BOMBEIROS CANINOS

Voluntários defensores de bichos arriscam a vida para resgatar animais em situação de perigo. Só este ano, oito cachorros foram tirados do ribeirão Arrudas em cinco operações

Canjica foi resgatado do Arrudas no último sábado e está à espera de adoção
 (Facebook/Reprodução da Internet)

 

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“Socorro, socorro, socorro! Estou dentro do ônibus na Avenida dos Andradas, indo pro estágio. Acabo de ver um cachorrinho lá embaixo no Ribeirão Arrudas, andando desnorteado! Ele é caramelo com branco, porte pequeno! Pelo amor de Deus, alguém ajude!” Há alguns dias este apelo desesperado era multiplicado em escala geométrica na internet, ganhando enorme repercussão entre os mais de 70 grupos autodenominados protetores de animais de Belo Horizonte. Desde o momento em que foram avisadas de que um provável vira-latas estaria com frio e com fome, nadando no meio do esgoto a céu aberto, dezenas de pessoas se mobilizaram para fazer uma operação emergencial de resgate do animal.
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Não é a primeira vez que esses bravos defensores de animais arriscam a própria vida para salvar outras, ainda mais indefesas do que a sua. Só este ano, já foram feitos cinco operações e oito cãezinhos foram resgatados do Arrudas, sendo três deles de uma única leva. No último sábado, um grupo de15 protetores anônimos levou escadas, cordas e botas de borracha para salvar a vida do vira-latas Canjica, que foi vacinado, vermifugado e castrado. Acolhido em um lar temporário (LT), o dócil e brincalhão cachorrinho, com cerca de um ano e meio, já está com toda a documentação em dia, pronto para a adoção. Ganhou até gravata na organização não-governamental (ONG) Cãoviver, que subsidia vacinas, banho e remédios em casos de cães resgatados. O restante das despesas foi cotizado entre o grupo.
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Espécie de bombeiros caninos, esses protetores anônimos estão dispostos a sacrificar a folga do fim de semana para fazer o trabalho do poder público. “A maioria dos bombeiros da corporação é gente boa, mas ainda não tem equipamento e nem treinamento para fazer esse tipo de resgate. No Brasil, o animal ainda é tratado como coisa, enquanto em Los Angeles os helicópteros sobrevoam o rio para buscar um cachorro ou resgatar um pássaro preso ao fio de alta-tensão. A defesa dos animais é uma questão de saúde pública”, defende o dançarino de Belo Horizonte Charles Porto, que milita na causa há 15 anos.
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Como um todo, o processo de resgate de cães no Ribeirão Arrudas pode durar de um a dois dias. Não é fácil. Primeiro, é preciso localizar o animal, em quilômetros de extensão do córrego. Depois, rezar para não chover no dia marcado para o resgate e as águas subirem às margens do Arrudas. Sem falar que o cão não quer ser salvo, apesar de estar esfomeado. Acuado e com medo, tende a fugir do grupo ou, por instinto, avança em seus salvadores, que o atraem com ração. “Da última vez, levei uma mordida que arrancou a tampa do meu dedão, a parte mais vascularizada do corpo. Nada fazia a dor passar”, explica o advogado e professor universitário Carlos Brandão.
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Tampouco adianta apenas retirar o vira-latas do Arrudas e abandonar em qualquer canto da cidade. O cão pode ter chegado até o esgoto pelo encanamento, mas, se estiver mancando, a hipótese mais provável é que tenha sido jogado lá de cima para morrer. Nos dois casos, precisará ser acolhido em um LT, a R$ 300 mensais e a R$ 60 o saco de ração. Se estiver ferido, poderá precisar de radiografia (R$ 60), de um ultra-som (R$ 100) ou até de uma cirurgia para colocar um parafuso, a partir de R$ 600.
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RECOMPENSAS “Há quem diga que deveríamos ajudar crianças em vez de cachorros. A diferença é que, no Brasil, se uma criança estiver morrendo nas ruas, alguém vai chamar o Samu e levar para o Hospital de Pronto-socorro João XXIII, onde ela terá atendimento. Se estiver sofrendo maus-tratos, o conselho tutelar vai denunciar. Já os animais não contam com a mesma proteção do poder público. Ninguém vai pedir por ele. É capaz de o bicho ficar agonizando até morrer”, compara Brandão, que presta assessoria jurídica gratuita para ONGs de proteção anos animais. Nos últimos meses, está afastado das suas funções, mas confessa que se observar um cão abandonado rondando o bairro, tem receio de ter uma recaída. 
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“Quando me vejo entrando dentro do Arrudas para salvar um cachorrinho, às vezes me questiono onde vou parar tentando socorrer os animais, mas a paixão fala mais alto. Cada vida que salvo é uma recompensa”, desabafa a turismóloga Marina Lott, de 28 anos, que desde que se arvorou na atividade de bombeira de bichos, há três anos, calcula ter resgatado em torno de 40 animais. Depois de medicados e sadios, quase todos foram encaminhados à adoção, por meio da página dela no Facebook, que dispõe de conta-corrente autônoma para ajudar a financiar os salvamentos. Da turminha, restaram três gatos e dois cahorros, conforme apelidou Marina, o que obrigou os pais dela a mudarem de um apartamento para uma casa com quintal no mesmo bairro, o Santa Lúcia, na Região Centro-Sul de BH.
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Pelo Facebook, Marina recebeu a denúncia de que um flanelinha estava espancando uma cadela vira-latas, amarrada a um poste.  “Encontrei Nina encolhida no poste, amarrada a um barbante, com sede e com fome. Enfrentei o homem e a arranquei de lá. Não consigo entender porque as pessoas fazem tanta ruindade com os animais. Não sei se é falta de consciência, de instrução ou se é falta de amor mesmo?”, questiona a jovem, que arranjou por fim a Luna.

