Em pronunciamento após a cassação, Dilma projeta ‘enérgica oposição’ a Temer, insiste na tese de que foi vítima de golpe e diz que acionará a Justiça para retornar ao cargo

No Palácio da Alvorada, cercada por correligionários, a presidente cassada afirmou que o impeachment é
Brasília – Não houve espaço para lágrimas no último discurso de Dilma Vana Rousseff ao se despedir do cargo de presidente da República, no Palácio da Alvorada. A petista subiu ainda mais o tom das críticas ao que chamou de “segundo golpe de estado que sofreu na vida”, no pronunciamento feito depois da aprovação de seu impeachment pelo Senado. Numa fala emocionada e firme, a primeira mulher presidente do Brasil disse que quem toma o poder é “um grupo de corruptos investigados”, destacou os avanços de seu governo e revelou que não desistirá da luta. “Nós voltaremos. Voltaremos para continuar nossa jornada rumo a um Brasil em que o povo é soberano”, profetizou, cercada de correligionários e militantes.
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“Com a aprovação do meu afastamento definitivo, políticos que buscam desesperadamente escapar do braço da Justiça tomarão o poder unidos aos derrotados nas últimas quatro eleições”, disse a presidente, vestida com blazer vermelho, cor do PT. Para Dilma, o impeachment é uma “inequívoca eleição indireta” e esse processo atingiria em cheio a democracia. Ela destacou ter sido eleita por 54,5 milhões de votos.
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A petista afirmou que a decisão dos 61 senadores que votaram pela cassação ameaça políticas sociais e direitos trabalhistas. “O golpe é contra os movimentos sociais e sindicais e contra os que lutam por direitos em todas as suas acepções: direito ao trabalho e à proteção de leis trabalhistas; direito a uma aposentadoria justa; direito à moradia e à terra; direito à educação, à saúde e à cultura; direito aos jovens de protagonizarem sua história; direitos dos negros, dos indígenas, da população LGBT, das mulheres; direito de se manifestar sem ser reprimido”, atacou.
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Dilma lembrou sua trajetória de luta contra a ditadura militar e fez um balanço dos avanços do PT no governo à frente de um processo que, segundo ela, “promoveu a maior inclusão social e redução de desigualdades da história de nosso país”. Um pouco afastado, quem assistia ao discurso era seu padrinho político, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que escolheu gravata das cores da bandeira para acompanhar o desfecho do impeachment. Os senadores Gleisi Hoffman, Lindbergh Farias e Fátima Bezerra estavam ao lado da ex-presidente, além de seu advogado de defesa, o ex-ministro José Eduardo Cardoso.
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No pronunciamento, a petista sustentou mais uma vez sua inocência e reforçou que o partido ainda vai recorrer “em todas as instâncias possíveis”. Também chamou seus apoiadores à luta. “Haverá contra eles a mais firme, incansável e enérgica oposição que um governo golpista pode sofrer”, reforçou. E ainda completou, descartando um adeus: “Tenho certeza de que posso dizer daqui a pouco”. Às mulheres, Dilma afirmou que, com seu afastamento, o machismo e a misoginia mostraram suas “feias faces”.
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PROTESTO
À medida que senadores chegavam ao palácio, em especial Lindbergh Farias (PT-RJ), eram recebidos por gritos de “Me representa”. No Palácio da Alvorada, parlamentares e militantes seguiram a mesma linha de que a luta continua. Logo depois do discurso da presidente, ela foi almoçar com apoiadores. Do lado de fora, um grupo continuou protestando contra o resultado do Senado. Deputados e ex-ministros discursaram para os militantes em frente ao Alvorada. O ex-ministro da Justiça, Eduardo Cardozo, destacou a personalidade “guerreira” de Dilma, que animava muitos deles quando o desânimo batia. Militantes picharam o muro do Alvorada com os dizeres “governo golpista” e afixaram no quadro de avisos “Fora Temer”.

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FONTE: Estado de Minas.