O drama da falta de água

Moradores de Itambacuri, no Vale do Mucuri, vivem uma situação de calamidade pública.

Reservatório da cidade está praticamente vazio e especialistas criticam falta de planejamento

Itambacuri – O semblante triste e cansado dos moradores é o primeiro sinal de que alguma coisa está errada. Juntando esse retrato ao trânsito de caminhões-pipa para todos os lados e à presença de tambores, galões, baldes e outros recipientes na porta das casas e na carroceria de caminhonetes, a conclusão é certa: a falta de água – que até a última quarta-feira, dia 18, secou as torneiras de 16 mil dos 23 mil moradores de Itambacuri, município do Vale do Mucuri, encostado na BR-116, entre Governador Valadares e Teófilo Otoni, a 420 quilômetros de Belo Horizonte – revela uma situação de calamidade pública. Apesar de o abastecimento ter sido retomado na quinta-feira, a cidade vive um quadro de racionamento de água.
Um filete de água escorre em meio à terra seccionada pela seca extrema no período mais crítico da estiagem na região ( Leandro Couri/EM/D.A PRESS )

No reservatório que abastece a sede da cidade, o cenário é inimaginável. Um filete de água escorre em meio à terra seccionada pela seca extrema. A Estação de Tratamento de Água (ETA) está praticamente à míngua. O pouco que chega não tem força para subir os morros, deixando a periferia completamente desabastecida. A chuva do último fim de semana levou esperança aos moradores, mas ainda não representa a recuperação da barragem, que continua seca.

A reportagem do Estado de Minas esteve em Itambacuri e conversou com a população, com a administração municipal e com especialistas, chegando à conclusão de que a situação vivida hoje na cidade é resultado da falta de planejamento, ausência de controle do uso e até da distribuição da água, desperdício e sucessivas agressões ao meio ambiente. Tudo isso amplificado pela falta de chuvas que assola todo o estado há pelo menos três temporadas chuvosas, entrando agora na quarta estação das águas ainda sem precipitações dentro das médias históricas.

Longas filas se formam para conseguir o mínimo de água necessário à sobrevivência ( Leandro Couri/EM/D.A PRESS )

Especialistas apontam que situações vividas em anos anteriores já eram suficientes para nortear a atuação da prefeitura de forma a minimizar o quadro. A administração sustenta que o fato de tão severa falta de água nunca ter se repetido na história da cidade é suficiente para complicar o trabalho. E a população sofre com o drama de ficar sem água.
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O período mais crítico começou em 20 de outubro. O prefeito de Itambacuri, Vicente Guedes (PHS), diz que, um dia depois, a água se esgotou no reservatório que armazena o recurso oriundo do Córrego do Poquim, um braço do Rio Itambacuri, que faz parte da Bacia do Rio Doce. “Começamos tentando levar caminhões-pipa para a ETA, mas ficou inviável, já que o consumo da cidade gira em torno de 2,5 milhões de litros por dia e os caminhões carregam apenas 10 mil. Começamos a pegar água da Copasa em Teófilo Otoni, mas foi insuficiente. Por fim, começamos a estourar represas rio acima.” O prefeito admitiu que isso não garante o abastecimento.
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A chegada da reportagem no Bairro Coqueiros foi vista como uma chance de a água voltar a sair pelas torneiras. De longe, já na fila para conseguir água, um dos moradores gritou: “Tem que denunciar essa situação. Como que pode acabar a água da gente?”. A lavradora Domingas Gonçalves Pereira, de 56 anos, carregava o desânimo na expressão do rosto. Com dificuldades para levantar um balde de cerca de 14 litros, ela só se preocupava em matar a sede de quatro filhos e seis netos. “A gente vai sendo vencida pelo cansaço. Quando faz barulho de caminhão, isso aqui vira um alvoroço, menino. Todo mundo quer pegar água para não correr o risco de morrer de sede”, conta.
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INSUFICIENTE A dona de casa Roseli Soares da Silva ostenta dois galões de 20 litros vazios. “A prioridade é cozinhar e beber. Roupa a gente só lava quando realmente está no limite, mas aí carrega a trouxa na cabeça e leva até algum poço que ainda tenha sobrado”, diz.
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Já no Bairro Santa Clara, o caminhão abastece uma caixa-d’água colocada na região para evitar problemas causados pelo desespero, misturado à quantidade de pessoas sem o recurso. A própria população vai enchendo baldes e galões, esperando a oferta de água, que costuma aparecer de duas a três vezes por dia.
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Enquanto isso…
…LENTA RECUPERAÇÃO NA GRANDE BH

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A intensificação das chuvas nos últimos dias tem contribuído para o elevar o nível dos reservatórios do Sistema Paraopeba, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) informou, ontem, que a capacidade total das represas chegou a 20,8%. O volume de água começou a aumentar na quinta-feira, quando o índice saiu dos 20% (o mesmo dos três dias anteriores) para 20,2%. O maior responsável por esse resultado positivo é o Sistema Várzea das Flores, que, de sexta-feira para sábado, registrou aumento de 21,9% para 24,7%. Já a capacidade do Sistema Serra Azul saltou de 5,4% para 5,5%. Por outro lado, o volume do Sistema Rio Manso se manteve nos 28,7%, pelo segundo dia consecutivo. Apesar do aumento, o Sistema Paraopeba conserva o menor índice da história, desde 2013, o que mantém o estado de alerta.
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Personagem da notícia
José Galdino, pedreiro, 52 anos
Como no Nordeste

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Na parte mais alta do bairro, o pedreiro José Galdino, de 52, aguardava em frente a outra caixa que tinha acabado de ser abastecida. Morando há 23 anos em Itambacuri, ele só tinha presenciado situação semelhante no interior do Nordeste. “Sem água, é impossível viver. Minha maior preocupação é com as pessoas bebendo e cozinhando com uma água que, muitas vezes, não sabemos se é própria para isso. Portanto, aqui pretendo conseguir uma pequena quantidade pelo menos para garantir o mínimo de limpeza da casa”, afirma. Para matar a sede da mulher e de oito filhos, José Galdino diz que vai se virando com o pouco que ganha. “Tem que tentar comprar para que um problema não acabe criando outro, deixando a família toda doente”, diz.

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FONTE: Estado de Minas.

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