Execução e pânico em HPS
Assassinato a tiros de traficante internado espalha medo e expõe insegurança no Hospital de Pronto-Socorro Risoleta Neves, onde mulheres estavam em trabalho de parto na hora do crime

Por volta das 2h, o porteiro e o vigia foram dominados pelos criminosos, que foram direto ao 4º andar, onde a vítima estava internada (RAMON LISBOA/EM/D.A PRESS)
A execução com oito tiros de um paciente dentro do Hospital de Pronto-Socorro Risoleta Neves, em Venda Nova, em Belo Horizonte, expôs a insegurança de centenas de pessoas internadas e dos funcionários. Por volta das 2h de ontem, quatro homens fortemente armados invadiram a unidade de saúde pela entrada social e renderam o porteiro e o vigia de plantão. Dois subiram ao quarto andar e foram direto ao leito 13, onde estava o traficante Jackson Douglas Santos Ferreira, de 29 anos, que foi morto com sete tiros na cabeça e um no ombro. Os assassinos fugiram. A invasão e o crime espalharam pânico no hospital, segundo testemunhas, principalmente das mulheres que estavam na maternidade, algumas, inclusive, em trabalho de parto.
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A dona de casa Maria Antônia de Almeida Félix, de 58 anos, conta que no momento dos tiros acompanhava a filha, que estava dando à luz. “Um total desespero. As enfermeiras correram para o quarto onde a gente estava, fechando as portas e gritando para chamar a polícia. Fiquei assustada também”, lembra Maria Antônia. “Nem dentro do hospital temos segurança. Fiquei com muito medo. Minha filha estava em trabalho de parto e meu neto nasceu 15 minutos depois”, comentou a dona de casa.
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O açougueiro Jaime Carlos da Silva, de 45, estava no segundo andar do prédio, cochilando ao lado da mulher, que havia ganhado bebê, e foi acordado por ela aos gritos. “É tiro, é tiro, é tiro, minha mulher gritava”, disse o açougueiro. “Graças a Deus os bandidos não foram ao segundo andar. Havia um tanto de recém-nascidos e várias mães com pontos na barriga, sem defesa nenhuma”, disse Jaime.
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O autônomo Marcelo Augusto dos Santos, de 30, que também acompanhava a mulher, é amigo de um enfermeiro do hospital e soube por ele que os criminosos já sabiam onde a vítima estava. “Renderam o vigia e o porteiro e foram direto ao quarto andar, onde estava o rapaz que foi morto. Não demorou mais do que dois minutos. Já sabiam o que iriam fazer, inclusive viraram a câmara da recepção”, disse Marcelo.
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Funcionários do hospital também estão assustados e com medo de trabalhar até durante o dia. “O risco que a gente corre lá fora é o mesmo aqui dentro. A gente entra para trabalhar e entrega a vida a Deus”, disse uma funcionária do laboratório, que pediu para não ser identificada.
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De acordo com o boletim de ocorrência da PM, dois criminosos permaneceram na portaria, próximo aos elevadores, mantendo reféns o vigia e o porteiro. Outros dois subiram pelas escadas. Os criminosos disseram para ficarem tranquilos, pois eles estavam ali para resolver uma “rixa entre bandidos”.
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Uma testemunha informou à PM que ouviu um dos bandidos conversando ao telefone. “Tá dominado”, teria dito. Em seguida, os outros que haviam subido as escadas desceram correndo. Os funcionários não souberam descrever os criminosos, alegando que foram mantidos de cabeça baixa o tempo todo. Um deles estava com uma faca e uma pistola. Celulares, blusas e um boné do vigia e do porteiro foram roubados. O rádio de comunicação do vigilante, que teve a bateria levada, foi jogado numa lixeira.
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No quarto do hospital onde ocorreu o crime estavam mais dois pacientes, mas eles disseram à polícia que dormiam e não viram nada.
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Jackson Douglas deu entrada no hospital na segunda-feira com cinco tiros. Ele deixava a casa da sua mãe, no Bairro Dona Clarice, em Ribeirão das Neves, na Grande BH, acompanhado de uma mulher, um garoto de 8 anos e um homem identificado por Pablo Hernandes Vieira da Costa. O carro dele, um Honda Fit prata, foi alvejado com vários tiros disparados de dentro de um carro branco. Pablo tentou fugir e foi morto com nove tiros. Jackson levou um tiro no pé, um na coxa, dois no abdome e um no joelho e levado para o Risoleta Neves.
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INSEGURANÇA O Hospital Risoleta Neves repassou as imagens das câmaras de segurança à Polícia Civil. Segundo a assessoria da instituição, no momento da invasão, apenas o vigia e o porteiro estavam na portaria social. O movimento maior é na portaria de emergência, onde há plantão da Polícia Civil. Os vigilantes do hospital não trabalham armados e esse seria o primeiro caso de homicídio dentro da unidade.
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A diretoria do hospital informou que pretende se reunir esta semana com a Polícia Militar para reforço no policiamento externo. A instituição recebe pacientes de outros municípios, muitos envolvidos com crimes. “Há um posto de atendimento da Polícia Civil na portaria de emergência e a segurança será reforçada na outra portaria, que fica mais deserta de madrugada”, informou o hospital. Não há revista pessoal ou detectores de metal.
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Ainda de acordo com o hospital, o paciente morto estava sem escolta por ter sido levado pela mulher. “Nesse caso específico, o hospital não tem obrigação de acionar a polícia para garantir o sigilo médico do paciente, conforme regras estabelecidas pelo Conselho Médico”, informou o Risoleta Neves.

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FONTE: Estado de Minas.

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