Pediatria, já afetada pela falta crônica de médicos, sofre novo impacto Com cortes de verbas federais e dificuldades enfrentadas por prefeituras. há casos de suspensão de atendimento

Alexandre Guzanshe/EM/DA Press

Josiane com a filha Isabelly: diagnóstico depois de um ano de sofrimento e peregrinação.

Em um cenário de crise generalizada na saúde, um dos tipos mais vulneráveis de pacientes sofre em dobro com a crise na área: as crianças. Afetada pelo corte de 11,3% no Orçamento federal para o Sistema Único de Saúde (SUS), a pediatria, que já sofria com a falta crônica de profissionais – afastados por questões salariais e más condições de trabalho –, teve atendimento ainda mais reduzido. De acordo com entidades que representam o setor no estado, como consequência, cidades como Betim, Contagem e Uberlândia começaram nos últimos meses a reestruturar os serviços: suspenderam a especialidade em unidades de urgência e emergência e concentraram atendimento em outros centros. Em João Monlevade, Santa Luzia e Lagoa Santa, também há registro de problemas.

Em Belo Horizonte, apesar de nenhum serviço ter sido suspenso oficialmente, a população enfrenta um quadro crítico. Entre pais e mães que buscam atendimento, os relatos são de peregrinação e sofrimento até conseguir chegar ao consultório médico. O motivo não é muito difícil de entender: com a população e a demanda em expansão, o quadro de pediatras na saúde pública de BH soma 345 profissionais, número 6,2% menor que seis anos atrás, quando eram 368 médicos.

Sob impacto do corte de recursos anunciado pelo governo federal, como informou a Secretaria Municipal de Saúde (SMSA), as internações de crianças por procedimentos cirúrgicos devem fechar 2015 em montante 15,3% menor que em 2009. As cirurgias eletivas pediátricas representam 21% do total de operações do tipo realizadas pela Rede SUS-BH. Já as internações clínicas, não afetadas pelo contingenciamento de recursos, mantêm tendência de alta: devem fechar o ano com 18.507 registros, contra 17.324 realizados há seis anos.

Referência no atendimento infantil, o Hospital João Paulo II, na Região Hospitalar de Belo Horizonte, também convive com redução no atendimento. O problema é histórico, mas neste ano se agravou com a crise provocada pela falta de profissionais. Para piorar, funcionários ouvidos pelo Estado de Minas denunciam problemas de infraestrutura física, aparelhos estragados e escassez de insumos básicos para casos de urgência.

Nesse contexto de crise, a média histórica de atendimentos (ambulatoriais e de internações) despencou, tornando-se a mais baixa da última década. Em curva decrescente, a unidade, antigo Centro Geral de Pediatria (CGP), registrou média diária de 151 atendimentos de janeiro e julho deste ano, enquanto o índice alcançado em 2005 foi de 313 crianças a cada dia.

Arte EM

VIA-SACRA O resultado da falta de profissionais e da desestruturação da pediatria tem revelado uma verdadeira peregrinação entre unidades de saúde da capital. A falta do especialista em algumas escalas de UPAs de BH, especialmente nos fins de semana, chegou a ser admitida pela Secretaria Municipal de Saúde. “Os serviços estão sendo mantidos em BH. Não piorou, mas a situação já era ruim e não melhorou”, afirma o secretário-geral do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais (Sinmed-MG), o pediatra Fernando Luiz de Mendonça. Segundo ele, o atendimento nas unidades é desfalcado, e mães precisam recorrer a outras unidades para conseguir atendimento para os filhos. “Há fim de semana em que BH chega a ter somente duas ou três UPAs com pediatras, principalmente à noite”, afirma.

Na quinta-feira, a moradora da Região Leste Priscila Kelly Batista e suas filhas Luise, de 1 ano e 11 meses, e Catarina, de 2 anos e 10 meses, experimentaram na prática os efeitos da crise. As meninas, que estavam indispostas, tossindo, com vômito e febre, conseguiram atendimento no Hospital João Paulo II só depois de procurar consulta na UPA Leste e no centro de saúde do Bairro Santa Efigênia, onde moram. “Pediatra é dificílimo. É preciso ter mais postos, mais assistência e, principalmente, mais facilidade para as crianças”, diz Laide Correa Huguet, de 77 anos, avó das meninas, que também as acompanhava. Diante da dificuldade, a família cogitou pagar consulta particular. Por causa do preço, desistiu. “Teríamos que pagar R$ 280 para cada uma delas. Não tem como”, disse a avó.

Há quem venha de mais longe e tenha esperado por mais tempo. Depois de quase um ano de idas e vindas em unidades de saúde, Josiane Cristina Gonçalves de Castro, de 18, conseguiu no João Paulo II diagnosticar o problema que incomoda a filha Isabelly Eduarda, de 1 ano: dermatite. A jovem veio do Bairro Icaivera, em Betim, na Grande BH, para conseguir uma consulta com pediatra. De acordo com a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), responsável pela unidade, a queda contínua nos atendimentos no hospital está relacionada à abertura de unidades de pronto-atendimento em Belo Horizonte e à falta de pediatras no mercado de trabalho.

Segundo a SMSA, não houve redução de recursos federais na alta e média complexidade. Segundo a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), a escala de pediatras na emergência do João Paulo II foi normalizada no dia 1º, com a contratação provisória de equipe terceirizada, até efetivação de concurso público – já autorizado. Informou ainda que, “para preservar a assistência, estão sendo remanejados recursos de áreas administrativas para manter o abastecimento de material e equipamentos”

Fonte: Estado de Minas.

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