A montanha mágica
Num dos trechos da Estrada Real, quatro cidades e suas atrações contam um pouco da história de Minas Gerais. Ambiente barroco, culinária, esportes de aventura e paisagens estão no pacote

No belo distrito de Vila de Cocais, em Barão de Cocais, o Sítio da Pedra Pintada em inscrições rupestres datadas de até 10 mil anos. Paga-se R$ 8 para entrar (Marcos Michelin/EM/D.A dPress)
No belo distrito de Vila de Cocais, em Barão de Cocais, o Sítio da Pedra Pintada em inscrições rupestres datadas de até 10 mil anos. Paga-se R$ 8 para entrar

Duas estrelas do turismo de Minas Gerais, os santuários de Nossa Senhora da Piedade e o do Caraça, demarcam um território. Ambos relativamente próximos da capital, é como se fossem dois totens, um norte, outro sul (ou leste e oeste, não importa), que dão limites a um pedaço de terra. De um a outro, no asfalto ou na terra, não são nem 70 quilômetros, distância curta na aparência. Mas suficiente para acolher um mar de montanhas, que por sua vez abriga grandes atrações ligadas à cultura, história, gastronomia artesanato e natureza. Esse “território” – que tem ainda a mineração como atividade relevante – é formado pelos municípios de Caeté, Barão de cocais, Santa Bárbara e Catas Altas, distritos e zonas rurais.

Também o chamativo casario colonial e belíssimos monumentos, principalmente igrejas (algumas tricentenárias) que nasceram, cresceram e se formaram sob os auspícios de uma era, o Ciclo do Ouro. Metal que – direta ou indiretamente – inundou esses templos de luxo e ostentação sem pedir permissão a Deus, mas que na maioria deles resultou em lugares lindíssimos.

Este circuito turístico, batizado recentemente de Entre serras: da Piedade ao Caraça, bem que poderia ter um codinome, algo como A montanha mágica, não fosse o fato de ser várias. A intenção do Entre Serras é jogar luz sobre este pedaço de terra que, muitas vezes, fica ofuscado pela presença marcante da Piedade e do Caraça. Um baú cheio de riquezas turísticas pronto para ser usado e carimbado com um “made in Minas Gerais.” No pacote, é óbvio, vão os santuários do Caraça e da Piedade, que são de um charme incontestável, independentemente da fé que o visitante professe.

E assim como a rota da Estrada Real, na qual o Entre serras: da Piedade ao Caraça está inserido, trata-se de um conjunto de atrações que não precisa ser descoberto ou visitado de uma vez só. Ou de uma “vezada só”, como dizem muitos mineiros. É para ser degustado lentamente, a exemplo dos vinhos de jabuticada da região, da comida no fogão a lenha ou da rosca da rainha, iguaria que leva goiabada e é um dos muitos itens de um cardápio riquíssimo. Este último, o cardápio, fruto da tradição e de pesquisas que foram fundo na história em busca de suas origens e receitas originais.

Serra do luar

Catas Altas, a 120 quilômetros de Belo Horizonte, recebe neste sábado à noite, dia 28, na Praça Monsenhor Mendes, uma edição especial do projeto Minas ao Luar. A cidade abrigará o espetáculo, mas o evento, gratuito, é fruto da união das quatro cidades do Entre Serras e terá barraquinhas com comidas típicas e artesanato de cada município. Às 20h, antes de a banda Flor de Abacate subir ao palco para interpretar composições próprias e de autores como Pixinguinha e Tom Jobim, os cocaienses do projeto Jovens Luthier – orquestra de viola caipira – vão abrir a programação.

Na pele do lobo

O neogótico Santuário do Caraça coloca suas instalações à disposição dos hóspedes (Marcos Michelin/EM/D.APress)
O neogótico Santuário do Caraça coloca suas instalações à disposição dos hóspedes

O Caraça, que surgiu na segunda metade 18, também atende pelo nome de Reserva Particular do Patrimônio Natural do Caraça, uma das maiores de Minas Gerais, ou Santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens. A palavra caraça tem algumas explicações, mas a mais consistente dá conta que o nome vem de formação rochosa da Cordilheira do Espinhaço, bem próxima ao santuário, que tem a forma de um rosto grande. Certamente um rosto simpático, já que atrai cerca de 60 mil turistas por ano (cinco mil por mês).

Do total de visitantes, quase 18 mil se hospedam numa das duas pousadas do local. A hospedagem não é necessariamente barata (ver Serviço, na página 7) e os quartos, mesmo com uma limpeza exemplar, são espartanos e dotados de pouca mobília – o que, aliás, se espera de um lugar com vocação espiritual. Mas é bom realçar que a hospedagem é com pensão completa (café da manhã, almoço e jantar), o que, além de diluir a grana paga com a diária, é muito vantajoso, visto que a cidade mais próxima, Santa Bárbara, fica a 30 quilômetros.

Centenário O grande número de visitantes é atraído por passeios em trilhas, cachoeiras, tanques, piscinas naturais e antigas construções, além de picos e grutas que só podem ser visitados com guias. Uma delas é a Gruta do Centenário, uma das maiores de Minas Gerais. A construção peculiar do Caraça – que tem, por exemplo, a primeira igreja neogótica do Estado – mais o clima tranquilo do restante de suas instalações (biblioteca, museu, etc.), pesam na decisão de viagem.

Desde o começo do século passado, o Caraça foi um seminário e formou vários personagens da história recente do Brasil. A atividade foi encerrada em 1968, depois que um incêndio destruiu parte de suas instalações.

