Eles também são ouro

Para muitos moradores da Grande BH, todo dia é dia de esforço digno de atletas olímpicos

 

 

CANOAGEM -

CANOAGEM – “A travessia no Rio das Velhas é tranquila, principalmente, agora, na época da seca, quando fica com uns 25 metros de largura e 1,5m de profundidade” – José Anselmo de Araújo, de 33 anos, morador do Parque Nova Esperança, em Santa Luzia, na Grande BH, faz a travessia do curso d%u2019água pelo menos duas vezes por dia

Eles mergulham no trabalho e se defendem, com bom humor, dos contra-ataques do dia a dia. Remam ao sabor dos ventos, correm em disparada pelo sustento e equilibram o corpo sob o peso das necessidades, numa cena de fazer inveja a qualquer halterofilista. É preciso também pedalar pelas ruas, limpar a cidade com arremessos certeiros e livrar as águas da poluição, sempre movidos pela incansável vontade de ganhar a vida. Estão aí os “atletas olímpicos” do cotidiano de Belo Horizonte e vizinhança – Diego, Roseli, Alexandre, Osvaldo, Marcelo e José Anselmo –, gente que ensopa a camisa para não perder o pique, cria formas de mobilidade sem se afogar em dúvidas e rompe o bloqueio do trânsito com coragem. A exemplo dos atletas da competição internacional que mobiliza o país e traz o esporte para o centro da roda, os seis merecem medalha de ouro pela determinação, além das mil e uma atividades que executam.

CICLISMO -
CICLISMO – “Percorro a cidade inteira na minha bicicleta. Quando levo a escada para trabalhar, vou a pé, empurrando. A marmita vai na sacola pendurada no guidom!” – Osvaldo de Nazaré Gonçalves, pintor e pedreiro, de 64 anos, morador do Bairro São Marcos, na Região Nordeste de BH, há 25 anos conduz seu ofício na companhia do inseparável %u201Ccamelo%u201D
As marcas de tinta estão nos dedos, os respingos na calça, e o sorriso não abandona nem um minuto sequer a cara de felicidade. Firme na bicicleta, o pintor e pedreiro Osvaldo de Nazaré Gonçalves, de 64 anos, morador do Bairro São Marcos, na Região Nordeste da capital, pedala velozmente para chegar a mais um serviço. Na modalidade ciclismo, não perde para ninguém. “Ando a cidade inteira, conheço todos os lugares”, conta o esbelto Osvaldo, com 1,66 metro de altura e 58 quilos. “Sou peso-pena, igual ao Popó”, brinca, numa comparação ao pugilista baiano Acelino “Popó” Freitas, tetracampeão mundial em duas categorias de boxe.

Na tarde de ontem, ao passar na Avenida José Cândido da Silveira, no Bairro Cidade Nova, o homem brincalhão contou uma de suas proezas. Muitas vezes obrigado a transportar a escada de trabalho, amarra o equipamento na bicicleta e segue a pé, levando a sacola com a marmita pendurada no guidom. “Vou empurrando. Uma vez, gastei duas horas e meia até o Vale do Jatobá”, conta com a experiência de 25 anos conduzindo a magrela, lambuzada de tinta, que chama à moda antiga de “camelo”. Certo de que o trânsito é cheio de obstáculos, o pintor e pedreiro procura estar sempre atento aos sinais e jamais trafegar no asfalto. Na hora de lazer, prefere ficar com a família – “sou muito bem casado” – e jogar uma peladinha com os amigos, pois ninguém é de ferro.

LEVANTAMENTO DE PESO -
LEVANTAMENTO DE PESO – “A vida é uma luta diária. Acordo às 3h para preparar os salgados e depois pego dois ônibus. Chega de noite, a gente só quer cama” – Roseli Gonçalves, de 56 anos, mora em Ribeirão das Neves, na Grande BH, e vende seus quitutes na região hospitalar da capital. Para chegar ao ponto de ônibus, caminha quatro quarteirões carregando cerca de 20kg
FORÇA NO BRAÇOBem longe dali, em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), moradores do Parque Nova Esperança encontraram uma forma surpreendente de fugir dos mais de seis quilômetros que separam o local do Bairro Carreira Comprida (Frimisa), onde fica a sede da prefeitura municipal, comércio e outros serviços. Com destreza, atravessam o Rio das Velhas numa placa de isopor, tendo como remo um pedaço de bambu. A travessia de 25m de extensão e 1,5m de profundidade na estação seca e 40m na cheia dura cinco minutos, sem intimidar o “comandante” José Anselmo de Araújo, de 33, desempregado, embora mecânico, motorista e operador de máquinas de profissão. “É tranquilo, mesmo com o rio tão sujo”, conta o ribeirinho, que mora com a mulher e duas filhas numa casa com horta, dois cavalos – “na verdade, dois pangarés” – e árvores margeando o Velhas.