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O homem de 50 cachorros

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Sob inspiração da cantora de salsa cubana, Célia Cruz já está idosa e começa a ficar cega. Mel Gibson também está coroa, mas permanece bem de saúde. A vira-latas magrela Gisele Bundchen ainda é nova, mas o mesmo não se pode dizer de Xuxa, que por sinal, vive grudada no labrador Pelé. Estes são alguns dos cerca de 60 cães resgatados pelo dançarino Charles Porto, um dos pioneiros na arte de salvar animais domésticos em perigo.
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Tudo começou com há mais ou menos 15 anos, quando Charles seguia com a então mulher passar o fim de semana em Escarpas do Lago. Na parada do pão com linguiça, descobriu-se hipnotizado por um cão mestiço com basset, esquálido, que olhava insistentemente para ele. “Comprei um pão com linguiça para ele, que devorou. Comprei outro e mais outro. Lá se foram cinco ou seis sanduíches e uma garrafa de água. Não consegui deixar pra trás o Fred Astaire”, lembra. Apesar de ter água no pulmão, sobreviveu por mais três anos.
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Depois de Fred, viria o cooker chamado Steve (Wonder), resgatado dentro de um bueiro. “Baixou em mim o espírito de São Francisco de Assis. Outro dia estava na igreja, em uma formatura, nos bancos do meio. Entrou um cachorro e deitou do meu lado. Descobri que estava marcado”, brinca ele. Autônomo, Charles cuida atualmente de quase 50 cães no sítio da família, em Itabirito, na Região Central, de outros cinco na casa da ex-mulher e de outros cinco na empresa. A despesa mensal atinge R$ 3,5 mil com ração, despesa com funcionário e remédios. “Não faço doações. É o meu asilo de cães velhinhos, que ninguém quer adotar porque dá muito trabalho. Já combinei que eles ficam lá até morrer”, diz.

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FONTE: Estado de Minas.

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