AMEAÇADOS AO NASCER Quem suga nossas fontes?Série do EM revela que degradação de rios avança contra a corrente e já atinge área de nascentes, cada vez mais sufocadas por poluição, desmatamento e falta de fiscalização

 

 

A nascente do Rio Maracujá foi impiedosamente escavada e hoje brota em meio à argila, em buraco de 30 metros (Leandro Couri)
A nascente do Rio Maracujá foi impiedosamente escavada e hoje brota em meio à argila, em buraco de 30 metros
Alimentando bacias em 10 estados, águas de Minas são poluídas cada vez mais perto de suas origens (Leandro Couri)
Alimentando bacias em 10 estados, águas de Minas são poluídas cada vez mais perto de suas origens

Medeiros e Ouro Preto – O fio de água que brota tímido em uma grota, cercado por uma vastidão de pastos do município de Medeiros, no Centro-Oeste mineiro, foi reconhecido em 2002 como a nascente que dá início à jornada de mais de 2,8 mil quilômetros do Rio São Francisco por cinco estados, até chegar ao Oceano Atlântico. Apesar da importância, a mina já foi contaminada por agrotóxicos e, por causa do desmatamento, hoje tem volume menor e aflora em um ponto 20 metros mais baixo do que na década passada. A 400 quilômetros de lá, em Ouro Preto, na Região Central, mesmo estando quase selada por uma camada de argila compactada, a água ainda encontra forças para brotar do fundo de uma cava de mineração com mais de 30 metros para formar o Rio Maracujá, principal afluente do alto Rio das Velhas. Não são casos isolados de descaso e abandono: desamparadas, nascentes como essas vão sendo extintas, em um processo contínuo que culmina no desabastecimento que levou mais de 200 cidades brasileiras a racionar água neste ano e reduziu reservatórios de hidrelétricas a níveis alarmantes. Para revelar as agressões aos berçários de alguns dos principais cursos d’água mineiros, o Estado de Minas empreendeu uma jornada de quase 5 mil quilômetros, entre trechos fluviais e terrestres, na qual descobriu agressões de todo tipo. O resultado preocupante desta viagem por 20 cidades – com paradas em 15 manancias estratégicos, que escoam para o Espírito Santo, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe – começa a ser apresentado hoje, na série de reportagens “Ameaçados ao nascer”.

Apesar de imprescindíveis para manter constante o fluxo dos rios nos meses de estiagem, as nascentes brasileiras não são protegidas por ações oficiais sistemáticas, nem por políticas públicas, tampouco por fiscalização. Em Minas Gerais, estado considerado a “caixa d’água do Brasil”, por alimentar bacias em outras 10 unidades da federação, as nascentes de alguns dos mais importantes rios do país se encontram abandonadas, sujeitas a desmatamento, assoreamento, mineração, garimpo e poluição. Nesta expedição empreendida pelo EM, em vários pontos a saúde dos rios foi testada por meio de água coletada e analisada em laboratório. Das 10 amostras, oito apresentaram contaminação por esgoto acima dos níveis toleráveis. Um protocolo científico que permite quantificar a integridade de mananciais também foi aplicado em 32 trechos e mostra que a degradação segue contra a corrente e sobe em direção às cabeceiras.

“Quando uma nascente sofre degradação, o primeiro processo afetado é o de recarga do rio. Se a nascente chega a ser suprimida, essa água subterrânea não brota mais e o rio fica desabastecido”, alerta o biólogo Rafael Resck, mestre em recursos hídricos que auxiliou a equipe de reportagem na preparação dos testes científicos. Para o especialista, as nascentes dos principais rios precisam receber proteção urgente do poder público. “Antes se afirmava que os rios tinham menos volume simplesmente pela falta de chuva. Mas são nascentes saudáveis que os mantêm correndo na seca”, explica.

