a previsão é de afunilamento geral, nos cursos mais tradicionais até nos menos concorridos.

Isso porque a UFMG se torna um dos destinos mais cobiçados, por fazer parte do grupo de universidades de excelência do país a adotar o modelo, junto com as de Brasília (UnB) e do Rio de Janeiro (UFRJ). Um novo fenômeno também é esperado: muitas chamadas extras, para compensar a desistência de candidatos que se inscreverem, mas, aprovados em outros vestibulares, optarem por estudar mais perto de casa.

Coordenador do cursinho Pré-UFMG, Paulo Miranda é categórico: “Não tenha dúvida, não ficou mais fácil, ficou mais difícil”. Para exemplificar, ele compara o vestibular da medicina da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), que já adota o Sisu, com o da UFMG. “A Ufop tem menos tradição, mas exige uma nota muito maior, porque a concorrência é brutal, o que passará a ocorrer também na UFMG, UnB e UFRJ, que dentro do Sisu são as unidades de referência. Antes, concorria na UFMG quem estava disposto a pagar R$ 100 pela inscrição e a fazer a segunda etapa em BH”, diz.

Nesse novo cenário, cuja nota será dada pelo Enem, ele acredita em uma hierarquização das escolas e em uma concorrência muito mais acirrada. “Quando se tem concorrência com pessoas do país inteiro, os alunos vão querer, justamente, aquelas universidades que são referência e que receberão os melhores”, ressalta.

Para Miranda, a Federal de Minas será alvo, principalmente, dos estudantes de São Paulo, estado vizinho, mais rico e populoso do país, cujas principais universidades não aderiram ao Sisu. “O Enem trouxe vários candidatos que fazem vestibular em São Paulo e que prestaram exames lá e em Minas. Acabaram por ficar perto de casa ou onde consideraram melhor. Tivemos 150 vagas em medicina na segunda chamada ano passado, o que mostra que estudantes de Minas não passaram, ficaram na lista de espera”, pondera. O coordenador acrescenta que esse fenômeno se estenderá para os cursos menos concorridos e implantados recentemente na universidade. “Teremos segundas chamadas longas a partir do ano que vem”, prevê.

A invasão de estudantes de outros estados já é fato no câmpus de Belo Horizonte. No vestibular 2011, o primeiro a usar o Enem como substituto da primeira etapa, o número de aprovados no concurso que declararam morar ou ter concluído o ensino médio em outros estados dobrou, fato que se repetiu na edição do ano passado. O fenômeno também se reflete entre os inscritos. Em 2011, dos estados que mais enviaram candidatos, São Paulo liderou o ranking, com 10.721, seguido pelo Rio de Janeiro (1.149). Ano passado, 15% dos classificados para a segunda fase eram de outras unidades da federação, com os paulistas de novo na ponta.

O diretor pedagógico do pré-vestibular Chromos, Aimã Sampaio, porém, minimiza os efeitos da mobilidade de estudantes. “Na prática, o deslocamento de alunos de um estado para outro não tem ocorrido. Há dados recentes comprovando que 80% das vagas tinham sido, a princípio, ocupadas por alunos de fora, mas que não se matricularam”, afirma, sem se referir especificamente à UFMG. “Haverá, sim, a necessidade de mais chamadas para preencher as vagas, mas acabarão nas mãos de quem está em gravitando em torno de BH”, acredita.

SURPREENDIDOS O fato é que, nos lares mineiros, a preocupação de pais e filhos já é grande. A estudante Rafaela Cristina Souza de Oliveira, de 18, aluna do Chromos, que está em dúvida entre direito e administração, diz que foi pega desprevenida. “Todo ano há boatos, mas, como nunca se concretizaram, nos preparamos para a primeira etapa com o Enem e, depois, para a segunda com questões abertas”, conta. Para Rafaela, é falsa a impressão de uma seleção mais fácil. “Neste primeiro momento, odiei a notícia, pois, sendo em nível nacional, ficará bem mais difícil. Antes, se eu tirasse nota melhor em exatas, tinha diferencial para ir para a fase seguinte. Agora, tem que ir bem em tudo. Em um curso concorrido, será preciso um mínimo de 850 pontos para garantir a aprovação”, relata.

A administradora Lígia Lemos da Costa, de 49, teme pelo futuro da filha, Amanda Costa, de 18, que estuda em escola particular da capital. “Fiquei apavorada com a notícia. Minha filha vai tentar engenharia química, que foi um dos mais concorridos deste ano, e, agora, a tendência é piorar. Ela terá de fazer o caminho inverso também: provas em outros estados, para garantir uma vaga em federal. Senão, o jeito será estudar em uma universidade particular”, diz.

FONTE: Estado de Minas.