A superação de Paola
Modelo que perdeu perna esquerda depois de ser atropelada na Raja não guarda mágoa da tragédia. Segundo a polícia, motorista apresentava sintomas de embriaguez

Paola tatuou a palavra %u201Cfé%u201D no braço direito. Assim que soube o resultado da operação, Diva começou a rezar e foi ela quem deu a notícia sobre a amputação à filha<br />
 (Cristina Horta/EM/D.A Press)

 

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“Sempre fui uma pessoa cuidadosa. Nunca dirigi alcoolizada e olhava para todos os lados, por medo de ladrão. Pois não é que um carro descontrolado me pegou bem na frente de casa? Foi um susto enorme, mas me recuso a viver com medo. Quero mais é aproveitar a vida e curtir cada momento”, ensina a modelo Paola Antonini, de 20 anos, que tatuou no corpo o verso “Viva como se você nunca vivesse duas vezes”. Depois do acidente de trânsito, que a levou a perder a perna esquerda em 27 de dezembro, ela decidiu gravar na própria pele, em inglês: Live like you’re never living twice. Menos de quatro meses depois de ser imprensada por um carro na garagem de casa, conduzido por uma jovem que, segundo a polícia, apresentava sintomas de embriaguez, Paola já se tornou modelo de otimismo e superação.
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Nem mesmo a perna mecânica, na cor cinza, incomoda a menina, que quer espantar preconceitos em relação a quem usa prótese. Paola poderia ter escolhido uma prótese com cobertura de espuma, imitando a pele, que fica bem natural, mas não fez isso. “Adorei a ideia de ter uma perna de metal. Não quero fingir que não perdi minha perna. É o contrário. Quero mostrar para as pessoas que estou com uma prótese superlegal e que dá para andar para todo  lado e ter uma vida maravilhosa. Quanto mais normal isso for, melhor para mim”.

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De onde Paola tira toda essa força? A palavra fé, tatuada de forma estilizada no braço direito por ela e também pela mãe, exatamente no mesmo lugar do corpo, dá uma pista em relação à origem da energia positiva transmitida pela jovem. Antes mesmo de começar a estudar jornalismo na PUC Minas, a partir de agosto, Paola já está sendo chamada a dar palestras sobre o tema superação. Nos próximos dias, ela vai falar para adolescentes com câncer, em um projeto do Hospital da Baleia, em Belo Horizonte. “Tenho muita vontade de ajudar as pessoas e passar uma mensagem positiva sobre a vida. Se eu puder mudar uma única pessoa, vou ficar feliz”, conta.
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OTIMISMO O otimismo de Paola ficou demonstrado para cada um dos familiares da moça desde o momento em que ocorreu a fatalidade. No dia, ela e o namorado, o estudante de direito Arthur, preparavam-se para passar o réveillon em Búzios (RJ). Planejavam sair cedo para pegar a estrada vazia. Quando colocavam as malas no carro, foram atingidos em cheio pelo veículo, que seguia em alta velocidade pela Avenida Raja Gabaglia. Arthur sofreu uma contusão simples. O caso de Paola foi muito pior, apesar de ela nunca ter demonstrado desespero nem revolta diante dos parentes. Cruzando a nova perna metálica, de um jeito bem descontraído, no sofá de casa, ela revela o que sentiu na ocasião do acidente: “Quando vi, eu estava no chão, sem entender o que havia acontecido. Como foi na frente da minha casa, todo mundo desceu do prédio para me ver. Mas não olhei para baixo nem deixei ninguém olhar”.

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“Paolinha ficou sentada no passeio, mas não deixava ninguém chegar perto dela. Afastava as pessoas e pedia tranquilidade a todos. Não sei de onde tirou tanta coragem”, conta, emocionado, o engenheiro Antônio Tadeu Antonini, pai de Paola, e de Tadeu, de 19, e Cristiano, de 12. A modelo explica que, na hora, não entendeu direito a dimensão do que ocorrera com ela. “Continuava sentindo a minha perna. Sentia como se meu pé ainda estivesse ali, como até hoje sinto”, explica a modelo, que ainda sofre com episódios de dor fantasma, causada, grosso modo, pela memória do nervo, que ainda não compreendeu a nova condição do corpo.

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Assim que soube o resultado da operação, Diva, a mãe, começou a rezar, implorando orientação dos céus. “Pedi a Deus para que soprasse as palavras no meu ouvido, iluminando sobre a melhor maneira de dar a notícia a Paola”, afirma. “Já desconfiava de que havia ocorrido algo errado comigo, porque ouvia médicos conversando coisas estranhas sobre amputação em torno de mim. Mas evitava olhar para minha perna e até de encostar uma perna na outra para não ficar sabendo a verdade sozinha, durante a madrugada, no hospital. Esperei até minha mãe me contar. Perguntei a ela: “Perdi meu pé, não é mãe?”.

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FONTE: Estado de Minas.