A falta de interesse pelas nascentes é nítida no discurso dos órgãos oficiais de meio ambiente. De acordo com a Agência Nacional das Águas (ANA), “as questões referentes às águas subterrâneas (nascentes e poços) são competência dos estados”. Mas o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) e o Instituto Estadual de Florestas (IEF) tampouco dispõem de ações sistemáticas de preservação. Os dois órgãos ambientais foram categóricos ao responder a questionamento com base na Lei de Acesso à Informação, afirmando que “não é competência do(s) órgão(s) fazer o levantamento de nascentes ameaçadas”, sendo que o IEF admite que auxilia somente quem o procura, pois “promove ações de proteção às nascentes, normalmente sob demanda dos proprietários rurais, dando apoio técnico e, em alguns casos, doando mudas, insumos, mourões etc.”.

O Fundo de Recuperação, Proteção e Desenvolvimento Sustentável das Bacias Hidrográficas de Minas Gerais (Fhidro) deveria financiar a proteção de nascentes, áreas de recarga hídrica e combate ao desmatamento de matas ciliares, mas desde 2006 contemplou apenas 38 projetos, “não somente com ações específicas de recuperação e proteção de nascentes”. Presidentes dos comitês de bacias mineiras ainda reclamam que as verbas previstas são constantemente contingenciadas.

AÇÃO TÍMIDA O Programa Produtor de Água é a única ação da ANA que abrange nascentes. Porém, desde 2012 só 14 municípios em sete estados foram contemplados por verbas que somaram R$ 9,2 milhões, segundo prestação de contas da agência. A ação não visa apenas ao cercamento e reflorestamento no entorno de nascentes, mas também a obras em estradas vicinais e correção de terrenos para barrar erosões e permitir melhor absorção da água da chuva. Em Minas, entre os 853 municípios, o programa atua em Cedro do Abaeté, Extrema, Viçosa, Patrocínio e Uberlândia.

Os resultados dessa política restrita de proteção aparecem nos leitos cada vez mais secos de nossos rios, em um processo de degradação que você conhece a partir de agora.

AMEAÇADOS AO NASCER Novo manancial de desafiosEstudo que redefiniu a nascente do Rio São Francisco, na cidade de Medeiros, e não em São Roque de Minas, expôs a degradação da mina, sujeita a pressões de agricultura e pecuária

 

 

Abrigada em grota cercada por mata, nascente geográfica do Rio São Francisco ganhou placa oficial, mas brota em nível cada vez mais baixo
Abrigada em grota cercada por mata, nascente geográfica do Rio São Francisco ganhou placa oficial, mas brota em nível cada vez mais baixo


Medeiros, Vargem Bonita e São Roque de Minas – A definição de que o Rio São Francisco não brota em São Roque de Minas, onde fica a hoje considerada “nascente histórica”, mas em Medeiros, não mudou apenas a geografia brasileira. O estudo da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf), do ano de 2002, serve para mostrar que ainda hoje áreas onde afloram mananciais  estratégicos estão desamparadas diante das pressões da degradação. Os olhos d’água de São Roque, inicialmente considerados como originários do Velho Chico, só estão preservados porque se encontram dentro do Parque Nacional da Serra da Canastra. Mas as 91 minas de água de Medeiros, agora reconhecidas como fontes do “Rio da Integração Nacional”, estão fora da área do parque e sofrem com desmatamento para plantações de eucalipto, cultivo de batata, feijão, soja e abertura de pastos. Para se ter uma ideia, o berçário do São Francisco preserva apenas 72% de suas condições primitivas, de acordo com Protocolo de Avaliação Rápida de Diversidade de Hábitats, que é adotado por especialistas em recursos hídricos.

O patamar de conservação da nascente em Medeiros é comparável à de um trecho urbano próximo. O mesmo índice é verificado na parte do rio que atravessa Vargem Bonita, a primeira cidade pela qual passa o curso tradicional do Velho Chico e onde, além do desmatamento, há  esgoto despejado diretamente no leito.

