Uma nação de refugiados

Com o agravamento da crise na Venezuela, cidadãos de lá encontram no Brasil uma esperança para reconstruir a vida. De janeiro a julho, 7,8 mil pessoas entraram com pedido de refúgio

 

Alexandra Perez e o marido, Edim Mendonza, conseguiram vagas para as filhas em escolas da 
rede pública  (Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press)

Alexandra Perez e o marido, Edim Mendonza, conseguiram vagas para as filhas em escolas da rede pública

Brasília – A grave crise econômica, política e social, aliadas à repressão das forças do presidente Nicolás Maduro, obrigam milhares de pessoas a deixarem a Venezuela. Além da criminalidade crescente, a falta de comida em supermercados cria uma realidade difícil de ser superada. Para os venezuelanos que atravessam a fronteira, o Brasil se torna a esperança de um futuro melhor, mais livre e com melhor qualidade de vida. De janeiro a julho deste ano, 7,8 mil cidadãos daquele país entraram com pedidos de refúgio no Brasil. Ano passado, o número de solicitações com o mesmo intuito, foi de 3,3 mil em todos os estados. Esses números, fazem da nossa nação a escolha número um dos venezuelanos entre os países da América Latina.

Qualquer emigrante que venha de uma nação que faça fronteira com o Brasil pode solicitar visto de residência temporária no país – que vale por dois anos – podendo ser renovada após este período. No entanto, como fogem de uma situação de crise, e até perseguição política, os povos da Venezuela podem ser enquadrados na condição de refugiados, o que concede residência permanente, caso o processo seja aprovado pela Secretaria Nacional de Justiça, ou pela Polícia Federal. O requerimento pode ser realizado assim que ocorre a entrada em território nacional, por via terrestre. O Brasil tem em andamento 12.960 solicitações deste tipo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, que registra 18 mil pedidos em tramitação.

PASSAGEM PRIORITÁRIA Por fazer fronteira com a Venezuela, o estado de Roraima é porta de entrada dos emigrantes. Somente a Superintendência da Polícia Federal nesta unidade da federação recebeu neste ano 6.438 pedidos de refúgio. No entanto, após entrar no país, os refugiados seguem para diversos estados, como São Paulo e Distrito Federal. Eles vão em busca de vagas no mercado de trabalho, oportunidades de estudo e local de moradia.

Um grupo de quatro refugiados venezuelanos encontrou em uma churrascaria tradicional de Brasília a oportunidade de deixar para trás a fome, a falta de recursos financeiros e as cenas de violência que viram em sua terra natal. O garçom Johanny Gonzales, de 25 anos, foi o primeiro do grupo a chegar na capital. Ele resolveu deixar a Venezuela quando começou a faltar mantimentos na cidade onde morava. “Percebi que não dava mais para ficar lá quando começou a faltar coisas básicas, como papel higiênico e carnes. Um amigo que mora em Águas Lindas me ajudou com a passagem. Encontrei uma vida melhor, e tenho dinheiro para comprar comida, adquirir minhas coisas”, afirma.

O garçom Johanny Gonzales e outros venezuelanos comemoram emprego em churrascaria no Brasil (Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press)
O garçom Johanny Gonzales e outros venezuelanos comemoram emprego em churrascaria no Brasil
SAUDADE DOS PARENTES Johanny lamenta pelos familiares que ainda estão no país vizinho, mas comemora o fato de agora poder ajudar a família. “Minha irmã ainda está lá e a situação é cada vez pior. Mas daqui eu posso enviar ajuda financeira. O Brasil é um país maravilhoso, aqui temos muitas oportunidades. As pessoas são muito acolhedoras. Pretendo voltar a Venezuela como turista, mas vou me casar e viver aqui”, completou ele, que está no Brasil há dois anos. O amigo dele, Jacinto Maza, 27, veio ao Brasil junto com a esposa logo em seguida, após saber das possibilidades para construir uma nova vida. “A crise lá atingiu o país inteiro. Então eu e minha esposa resolvemos ir para Brasília. Desta forma podemos construir nossa vida de novo e mandar ajuda para os que lá ficaram”, conta.

Grande parte dos migrantes brasileiros que chegam da Venezuela tem boa formação profissional. Isso facilita a contração por uma empresa em território nacional. De acordo com dados fornecidos pelos próprios refugiados ao chegarem no Brasil pela região Norte, 17% são estudantes, que pretendem continuar se capacitando no Brasil. Na lista das profissões mais exercidas por eles, a profissão de engenheiro aparece em primeiro lugar, representando 6% do grupo. Os médicos são 4%, seguidos por professores, que somam 3%.

Nas últimas semanas, a crise na Venezuela ganhou novos capítulos, que jogam um destino do país em um caminho cada vez mais incerto. Em uma votação duvidosa, onde o presidente Nicolás Maduro é acusado de inflar os números do pleito com 1 milhão de votos inexistentes, foi eleita a Assembleia Nacional Constituinte. A entidade tem como atribuição criar uma nova constituição, substituindo o texto de 1999. Entre os integrantes da assembleia, está a mulher e o filho de Maduro.

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FONTE: Estado de Minas.