Fundador do Inhotim lembra a época em que “estava à frente de várias empresas e sonhando com uma casinha e rede” e conta como seu jardim iniciado após sofrer um AVC se tornou o museu que completa 10 anos

Quando se pede a alguém para desenhar a felicidade, o primeiro desenho é uma casinha, montanhas, sol e um rio. O que precisamos é colocar tecnologia nessa casinha de modo que nela se possa conectar com o mundo inteiro - BERNARDO PAZ, empresário e fundador do Inhotim (Jair Amaral/EM/D.A Press)

Quando se pede a alguém para desenhar a felicidade, o primeiro desenho é uma casinha, montanhas, sol e um rio. O que precisamos é colocar tecnologia nessa casinha de modo que nela se possa conectar com o mundo inteiro – BERNARDO PAZ, empresário e fundador do Inhotim

 

Um estado de espírito. É assim que o empresário Bernardo Paz, de 67 anos, define o Instituto Inhotim, quando o museu que idealizou comemora 10 anos de existência. “Aqui é um lugar onde você chega angustiado, estressado e sai feliz”, afirma, justificando a definição. “Em Inhotim, a arte se mistura às perspectivas da beleza e da natureza com a ajuda da mão humana”, explica. Seu sonho para a instituição é enfatizar o perfil de um local que celebra e discute a vida, articulando passado, presente e futuro. O presidente do instituto diz se sentir satisfeito ao observar o impacto do local sobre as pessoas e conta que, às vezes, algumas se aproximam dele para lhe agradecer pelo que realizou. Também lhe causa satisfação ver jovens pobres da região de Brumadinho, que começaram a vida profissional trabalhando no local, chegarem à universidade.
Inhotim
Sem titubear, o empresário afirma que Inhotim é um paraíso, uma utopia concretizada, como ouviu do jornalista e crítico suíço Hans-Ulrich Obrist. Até vê algum exagero nos muitos elogios. “Mas não há lugar no mundo como aqui”, afirma, pontuando a dimensão e o caráter de instituição modelo. E não só das artes, mas semente do que ele considera que será o futuro: um conjunto de vilas autossustentáveis em todos os aspectos. Torná-las realidade, explica, é a meta mais ambiciosa da instituição. “Quando se pede a alguém para desenhar a felicidade, o primeiro desenho é uma casinha, montanhas, sol e um rio. Esta imagem está na raiz de todos nós. O que precisamos é colocar tecnologia nessa casinha de modo que nela se possa conectar com o mundo inteiro. Isso é o futuro para mim”, afirma.
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“As cidades grandes não se sustentam mais. Elas têm custos absurdos”, diz Paz. Em sua avaliação, a ausência de tecnologia e a impossibilidade de trocar informações são os fatores responsáveis pela aglomeração de pessoas na cidade. “Hoje não importa onde você mora, desde que haja um aeroporto por perto”, diz, sonhando com vilas onde se trabalha e se diverte 24 horas por dia.
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O mineiro argumentou nessa direção quando convidado a participar do Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça). “Os europeus entraram na África e não deixaram nada. Se tivessem criado um Inhotim, o que é fácil de fazer, teriam deixado algo que serviria de modelo para as populações. Agora, o povo que eles estão cercando vai entrar na Europa a nado”, diz, resumindo seu discurso na Suíça.
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Tendo como modelo de negócios “a Disneylândia”, já está em andamento a construção de hotéis, centro de convenções, teatro e anfiteatro no Inhotim. A infraestrutura vai permitir aprofundar ações de atendimento ao público, a realização de seminários e festivais, com personalidades de todos os setores e áreas do conhecimento.
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SAUDADES Bernardo Paz não esconde as saudades “do grande amigo Tunga” (que morreu há três meses),  que admirava pela inteligência e que, ao lado de Cildo Meireles, fomentou a criação de Inhotim. “Sacrifiquei minha vida por Inhotim e minha vida se transformou completamente aqui”, diz ele. Não esconde também certa angústia pela proximidade do fim do “tempo útil”, sendo que ainda há muito por fazer. “É nossa missão abrir pontes para o futuro”, observa. Ao falar sobre a decisão de criar Inhotim, o empresário situa a obra como fruto de sua própria biografia, da influência da mãe e de um sonho de infância.