Um projeto de lei que tramita na Câmara dos Deputados desde 2010 tenta instituir um parque no modelo de monumento natural para preservar as nascentes de Medeiros, mas o texto não tem movimentação desde 2012, quando foi avaliado na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Enquanto a legislação não ajuda, por causa dos agrotóxicos usados para repelir pragas de plantações de batatas, a nascente principal do São Francisco em Medeiros ficou imprópria para o consumo humano por alguns anos. “Ninguém tinha coragem de beber da água envenenada. A lavoura de batata usa muito pesticida e a mina surgia bem debaixo de uma plantação dessas”, conta o secretário de Meio Ambiente e Turismo de São Roque de Minas, André Picardi, que também é guia na região. As batatas foram substituídas e a área desmatada deu lugar a um pasto cortado por estrada de chão na recém-criada Fazenda Alto da Boa Vista.

Os donos da propriedade, paulistas da cidade de Batatais, são da família Teles. Compraram a fazenda apenas para engordar gado de raça criado para a reprodução. “Foi uma honra saber que o Rio São Francisco corre na nossa terra”, conta William Teles, de 36, filho do proprietário, Rui Teles. E o orgulho que o pecuarista sente se explica pelo fato de sua própria família ter no Rio São Francisco um capítulo importante. “Meu avô partiu de Sergipe para Minas Gerais em 1930, num dos vapores que navegavam pelo Rio São Francisco, até Pirapora. Nossa história está ligada à do rio”, conta. Apesar da falta de proteção oficial para a nascente, William garante que, enquanto for dono das terras, a mina será preservada. “O pasto onde a água brota não é usado. É como se fosse uma área de reserva”, afirma.

Não é fácil chegar ao ponto onde a água do São Francisco agora brota. O local exato está a 80 quilômetros de Medeiros, por estradas de terra. A mina fica entre pastagens, abaixo da curva de uma via vicinal, em uma grota profunda, coberta por mata fechada. Uma rocha recebeu uma placa da Prefeitura de Medeiros, que diz ser aquela a “nascente geográfica do Rio São Francisco/Samburá”. Nem os caboclos locais frequentam o matagal. “Cobra aqui é praga, ainda mais cascavel. No mato tem também cateto (porco do mato) e onça”, afirma Lázaro Moura Borges, de 50 anos, vaqueiro que vive há 22 anos na fazenda vizinha.

As árvores se apertam formando uma barreira, reforçada por moitas de espinhos e capins de folhagem afiada. O  terreno onde se aglutina a floresta ciliar é de barrancos íngremes, com até 30 metros de profundidade. A descida termina em um fundo de pedras roladas, com marcas de enxurradas, por onde desce o córrego fino de águas cristalinas. O afloramento da nascente tem ocorrido nos últimos meses dentro de uma pequena caverna de pedras a 20 metros de profundidade. Uma fenda de pouco mais de 30 centímetros de largura é a entrada dessa formação natural.

Mas a mata não cobre mais o topo de morro onde chuva se infiltrava para recarregar a nascente. Com isso, o volume foi reduzido e o ponto de afloramento também mudou de lugar. “Antes, a água minava lá do alto do morro. De uns anos para cá, a água mina cada vez mais baixo na grota”, constata o vaqueiro Lázaro.
“Essa é a importância da vegetação nativa na área onde ocorre a recarga do aquífero (lençol subterrâneo) que abastece a nascente. A vegetação impede que a água da chuva escorra muito rápido, antes de ser absorvida”, aponta o professor de hidrologia florestal e manejo de bacias hidrográficas da Universidade Federal de Viçosa, Herly Carlos Teixeira Dias. O especialista considera que as nascentes são fundamentais para manter o fluxo dos rios. “São responsáveis pela vazão por todo o ano, inclusive na estiagem. Daí a importância de sua preservação”, considera.

Com as agressões, a redução da oferta de água no vale do São Francisco já é realidade. Segunda cidade banhada pelo rio e abastecida em parte por suas águas, Iguatama está à beira do racionamento, em pleno fim da estação chuvosa. A prefeitura já decretou estado de emergência. Os reservatórios que abastecem a população de 8.213 pessoas estão praticamente vazios. Rio abaixo, mesmo com a colaboração de outros afluentes, a situação não é melhor. A represa de Três Marias enfrenta uma de suas piores secas e reduziu a vazão da usina de 500 mil litros por segundo para 250 mil. O efeito-cascata compromete sistemas de abastecimento de cidades do médio e baixo São Francisco.

