No passado, Temer criticava, e Lula dizia não ser golpe
Com pressão sobre FHC, em 1999, papéis estavam invertidos no país
fhc

Outra época. Fernando Henrique enfrentou pedido de impeachment feito pelo PT, mas resistiu BRAZIL ELECTIONS Contra FHC, Lula rejeitava discurso de “golpismo” que hoje utiliza

RIO de JANEIRO. “Levamos muito tempo para conseguir a estabilidade constitucional e devemos mantê-la a qualquer custo”, afirmou o peemedebista Michel Temer, ao defender a democracia e o mandato de um presidente eleito pelo voto popular. Sim, a frase contrária ao impeachment é de Temer.

“Eu não vejo por que o presidente deva ficar tão nervoso com a oposição e dizer que tem golpe. Não tem golpe nenhum. Estamos fazendo as coisas dentro da maior legalidade, estamos cumprindo tudo aquilo que está na Constituição”, justificou Lula. Sim, a frase foi endereçada ao presidente eleito pelo voto popular e ameaçado de afastamento e foi dita pelo petista Luiz Inácio Lula da Silva, que colocara companheiros de partido na linha de frente pró-afastamento.

As frases mais que atuais foram ditas por Temer e Lula não no contexto do processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff, mas há 17 anos, quando o tucano Fernando Henrique Cardoso era bombardeado pela oposição. À época, petistas pediam a renúncia de FHC e tentavam interromper seu segundo governo, enquanto o então presidente e aliados se defendiam acusando a oposição de golpe contra a Constituição e a democracia.
Temer diz que por ser constitucionalista sabe que não há golpeLula ataca Temer e diz que, ‘se tudo der certo’, volta a ser ministroEm vídeo, Lula diz que Temer ‘trai compromisso selado nas urnas’

Temer, que hoje se articula para assumir o governo em uma eventual saída de Dilma, à época era presidente da Câmara dos Deputados e entendia a estratégia do impeachment defendida pela oposição como um golpe contra a democracia. Dos quatro pedidos de impeachment contra FHC que conseguiram chegar até as mãos do peemedebista, todos foram engavetados.

No jogo de frases que esquentam os embates políticos, situação e oposição repetem os mesmos discursos ditos em 1999 – só mudaram de posição. Há 17 anos, FH começava o primeiro ano de seu segundo governo em meio à rejeição popular, manifestações, crises política e econômica, quadro semelhante ao enfrentado por Dilma, em contextos diferentes.

“É a marcha dos sem-rumo, porque não propõe nada”, disse Fernando Henrique em entrevista à Rede Globo sobre manifestação organizada pela oposição, acusada por ele de golpe, hoje palavra muito utilizada pelos petistas:

“Golpismo é ‘Fora FH’, na televisão, nos spots. É toda hora: ‘Fora FH’. Isso é antidemocrático. Não é contra mim, não. É contra as instituições democráticas”, afirmou o tucano.

“A manifestação será democrática. Renúncia ou impeachment são soluções institucionais, previstas na Constituição. Golpismo é imaginar que o presidente está acima da Constituição”, respondeu o então deputado petista José Genoino, posteriormente condenado pelo escândalo do mensalão, com argumentos hoje usados por tucanos.

Aécio fazia críticas que hoje recebe

BRASÍLIA. Presidente do PSDB, o senador Aécio Neves (MG), um dos principais defensores do impeachment da presidente, também já abraçou o movimento “Não vai ter golpe”, hoje encabeçado por Dilma: “O governo reagirá com a mesma violência a qualquer tentativa de golpismo. Não podemos permitir que avance qualquer ideia de solução fora da via democrática”, dizia o então deputado em clima de confronto.

“Quem está cometendo um golpe é o FHC, que ao invés de pensar nos brasileiros que estão passando fome e estão desempregados continua acreditando mais nos dirigentes do FMI”, discursava Lula, que insiste hoje no discurso do golpe.

Ao ser criticado pela oposição, FH respondia que não tinha quebrado promessas de campanha, uma dos argumentos também por Dilma para se contrapor à oposição. Numa tentativa de acordo, petistas recusavam aproximação com o PSDB, resistência hoje também forte entre os tucanos. Nos discursos políticos, ainda muito se copia e pouco se cria.

FONTE: O Tempo.