Antequam noveris, a laudando et vituperando abstine. Tutum silentium praemium.

Arquivo do mês: abril 2019

Beth Carvalho — Foto: Divulgação / Washington Possato

A cantora e compositora Beth Carvalho morreu no Rio nesta terça-feira (30), aos 72 anos. Ela estava internada no Hospital Pró-Cardíaco, em Botafogo, Zona Sul da cidade, desde o início de 2019. A causa da morte ainda não foi divulgada.

Com mais de 50 anos de carreira e dezenas de discos gravados, Beth Carvalho é um dos maiores nomes do samba e considerada madrinha de artistas como Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Jorge Aragão – daí o apelido “Madrinha do Samba”.

Um problema na coluna já afligia a cantora havia algum tempo. Em 2009, Beth Carvalho chegou a cancelar sua apresentação no show de réveillon, na Praia de Copacabana, por causa de fortes dores. Em 2012, a cantora se submeteu a uma cirurgia na coluna. No ano seguinte, Beth foi homenageada pela escola de samba Acadêmicos do Tatuapé, no carnaval de São Paulo, mas não participou do desfile já por motivos de saúde. Lu Carvalho, sobrinha de Beth, foi quem representou a tia na ocasião.

Show histórico

Em 2018, com a mobilidade cada vez mais reduzida pelos efeitos do problema na coluna, Beth fez um show histórico. Ao lado do grupo fundo de Quintal, ela mostrou sua força ao cantar deitada seus sucessos no show “Beth Carvalho encontra Fundo de Quintal – 40 anos de pé no chão”.

Beth Carvalho — Foto: Divulgação / Washington Possato

Beth Carvalho canta deitada em show no Rio de Janeiro — Foto: Mauro Ferreira

Durante sua internação no início de 2019, Beth teve que reduzir a quantidade de visitas. A informação foi compartilhada por sua filha, Luana, após um vídeo mostrar a cantora debilitada cantando deitada na cama do hospital.

Vida e obra

Elizabeth Santos Leal de Carvalho nasceu no Rio, em 5 de maio de 1946. De acordo com o site oficial da artista, seu contato com a música foi incentivado pela família, ainda na infância. Aos 8 anos, apareceram o gosto pela dança e o primeiro violão, que ela ganhou dos avós. Após a prisão do pai no período da ditadura, em 1964, Beth passou a ministrar aulas de música.

Em 1965, gravou o seu primeiro compacto simples, com a música “Por quem morreu de amor”, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli. Seu grande sucesso, “Andança”, é o título de seu primeiro LP, lançado em 1969.

Beth participou de quase todos os festivais de música da época. Em 1968, conquistou a terceira posição no Festival Internacional da Canção (FIC), justamente com “Andança”.

A partir de 1973, passou a lançar um disco por ano e emplacou vários sucessos como “1.800 Colinas”, “Saco de Feijão”, “Olho por Olho”, “Coisinha do Pai”, “Firme e Forte” e “Vou Festejar”. Também gravou composições de Cartola, como “As rosas não falam”, e “Folhas Secas”, de Nelson Cavaquinho.

Beth Carvalho se apresenta deitada em show de 40 anos de clássico do samba

Beth Carvalho se apresenta deitada em show de 40 anos de clássico do samba

A cantora era apaixonada pela Mangueira, sua escola de samba do coração, e pelo bloco Cacique de Ramos, onde conheceu muitos de seus apadrinhados.

“Beth é inquieta. Não espera que as coisas lhe cheguem, vai mesmo buscar. Pagodeira, ela conhece a fertilidade dos compositores do povo e, mais do que isso, conhece os lugares onde estão, onde vivem, onde cantam, como cantam e como tocam”, diz a biografia publicada em seu site oficial.

Em 1979, Beth se casou com o jogador de futebol Edson de Souza Barbosa e, dois anos depois, deu à luz sua única filha, Luana Carvalho.

A cantora já fez inúmeras apresentações em cidades ao redor do mundo, subiu ao palco do Carnegie Hall, em Nova York, e até teve sua música representada no espaço sideral. Em 97, “Coisinha do pai” foi programada pela engenheira brasileira da NASA, Jacqueline Lyra, para “despertar” um robô em Marte.