AMEAÇADOS AO NASCER As muitas mortes de um curso d’aguaDegradada pela mineração de quartzito e recuperada por reflorestamento do entorno, nascente do Rio das Velhas tem águas poluídas menos de mil metros após área de preservação

Ouro Preto, Sabará, Santa Luzia – Debaixo das pedras de um dique para conter erosões empoça uma água limpa, que mal tem forças para escorrer morro abaixo, entre degraus e lajes de uma jazida de quartzito que funcionou por 200 anos. A área, reflorestada e cercada em 2003, no Bairro São Sebastião, em Ouro Preto, na Região Central de Minas, preserva a nascente primária do Rio das Velhas, como parte do projeto “Flores e Águas do Velhas”, financiado pelo Fundo Estadual de Proteção de Bacias (Fhidro). Mas o esforço para conservar a nascente do manancial que dá água a Belo Horizonte e é um dos principais tributários do Rio São Francisco se vê frustrado a menos de mil metros, ainda no bairro, onde o esgoto polui o curso d’água. Exames de laboratório feitos em amostras colhidas pela reportagem naquele ponto mostram que o Velhas praticamente nasce com 594% mais coliformes termotolerantes do que o aceito pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama).


 “A presença dos coliformes é um indicativo certo de esgoto. Esses micro-organismos podem trazer doenças ao homem”, alerta o biólogo e mestre em recursos hídricos Rafael Resck. Por causa dos dejetos, a água que corre no Parque das Andorinhas, a seis quilômetros, chega a apresentar manchas oleosas e resíduos, sobretudo na seca. “O parque foi criado justamente para preservar o manancial, mas enquanto as cabeceiras não tiverem tratamento adequado vai adiantar pouco”, afirma o ambientalista Ronald Guerra, da ONG Associação Quadrilátero das Águas (Aqua).

A bandeira da despoluição do Rio das Velhas foi a maior ação ecológica e de sustentabilidade em Minas nas últimas décadas, com a união de esforços de ambientalistas, como os do Projeto Manuelzão, e do governo do estado. Juntos, criaram as metas 2010 e 2014, que previam nadar, pescar e navegar pelo curso d’água na Grande BH. Entre as ações, destacam-se a proteção das nascentes de toda a bacia, captação de todo esgoto de Belo Horizonte, Sabará e Nova Lima, além da revitalização dos ribeirões Pampulha e Onça.
Contudo, 11 anos depois, os objetivos não foram alcançados. “As metas 2010 e 2014 fracassaram. Não foi possível nadar no rio em 2010 e não é possível fazer isso neste ano, por causa do altíssimo índice de coliformes fecais”, diz o idealizador do Manuelzão, Apolo Heringer Lisboa. “Houve melhora tímida. Espécimes de peixes que subiam 200 quilômetros do rio em 2000 agora percorrem cerca de 580 quilômetros.”

A equipe do EM coletou amostras no ponto em que o Ribeirão Arrudas, que corta BH, deságua no Rio das Velhas. Mesmo tendo passado pela estação de tratamento de esgoto (ETE), a amostragem apresentou 19.863% mais coliformes do que o limite do Conama. “É esgoto puro. Nesse nível, a contaminação da vida aquática é certa”, afirma o biólogo Rafael Resck. Pelo protocolo que mede a conservação do rio, ali resta apenas 21% de sua condição natural.

TRATAMENTO Apesar dessas condições, a Copasa, responsável pelo saneamento no estado e pela  estação do Arrudas, considera que a ETE é a mais moderna do Brasil e avalia que a estrutura cumpre 100% de sua meta. “Segundo análise, antes de alcançar a ETE, o ribeirão apresenta 3,09 miligramas de oxigênio por litro de água. No trecho imediatamente posterior à unidade, esse índice mais que dobra, subindo para 6,86”, informou. A empresa não divulgou quando atingirá a totalidade de coleta de esgoto no curso. 

