energia elétrica

Assim como a febre é implacável ao reagir a inflamações que podem colocar em risco o organismo, a inflação não perdoa: mais dia, menos dia, dependendo da transparência com que age o governo, ela cobra o preço de equívocos, de voluntarismos e de inépcias. A condução sem mágicas da política econômica, a administração responsável do gasto público e a não intervenção em setores que funcionam bem são mandamentos elementares. Desobedecê-los custa caro.

A divulgação ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) da inflação oficial do país em março revela mais um preço dessa desobediência, que foi uma das marcas do primeiro governo de Dilma Rousseff.
Aos poucos, e dolorosamente, os brasileiros vão se encontrando com trapalhadas escondidas na campanha eleitoral e que, agora, visitam o bolso de todos.
Medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação deu mais um galope, com alta de 1,32% em relação a fevereiro. Foi a taxa mais alta para o mês em 20 anos. Entre os equívocos que os aumentos refletem, a campeã é a sequência de medidas que desorganizaram boa parte do setor elétrico, de modo a deixá-lo sem condições de investir para aumentar a oferta de geração e de armazenamento hídrico.Mudanças no sistema de concessões geraram incertezas e insegurança jurídica, levando as empresas não controladas pelo governo federal a engavetar projetos de investimentos. Depois, em setembro de 2012, a presidente fez um pronunciamento na TV anunciando redução nas tarifas de 16,2% para consumidores residenciais e de 28% para indústrias. Em janeiro de 2013, Dilma voltou à TV para confirmar a benesse e torná-la ainda maior, passando o corte nas tarifas para 18% e 32%, respectivamente. Uma festa.

Especialistas alertavam para a chegada de um período de estiagem prolongada, do qual não se vislumbravam a profundidade e a duração. Mas a presidente assegurou que o Brasil tinha energia suficiente, “sem nenhum risco de racionamento ou qualquer tipo de estrangulamento, no curto, médio ou no longo prazo”.

Era evidente que esse estímulo ao consumo era inconveniente. Mas, embora fora da lei, Dilma já estava em campanha pela reeleição e seu marketing não admitia qualquer coisa que soasse negativa, muito menos uma campanha de economia de energia. As chuvas não vieram e as usinas térmicas, que deveriam ser acionadas apenas de forma suplementar, ficaram ligadas permanentemente, enquanto os reservatórios das hidrelétricas baixavam perigosamente (e ainda estão longe do normal).

Salva pela baixa atividade industrial, Dilma escapou de ter de decretar um racionamento. Mas não teve como fugir do alto preço da energia gerada pelas térmicas. Varreu esse custo para debaixo do tapete até passarem as eleições. É o que está sendo cobrado do consumidor agora, uma parte por bandeiras tarifárias, outra por aumentos mais frequentes das tarifas.

Resultado: mais da metade da inflação de março é explicada pela conta de luz. Segundo o IBGE, o aumento médio das tarifas em março foi de 22,08%, o que ajudou a empurrar o índice geral acumulado em 12 meses para perigosos 8,13%. Não foi sem motivo que até o Banco Central jogou a toalha em relação à inflação de 2015, quando o ano mal tinha começado. Resta aos brasileiros orar, e não apenas pelas chuvas, mas pelo fim das trapalhadas.