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Bernardo Paz é o mais velho dos três filhos de Maria das Mercês de Melo Paz e de Achilles Paz. Ela, assistente social, gostava de poesia, de pintar e se envolvia em ações junto aos mais pobres. O pai, um engenheiro, filho de militar, cantava toda noite os hinos nacionais para os filhos dormirem. “Tudo que eles faziam nos levava ao sonho, aos heróis, a metas inalcançáveis”, recorda. “Tanto que me tornei um pré-adolescente e adolescente solitário, introspetivo. Sendo introspectivo, você fica só na observação. E comecei a me julgar inferior às pessoas que jogavam bola como ninguém, faziam todos os esportes, eram admiradas na infância”, conta. “Só pensava, sozinho e calado pelos cantos e tinha pesadelos por não acreditar que pudesse ser alguém na vida”, recorda.
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“Minha tristeza era que a idade ia avançando, eu tinha de tomar decisões e não me sentia preparado, me sentia incompetente. Sentia-me menos inteligente do que os outros. Não fazia coisas bonitas, não gostava de ir para a escola, matava aula, sempre sozinho. Não tinha turma de amigos para fazer bagunça”, acrescenta. “O que aprendi com isso é que os pais têm que prestar atenção ao que dizem para as crianças. Ninguém imagina o que fica preso na cabeça delas quando você as alimenta com perspectivas futuras impossíveis de serem alcançadas”, acrescenta. “No trabalho, deixava de lado toda a minha timidez e era extremamente desembaraçado, pois tinha de ser bem-sucedido. Assim foi minha vida inteira”, explica.
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MINERAÇÃO Seu ingresso no mundo do trabalho se deu ao assumir uma mineradora falida, que, em 20 anos, foi transformada em uma empresa poderosa, com atuação em vários ramos. Atravessou altos e baixos devidos a planos econômicos, erros e acertos que desembocaram em problemas nas empresas, mas não foram capazes de apagar seu gosto pela beleza que, segundo diz, herdou da mãe. Em lua de mel, em Acapulco (México), viu um clube “para turistas idiotas”, “tudo artificial”, mas que era o paraíso. Visitou o local, divertiu-se, ficou mexido com aquele ambiente, mas “não feliz”. Seja por considerar que sonhar com algo assim era “mais uma fantasia irrealizável criada pela cabeça do meu pai” ou pela visão que o incomodou: dezenas de crianças pobres pedindo esmola na porta de hotel de luxo onde estava hospedado com a esposa.
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A fase de bonança nos negócios levou à expansão internacional da empresa. Foi quando Paz sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) em Paris, a caminho da China. “Ouvi do médico que tinha três meses de vida. Fiquei assustado. Não larguei a bebida e o cigarro, mas me afastei das empresas”, conta. Mudou-se então para a fazenda em Brumadinho, “com a cabeça soltando fumaça”, recorda.
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“Eu estava à frente de várias empresas e sonhando com uma casinha e rede”, ironiza. “Comecei a fazer um jardim e, quando vi, já tinha 12 jardineiros e, rapidamente, eram 40 deles, além de ficar trazendo plantas do Brasil inteiro e de outros países tropicais”, conta. “Se você é criativo, não fica parado. Melhora a casa, faz uma horta, depois outra. Depois compra um trator, começa uma lavoura”, justifica.
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Atiçando o projeto do jardim, ele conta, esteve o paisagista Pedro Nehring. Burle Marx também andou visitando Brumadinho. Mas Paz entrou em desacordo com o último. “Optei pela minha ideia”, afirma. Ou seja: um jardim sob forma de labirinto. Em paralelo a essa atividade veio o convívio com artistas contemporâneos e obras que “misturando crítica e beleza”, articulavam presente, passado e futuro, além de serem fortes para crianças e jovens. Essa abordagem resolvia o incômodo do empresário com “a arte moderna pós-fotografia”, pelas deformações das figuras ou por serem obras difíceis de entender.
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Ao fazer o terceiro pavilhão para a arte de que gostava, comprou as terras em volta da fazenda (que hoje ocupa 2.000 hectares), “movido por algo que não compreendia, mas sabendo que estava fazendo a coisa certa”. “Como todos gostavam do jardim com os pavilhões, comecei a achar que tudo aquilo não devia ser só meu e da minha família.” Os elogios pavimentaram caminho para a decisão de criar e abrir ao público um parque de arte contemporânea que soma “a criação da vida e da natureza com a colaboração da mão humana”. O Inhotim evoca, segundo Bernardo, seus sonhos de infância. E algo que continua na memória dele até hoje: as pinturas da mãe que, recorda, tinham “horizontes muito bonitos”.

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FONTE: Estado de Minas.