Sobre a falha das metas 2010 e 2014 para o Rio das Velhas, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente informou que o projeto de revitalização da bacia avançou bastante. “No entanto, devido à sua grandiosidade e complexidade, trata-se de um projeto de longo prazo, que vem sendo trabalhado da melhor forma”, acrescentou. De acordo com avaliações dos órgãos ambientais estaduais, “nos últimos 10 anos, os nove parâmetros que medem o Índice de Qualidade das Águas (IQA) da Bacia do Rio das Velhas apresentam evolução”. Os investimentos desde 2003 são contabilizados em R$ 1,5 bilhão, destacando a construção de ETEs e a interceptação de esgotos. Segundo cálculos da secretaria, em 1999, apenas 1% do esgoto despejado no Velhas era tratado. Hoje o índice é de 82,53%.

Adilson da Silva no Parque das Águas do Barreiro, onde brota o ribeirão que corta Belo Horizonte: alguns quilômetros adiante o curso já está grosso e cinzento devido ao esgoto e ao lixo que poluem a Bacia do São Francisco
Adilson da Silva no Parque das Águas do Barreiro, onde brota o ribeirão que corta Belo Horizonte: alguns quilômetros adiante o curso já está grosso e cinzento devido ao esgoto e ao lixo que poluem a Bacia do São Francisco

O homem que mata a sede no arrudas

A imagem que o belo-horizontino tem do Ribeirão Arrudas e de seus afluentes é a de uma rede de esgoto que na época das chuvas inunda áreas de seu entorno. Isso ocorre sem dúvida em mais de 99% do seu curso, mas não onde o rio nasce. Aos pés da Serra do Curral, um dos símbolos de Belo Horizonte, uma água fresca e cristalina desce no Parque das Águas, na Região do Barreiro. O ambiente não é mais o original: recebeu tratamento paisagístico concebido pelo arquiteto Roberto Burle Marx. Ainda que não seja uma condição natural, a água ali brota pura. 

“É uma tristeza a gente poder beber desta água e saber que pouco depois ela fica imunda”, lamenta o jardineiro Adilson da Silva, de 48 anos, um dos responsáveis por cuidar do lugar. O que ele diz não é força de expressão. A nascente percorre apenas 460 metros incólume: ao atravessar a Avenida Ximango, começa o castigo do curso d’água, que recebe lixo e canalizações clandestinas de esgoto até o encontro com o Rio das Velhas.

arrudas

Mas o Arrudas não é o único afluente do Velhas castigado. Em Ouro Preto, para arrancar os cristais raros de topázio imperial, as mineradoras que operavam em Cachoeira do Campo transformaram a montanha em que nascia o Rio Maracujá em um buraco de argila roxa. O olho d’água fica exposto a deslizamentos, mas ainda é capaz de ganhar corpo adiante, ao encontrar outros córregos, até desaguar no Rio das Velhas. O Maracujá não é importante apenas pela vida em forma líquida que teima em correr pelo seu leito. Em suas margens, onde ficava o Palácio de Campo dos Governadores, Joaquim Silvério dos Reis denunciou os inconfidentes, em 1789. Entre 1707 e 1709, o curso d’água foi palco de conflitos da Guerra dos Emboabas, o embate de paulistas e portugueses pelas minas da região.

O passado célebre, porém, não rendeu reconhecimento ao Maracujá. Suas nascentes vêm sendo enterradas por garimpos e mineradoras clandestinas. O igarapé que atravessa pastos, fazendas e matas está tão assoreado que pontes que já tiveram cinco metros de altura hoje têm vãos com 30 centímetros. Mas o pior está por vir: ao chegar no distrito de Ouro Preto, os dejetos de casas, comércio e indústrias da BR-356 caem diretamente na calha, transformando o que era um rio em um esgoto a céu aberto.

“A extração de topázio imperial ocorre há séculos no Rio Maracujá. A devastação que quase matou a nascente ocorreu mais recentemente, porque as mineradoras em vez de recomporem esses passivos ambientais, mudaram de nome e encerraram as atividades, sem qualquer compensação”, afirma o ambientalista Ronald Guerra.

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FONTE: Estado de Minas.