Morre aos 82 anos o escritor Oliver Sacks

Autor de vários livros, que misturam casos de seus pacientes com ficção e humor, havia dito que sofria de câncer terminal

Sacks criou universo mágico, sem perder o rigor científico e soube descrever seus pacientes com afeto (Chris McGrath/Getty Images/AFP %u2013 3/6/09)

Brasília – Humor e lucidez eram qualidades sempre presentes no texto de Oliver Sacks. Ele podia fazer rir, mas com seriedade. Podia fazer chorar, mas sem pieguice. Neurologista e escritor nascido em Londres em 1933, Sacks foi um médico brilhante e um escritor fascinante ao traduzir em palavras a experiência humana e os mistérios da mente.

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Em fevereiro, ele publicou uma carta no The New York Times para anunciar um câncer em fase terminal. Um melanoma descoberto há nove anos e tratado com radioterapia que deixou Sacks cego de um olho havia se espalhado e agora afetava o fígado. O médico e escritor morreu ontem, aos 82 anos, em sua casa, em Manhattan.

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Na carta em que anunciava a própria morte para breve, o autor de 13 livros explicava que precisava decidir como viveria os meses que restavam. “Eu tenho que viver da maneira mais rica, profunda e produtiva que puder. E nisso, sou encorajado pelas palavras de um de meus filósofos favoritos, David Hume, que, ao descobrir que estava mortalmente doente, aos 65 anos, escreveu uma autobiografia em um único dia”, escreveu Sacks, que na época já havia terminado sua própria autobiografia.

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Sempre em movimento chegou ao Brasil em julho, pela Companhia das Letras e com tradução de Denise Bottmann. “Eu sou grato por ter vivido nove anos com uma boa saúde e produtividade desde o diagnóstico original, mas agora eu estou cara a cara com a morte”, escreveu em artigo para o The New York Times.

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Oliver Sacks nasceu a Inglaterra, mas passou boa parte da vida nos Estados Unidos. O trabalho como neurologista permitiu que explorasse o órgão mais difícil de ser estudado do corpo humano. As pontes entre mente e alma sempre intrigaram Sacks, que era dono de uma notável habilidade literária. Em um de seus livros mais populares, O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, ele retoma histórias dos próprios pacientes, gente que sofria de doenças da mente e do cérebro, em narrativas capazes de transportar o leitor para um universo mágico e fantástico, sempre real e possível.

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Alucinações musicais é um dos livros mais interessantes de Sacks, com histórias de pacientes com distúrbios neurológicos ligados à música. O autor fala sobre um homem que se torna pianista após ser atingido por um raio e sobre como Mozart pode desencadear sensações dramáticas em um paciente. Seu Tempo de despertar, de 1973, detalha a experiência com pacientes que sofreram de encefalite letárgica e como conseguiam escapar – mesmo que brevemente – de seu estado catatônico com a ajuda de uma medicação.

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A obra ficou conhecida por causa do filme homônimo em que Robin Williams interpretou o próprio médico, mas talvez seja a biografia Sempre em movimento o texto mais emocionante do neurologista, que não se esquivava de mergulhar na própria mente para tentar compreender a consciência humana. Para o médico, o mais importante era compreender a relação dos pacientes com suas doenças e como eles conseguiam reconstruir a própria identidade a partir da compreensão do mal que sofriam.

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Formado em Oxford, filho de uma médica que foi uma das primeiras mulheres a se tornar cirurgiã, Sacks imigrou para os Estados Unidos em 1965 e foi professor na Escola de Medicina Albert Einstein e na Universidade Columbia, em Nova York. “A Escola de Medicina da NYU está imersa em tristeza com a morte do nosso estimado colega Oliver Sacks, cujos trabalhos abriram novos caminhos na neurologia e neuropsiquiatria e trouxeram importantes conhecimentos”. “Igualmente importante, seu trabalho prolífico e premiado tocou a vida de milhões de pessoas no mundo inteiro”, afirmou a instituição em declaração.

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Desde a descoberta do primeiro tumor, em 2006, ele publicou quatro livros. Na carta em que se despede, deixou claro que estava trabalhando em outros. Possivelmente, a morte do autor não seja o ponto final de suas publicações. “Não posso fingir não ter medo. Mas o sentimento que predomina em mim é a gratidão. Eu amei e fui amado; tive muito e dei muito em troca; eu li, e viajei, e pensei, e escrevi”, disse no artigo, sobre seus planos para os últimos meses de vida.

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PRINCIPAIS OBRAS

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O Homem Que Confundiu Sua Mulher com um Chapéu
De Oliver Sacks. Tradução: Laura Teixeira Motta. Companhia das Letras, 272 páginas. R$ 52
Como é possível preservar a imaginação com a mente afetada por deficiências graves e como se dá a construção da identidade nessa situação são perguntas que o médico se faz nesses relatos de casos de pacientes
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Sempre um movimento
De Oliver Sacks. Tradução: Laura Teixeira Motta. Companhia das Letras, 392 páginas. R$ 39,90
A infância na Inglaterra, o papel da mãe controladora e dura, a imigração para os Estados Unidos e as primeiras incursões no universo na neurologia são alguns dos temas tratados na biografia

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Vendo Vozes: Viagem ao Mundo dos Surdos
De Oliver Sacks. Tradução: Laura Teixeira Motta. Companhia das Letras, 200 páginas. R$ 39
A partir da experiência com surdos, Sacks investiga a construção da linguagem e como se dá a comunicação em
um universo no qual é preciso sempre reinventar
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Alucinações Musicais: relatos sobre a música e os cérebros
De Oliver Sacks. Tradução: Laura Teixeira Motta. Companhia das Letras, 368 páginas. R$ 59
Como o cérebro reage ao ato de fazer ou ouvir música e como o ser humano pode entrar em estados emocionais impossíveis de serem atingidos conscientemente pontuam esta coletânea de casos

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FONTE: Estado de Minas.

 

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