Todas as noites, os hóspedes  se preparam para esperar os famosos lobos-guarás (Chrysocyon brachyurus) que surgem em busca de alimento certo: uma bacia, daquelas grandes, cheia de carne, oferecida pelos padres. Na verdade, é sempre uma mesma família de lobos (macho, fêmea e um ou dois filhotes) que aparece, atraída pelo cheiro dos nacos. O hábito foi iniciado há muitos anos. Sabe-se que formam uma família porque os guarás são territorialistas, ou seja, num grande espaço, há apenas uma delas.

Como não seguem regras britânicas, os lobos não têm horário para dar as caras e focinhos. É sempre à noite, porém pode ser a qualquer hora. Resta ao hóspede torcer para que não seja de madrugada. Os lobos, talvez conscientes de que são protagonistas, mostram certa precaução, mas não se importam muito com a plateia que os observa jantar. Resta lembrar que há noites em que eles nem aparecem. Mas a pipoca distribuída pelos padres é certa.

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Entre Serras: da Piedade ao Caraça

 (Arte sobre fotos de Marcos Michelin/EM/D.A Press)
Catas Altas – Os santuários da Serra da Piedade e o do Caraça formam geograficamente as pontas de um roteiro inserido na Estrada Real (ER), que abrange as cidades de Caeté, Barão de Cocais, Santa Bárbara e Catas Altas, todas remanescentes do Ciclo do Ouro. Além dos santuários – estrelas de primeira grandeza do turismo de Minas Gerais – um mundo de atrações, de todos os calibres, esperam pelo visitante. Criado por iniciativa do Serviço Social da Indústria (Sesi-MG) e do Instituto Estrada Real (IER), o roteiro Entre serras: da Piedade ao Caraça, é o pontapé inicial do projeto Viver a Estrada Real (VER) que busca dotar  – e potencializar – todas as atrações da enorme rota ER que, convenhamos, não são poucas. O turista, no entanto, não precisa tomar conhecimento de planos e projetos. A ele, cabe curtir!
O mar da piedade
Com muitas atrações, além da belíssima vista panorâmica e o clima de religiosidade, santuário que homenageia a padroeira de Minas Gerais é um belo programa perto de BH

São 300 anos de história. O lugar atrai milhares de turistas e peregrinos todos os anos (Marcos Michelin/EM/D. A Press)
São 300 anos de história. O lugar atrai milhares de turistas e peregrinos todos os anos

Mesmo que esteja a cerca de 50 quilômetros de Belo Horizonte, a Serra a Piedade, no município de Caeté pode ser vista, em dias de céu limpo, de vários pontos da capital. Lá, a 1.746 metros de altitude, está o Santuário Nossa Senhora da Piedade, santa que é a padroeira de Minas Gerais. A história do lugar começou com a chegada, no começo do século 18, de dois fidalgos portugueses: Antônio da Silva Bracarena e Irmão Lourenço (este, fundador do Caraça), que mandaram construir uma pequena capela em homenagem à santa, que mais tarde seria ampliada para receber número cada vez maior de fiéis. Na ermida do santuário está a imagem de Nossa Senhora da Piedade, esculpida em madeira de cedro e atribuída ao mestre Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

Aberto todos os dias da semana, das 7h às 18h, o santuário oferece também hospedagem, no espaço Casa dos Peregrinos Dom Silvério (diária com pensão completa a R$ 130 por pessoa). Boa opção para quem quer aproveitar mais a estada e conhecer as várias atrações do lugar, que não são poucas. Além da capela, o visitante pode conhecer a Igreja Nova das Romarias, o espaço do calvário, percorrer a Via-Sacra (percursos longo e curto), a Cripta São José da Boa Morte e o Mirante Santo Onofre. As fontes de água que brotam na serra e a diversificada fauna e flora também encantam.

De olho nas estrelas

Mantido pela Universidade Federal de Minas Gerais, o Observatório Astronômico Frei Rosário é um centro de pesquisas e estudos. O público pode ater acesso ao local e, quem sabe, dar uma espiada num telescópio, aos sábados, quando é aberto ao público. No primeiro domingo de cada mês são realizados batizados na Igreja Nova das Romarias. Casamentos que terão como pano de fundo e testemunhas o mar de montanhas avistado do santuário, podem ser celebrados na Ermida e na Igreja Nova.As missas são de segunda a sexta-feira às 15h e nos sábados às 11h. Nos domingos, às 9h30 e 16h (Ermida) e às 11 na Igreja Nova das Romarias. Totalmente repaginada, a gastronomia local privilegia a tradicional culinária mineira e pode ser apreciada no restaurante Dom João Resende Costa, das 11h às 15h.Queijo especial Maria Eugênia de Oliveira é gestora do santuário e autora do belíssimo livro infantil Estrada Real, um caminho encantado, que tem ilustrações de Magda F. Resende. Ela apresenta uma iguaria local, o queijo Frei Rosário, feito na Serra do Salitre e maturado entre 45 e 60 dias na Serra da Piedade, aproveitando o clima frio do lugar. Aliás, nunca vá ao Santuário sem agasalhos porque a temperatura cai com frequência e é quase sempre frio, principalmente à noite.Além do santuário, em Caeté, na zona urbana, vale muito uma visita à Matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso, de inspiração barroca e a primeira igreja de Minas construída em alvenaria. Também o Museu Regional e a Museu Casa João Pinheiro, atualmente em reforma e que deverá ser aberto no começo de 2014. Na zona rural, os adeptos de esportes de aventura vão encontrar o Canela de Ema Adventure Park, que funciona para treinamentos empresariais e para o público em geral.
FONTE: Estado de Minas.