Uma descida no barranco, com alguns degraus feitos a enxada, leva José Anselmo à beira do rio, bem no fundo da casa. Para não ser levada pela correnteza, como já ocorreu, a placa de 2m por 1,2m fica cuidadosamente presa a uma corrente com cadeado. “Às vezes, vou do outro lado cortar capim para a criação”, conta José Anselmo, enquanto se aventura pelo rio na maior elegância. A irmã Marinês de Araújo, mãe de dois filhos, pega carona e já tem todo o jeito de se acomodar para não cair: “Fomos até a um forró do outro lado e voltamos de madrugada. O rio está muito raso, seria bom que estivesse limpo.” Na outra margem, um morador ancora uma barca pequena e José Anselmo volta nela, mostrando que a olímpica canoagem é parte da vida da comunidade.

BASQUETE -
BASQUETE – “Antes de começar o serviço, de manhã bem cedo, a gente faz alongamento. A corrida diária pode chegar a 19 quilômetros. É preciso condicionamento físico” – Alexandre Júlio Pedro, de 38 anos, casado e pai de dois filhos, mostrando seu talento ao arremessar o saco de lixo à caçamba do caminhão no melhor estilo dos jogadores do Dream team dos Estados Unidos.
Já na Lagoa da Pampulha, em BH, funcionários da DLA Engenharia cuidam da limpeza do reservatório que emoldura o mais novo Patrimônio Cultural da Humanidade. Quem os vê de longe na balsa pode até pensar que eles estão praticando remo. Mas o mais velho de casa, Marcelo Rocha Júnior, de 33, conta que o garfo que recolhe o lixo também impulsiona a embarcação.

“Em 10 anos, já vi de tudo aqui. A gente recolhe muita sacola de plástico, garrafa PET e coco. Já encontrei até defunto.” Nos últimos tempos, Marcelo, ao lado dos colegas Rogenildo Alves dos Reis, de 42, e Kesley Rainer, de 20, explica que a atividade exige “força no braço”. Segundo a Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), a limpeza do espelho d’água envolve dois barcos, uma balsa e o trabalho diário de cerca de 30 homens. O volume de lixo recolhido no local é de cerca de 10 toneladas diárias no período de estiagem, e 20t/dia no chuvoso.

Correria Na Região Leste, outro grupo trabalha em sintonia fina para limpar a cidade. E recria, desta vez, um esporte com origem na primeira Olimpíada da Grécia Antiga, o atletismo. São os homens encarregados da coleta de lixo na cidade, que percorrem em média 25 quilômetros, mais do que meia maratona, e podem alcançar a velocidade de 7km/h. É bom lembrar que sobem e descem ladeira retirando os sacos de resíduos das lixeiras e lançando-os no caminhão. Com olhos verdes, dentes perfeitos e pinta de galã, Diego Charles, de 28, morador da Serra, na Região Centro-Sul, fala sem medo de errar: “A gente participa de uma Olimpíada por dia. O pior mesmo é quando chove, o trabalho fica mais difícil… perigoso escorregar ”.

REMO -
REMO – “Em 10 anos de serviço, já vi de tudo aqui na Lagoa da Pampulha. A gente recolhe muita sacola de plástico, garrafa PET e coco. Já encontrei até defunto” – Marcelo Antônio Rocha Júnior, de 33 anos, trabalha em equipe, numa empresa terceirizada pela Prefeitura de Belo Horizonte, para livrar o reservatório da sujeira. Ele garante que a atividade exige braço forte
Na manhã de quinta-feira, no Bairro Santa Efigênia, ao lado dos colegas Alexandre Júlio Pedro e Jonathan Chagas, o gari mostrou um pouco da rotina. “Antes de começar, faço um alongamento. Hoje, já corri nove quilômetros em uma hora e meia; depois, fomos ao aterro sanitário em Sabará, para percorrer mais 10 quilômetros”, contou. Mostrando o talento de um integrante do Dream team norte-americano, Alexandre arremessou o saco de lixo no caminhão. “Cesta!”, comemorou.

PARAR, JAMAIS Os salgados variados e pães de queijo de Roseli Gonçalves, de 56, duram pouco nas duas caixas de quitutes que ela traz do Bairro Sevilha, em Ribeirão das Neves, na RMBH, para vender em frente ao Hospital Infantil João Paulo II, na Alameda Ezequiel Dias, no Centro da capital. “Pego dois ônibus para estar aqui às 6h30. De lá de casa ao ponto, caminho uns quatro quarteirões”, conta a senhora casada, mãe de três filhos e avó de uma menina. Além dos 50 salgados e 20 pães de queijos, na embalagem de cerca de 20kg, Roseli traz ainda um banquinho para descansar.

ATLETISMO - ATLETISMO – “A gente participa de uma Olimpíada por dia. O pior mesmo é só quando chove, o trabalho fica mais difícil, pode escorregar” – Diego Charles, de 28 anos, morador da Serra, na Região Centro-Sul, percorreu de manhã, na última quinta-feira, 19 quilômetros, com intervalo para levar o lixo no caminhão ao aterro sanitário em Sabará
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FONTE: Estado de Minas.

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