Um abismo até o metrô ideal

Chegando a três décadas e ainda incompleto, sistema recebe sugestões de cidadãos para se transformar no transporte dos sonhos, que teria extensão ao menos cinco vezes superior à atual

Metrô dos Sonhos
Entre os 28,1 quilômetros da atual linha do metrô de Belo Horizonte e os mais de 140 quilômetros de sistema que a cidade merece, há um abismo. Para atravessá-lo, nos 30 anos do trem urbano da capital, que se completam amanhã, o Estado de Minas convidou leitores a um exercício de imaginação: como seria o metrô ideal para um município do porte de BH? A ampliação do número de linhas – eterna novela perdida em capítulos de planejamento precário, falta de vontade política e desperdício de verba – é o principal desejo dos usuários, que enviaram sugestões via Facebook, Twitter e WhatsApp. A partir delas e de conversas com economistas, engenheiros, arquitetos, urbanistas e acadêmicos, nossa equipe de arte desenhou as linhas que você vê nesta página.
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Nesse traçado, que inclui trechos em veículo leve sobre trilhos (VLT) – mais barato – e trem de superfície, o sistema ideal teria 144 quilômetros, cinco vezes o percurso que existe hoje. E que, apesar de modesto, já consumiu pelo menos US$ 860 milhões. A estimativa teve de ser feita a partir de reportagens arquivadas no Centro de Documentação do EM, pois não existe –  nem na Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), nem na Metrominas (empresa estadual criada para tratar da regionalização do metrô) e tampouco no Ministério das Cidades – uma soma dos investimentos atolados no túnel dessa história de três décadas, cujo fruto limita-se ao trajeto único entre o Bairro Eldorado, em Contagem, Grande BH, e a Estação Vilarinho, em Venda Nova, na capital.
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Como a ineficaz tradição da política brasileira faz com que diferenças partidárias de sucessivos governos matem o planejamento de longo prazo, a falta de dados sobre investimento impede que se tenha a dimensão concreta do problema. “Podemos identificar ausência de planejamento da maioria das cidades, com falta clara de planos de largo prazo para os projetos de transporte público. Em muitos casos há um plano de mobilidade genérico, que não pontua de forma clara uma rede integrada e multimodal a ser implementada em 20 ou 30 anos. Isso dificulta muito o desenvolvimento de redes de alta capacidade”, avalia Eleonora Pazos, chefe para a América Latina da União Internacional dos Transportes Públicos (UITP).
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DESEJO ganha forma No diagrama do metrô imaginário, as primeiras quatro linhas respeitam os traçados de projetos para complementação da atual Linha 1. Os restantes foram projetados a partir das sugestões dos leitores engajados na campanha. A equipe de reportagem tabulou as participações e colocou no papel as coincidências de sugestões de novas rotas.
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O traçado de um sistema de transporte surge justamente a partir de linhas de desejo individuais, agregadas para formar demanda que justifique oferta significativa, pontua o economista e consultor João Luiz da Silva Dias, ex-presidente da CBTU. Ele detalha que a viabilidade técnica de cada linha depende da topografia, já que sistemas do tipo não trabalham com rampas elevadas ou muito extensas e dependem do solo. “De qualquer forma, o mapa imaginário é um exercício provocante, porque precisamos nos organizar para produzir muito mais do que as linhas 2 (Barreiro) e 3 (Pampulha/Carmo-Sion), que constituem a base inicial de construção de nosso metrô. Uma cidade como BH exige um sistema de ao menos 140 quilômetros”, reforça.
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Apesar dos desejos, expressiva parcela dos participantes da campanha do metrô imaginário manifesta descrença com relação à ampliação. Para Nilson Nunes, do Departamento de Engenharia de Transportes e Geotecnia da Universidade Federal de Minas Gerais, a decepção é compreensível. “Nosso metrô nasceu desvinculado da demanda por deslocamentos de pessoas nos principais corredores da região metropolitana. Nasceu como sistema federal, com sede no Rio de Janeiro, a qual tem demonstrado indiferença às necessidades de deslocamento da população mineira”, avalia.
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A ampliação concreta das linhas depende hoje justamente de entrave burocrático entre a Metrominas (empresa vinculada ao governo estadual, responsável pelos planos de expansão) e o Ministério das Cidades. Os projetos estão parados, enquanto se debate o processo que vai trazer para o estado a administração do metrô. Sem definição, a CBTU, sediada no Rio, responde pela administração do sistema existente.
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O superintendente da companhia em BH, Miguel da Silva Marques, no cargo desde novembro, avaliou as propostas do metrô imaginário. “Toda expansão é viável e benéfica, porque vemos que o metrô tira carros da rua”, disse. Questionado sobre a forma de locomoção que usa cotidianamente, o superintendente confessou: “Venho trabalhar de carro, mas já usei muito o metrô e é um meio de transporte que atende bem quem hoje pode usá-lo no seu trajeto”.

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FONTE: Estado de Minas.