Laura Medioli
Laura

A informalidade do brasileiro, para quem não está acostumado, assusta. Lembro-me de um comentário feito por meu marido nos seus primeiros anos de Brasil.

– Aqui tem coisas que eu não entendo. Se alguém me convida para “aparecer” na sua casa, mas não me passa o endereço, horário ou qualquer indicação, é um convite para ser levado a sério ou não?

Até que, ao conhecer minha antiga casa, um ano após aportar no país, entendeu que “aparecer” é aparecer mesmo, sem necessidade de agendamento. Minha casa era tão incrivelmente aberta às pessoas que ele, mesmo sem entender, acabou aderindo à ideia. E começou a aparecer por lá. Criou vínculos com meus pais, com meus irmãos, até que, dez anos depois da primeira ida, entre encontros e desencontros, acabou me levando com ele para outra casa, onde há quase 30 anos recebemos antigos e novos amigos.

Com pouco tempo de casados, me ligou às três da tarde para dizer que tinha convidado, após uma convenção partidária, alguns prefeitos e outros políticos para um churrasco em nossa casa. Detalhe: em casa de vegetarianos não existe churrasqueira, ou seja, como ele me diz que dentro de cinco horas faríamos um churrasco? Detalhe dois: nunca tínhamos feito churrasco na vida. Três: os convidados eram mais ou menos 30. Quatro: a luz do ambiente do jardim, onde havia uma suposta e aposentadíssima churrasqueira do antigo morador, não funcionava. Não propriamente a luz, mas a fiação. Cinco: da mangueira gigante que ficava no centro da área externa, caíam mangas de dez em dez minutos, que se espatifavam no chão com direito a abelhas e lambanças. E eu já fui logo pensando: e se cai uma manga na cabeça de um prefeito? Devido ao tamanho da fruta e à altura dos galhos, o perigo era iminente. Parei de pensar em fatalidades, pois já tinha coisas demais com o que me preocupar, tipo: onde vou colocar 30 pessoas para se sentarem? Antes de me enlouquecer, fui enlouquecer o jardineiro e a cozinheira.

– Chiiiiico!!! Temos que limpar a área da mangueira urgente, não se esqueça de tirar as mangas com as abelhas… Cadê o telefone do eletricista? Alguém viu a caderneta? M…! Tenho que arrumar alguém que entenda de churrasco, quem sabe o Carretão me ajuda nisso?

– Não se preocupe, senhora! Levamos tudo… A carne, o arroz, o vasilhame… É para quantas pessoas mesmo?

Também liguei para minha mãe.

– Sim, mãe, está tudo certo, apenas me passe o telefone daquela loja de festas em que você costuma alugar as mesas.

– …

– Perdeu o número? E o nome, você lembra?

Naquela época não existiam computadores pessoais, e nem sonhávamos com os “googles” da vida. Corri para as páginas amarelas do catálogo. Alguém se lembra disso? Do tamanho dos antigos catálogos e de suas folhas amarelas? Pois é, lá fui eu procurar nas letras miúdas o raio da loja de aluguel de móveis.

O eletricista chegou, ou melhor, foi buscado quase que à força para me ajudar a resolver o problema. E numa gambiarra homérica esticou um fio de um canto a outro até conseguir pôr iluminação no lugar. Aproveitei a ida do homem para ajudar na montagem da “churrasqueira” – um monte de tijolos, um em cima do outro, com algumas adaptações; sacos de carvão adquiridos às pressas pelo antigo motorista da minha mãe, que, preocupada, me disponibilizou também o jardineiro. Menos mal que eventos políticos costumam ser sem frescuras, sem superorganizações e meio de improviso. Estávamos dentro do padrão.

Às 20h em ponto, começaram a chegar os prefeitos. Alguns, com a esposa a tiracolo. Tinha até flores em cima das mesas, a cerveja gelada era servida por simpáticos garçons, enquanto churrasqueiros tarimbados se viam às voltas com uma churrasqueira improvisada pra lá de complicada. Resumindo: a festa, impecável, e eu, destruída – literalmente falando.

Chamei meu marido num canto:

– Da próxima vez eu te mato!

E ele:

– Eu sabia que você daria conta… – Acabamos rindo no final da história, afinal, desde menina estou acostumada a ver gente “aparecendo” em minha casa. Mas 30 de uma vez? Para um churrasco sem churrasqueira?

Depois desse, outros eventos de última hora aconteceram, e eu, naturalmente, já tirava de letra.

Neste ano conheci a Alemanha. Que país! Organização, limpeza, segurança, pessoas cordiais, transporte público maravilhoso, cidades incríveis, museus fantásticos etc., etc… Amei tudo, só me causaram estranhamento alguns costumes, como o excesso de formalidade em certas ocasiões. Lá é o tipo de lugar onde você JAMAIS deve aparecer na casa de alguém. Mesmo marcando uma visita com 20 dias de antecedência, já complicamos a vida do anfitrião, isso porque, no verão principalmente, eles já têm a agenda ocupada para toda a estação, obviamente marcada com muita antecedência. Por isso foi um “deus nos acuda”, imagino eu, quando, 20 dias antes, resolvemos combinar uma “visitinha”. Chegamos à tardinha, onde fomos recebidos maravilhosamente bem. Depois dos tira-gostos, vinhos e drinques, nos convidaram a um restaurante próximo. A anfitriã era prima do meu genro, uma graça de pessoa que, apesar do agendamento “em cima da hora”, nos deixou muito à vontade. Ela, o marido, o irmão e outros parentes.

O pai dela, numa das vindas ao Brasil, hospedou-se como de costume na casa do meu genro. E ficava intrigadíssimo com o entra e sai de amigos. A maioria chegava sem aviso prévio. Tipo:

– O Gui está?

– Não – respondia ele em seu germânico portunhol –, ele saiu.

– Fala com ele que o Feijão esteve aqui! Volto mais tarde…

Que Feijão? Como assim? E, sem entender nada, ia perguntar à cunhada se isso era normal. Até que chegou o dia do aniversário da sobrinha. No meio da semana, cansada do trabalho, ela decidiu que não faria nada no dia. Isso até os telefonemas começarem.

– Mas você vai passar o dia em branco? Assim, sem comemorações?

Os telefonemas a animaram, e ela acabou resolvendo fazer uma festinha de “ultimíssima” hora na sua casa. Quem ligava, ela chamava. Saiu para comprar pãezinhos, queijos, cervejas e patês, para o espanto do tio, que, cada vez mais, menos entendia. E perguntava:

– Mas você os está convidando AGORA? Para daqui a pouco?

– Sim – respondeu a garota.

– E ELES VÊM???

Definitivamente, o tio não entendia que no Brasil vive-se e convive-se perfeitamente sem agendamentos prévios. E que aquele “aparece lá em casa” pode ser ou não um convite… Mas vai explicar isso a um alemão!

 

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FONTE: O Tempo/Pampulha

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