Em junho de 2002, recebeu das mãos de Dona Zica, viúva de Cartola, o Troféu Eletrobrás de Música Popular Brasileira, no Teatro Rival do Rio de Janeiro. Seu 26º disco, “Pagode de mesa 2” (2000), concorreu ao Grammy Latino na categoria melhor disco de samba.

Em 2004, ela gravou seu primeiro DVD, “Beth Carvalho, a Madrinha do Samba”, que lhe rendeu um DVD de Platina. O CD, que teve lançamento simultâneo ao DVD, recebeu Disco de Ouro e foi também indicado ao Grammy Latino de 2005, na categoria “Melhor Álbum de Samba”.

Beth Carvalho foi homenageada na edição 2009 do Grammy Latino, em Las Vegas. Na ocasião, a cantora foi a primeira sambista a receber um dos reconhecimentos mais importantes do Grammy, o prêmio Lifetime Achievement Awards.

 

FONTE: G1.


VITTORIO MEDIOLI

Cinco camarões e 1.500 watts

Os deuses têm suas regras, e feliz é o humilde que as respeita

Existem pessoas que subestimam a importância do alimento, desperdiçando-o, assim, sem dor. Como troco, estou convencido, não receberão no momento de maior necessidade os cuidados que a natureza dispensa aos probos e aos respeitosos da fome alheia. Pagam-se nesta terra os pecados da indiferença, e, quando não acontece já nesta vida, será nas próximas.

Num mundo onde existem bilhões de seres humanos e de animais que padecem sem o mínimo de alimento, as forças ocultas da justiça desta terra não perdoam. De várias formas, os deuses cobram pelo descaso com o sofrimento, mesmo pelo mais distante e, aparentemente, sem importância. Existe uma nuvem cheia de méritos e pecados que flutua sobre todos e precipita acertando os indiferentes.

Ao entrar num monastério zen, se ensina: “quem desperdiça um único grão de arroz não ascenderá ao reino do céu”. Depois disso, o aluno é instruído a lavar sua vasilha e beber da água que usou para a tarefa, só assim terá certeza de que nenhum grão ou fracção se perdeu.

Ignaro dessas advertências, há quem deixe o prato quase cheio, achando celeradamente que isso distingue os ricos dos pobres. Encontrei ao longo da vida casos que me restaram impressos na memória e me levaram a aguardar as consequências cármicas.

A deusa hindu mostra a palma de uma mão virada para baixo e a da outra para cima, indicando que os cuidados com o ínfimo devem ser iguais àqueles com o mais elevado. Tanto na terra como no céu, devem se estender as preocupações humanas.

Bem por isso existem detalhes que marcam as pessoas condenadas a enfrentar, quase inexplicavelmente para os distraídos, um destino cruel.

Reparei, ao chegar ao Brasil em 1976, que as formas de viver, de economizar e de tratar os alimentos eram bem diferentes das maneiras do continente de onde eu vinha.

Na primeira vez em que almocei num restaurante em Belo Horizonte com um casal abastado, observei com estranheza seu comportamento. O casal pediu de aperitivo um uísque sour (destilado com gelo, alta dose de sal, açúcar e suco de limão). O marido ficou num filé malpassado, e ela, com meio frango grelhado. Desse, tirou um pequeno pedaço e deixou o resto com o contorno de batatas assadas no prato. O garçom era tratado com descaso e falta de atenção.

Passadas duas décadas, reencontrei casualmente a esposa, trajada sem requinte e maquiagem alguma, que me disse estar passando por dificuldades sem condições de cuidar dos filhos. O marido, alcoólatra, tinha sumido, deixando a família na miséria.

Não faz muito tempo que ouvi as lamentações de uma pessoa: “Fiz tudo certo, não merecia que minha família fosse ferida dessa forma…”. Embora sofrer faça parte da evolução, e bem por isso as adversidades devam ser recebidas da mesma forma que as vitórias, essa senhora um dia me perturbou deixando na minha memória um episódio que permanece vívido. Num banquete às custas do erário público, ao ser servida por um garçom, para o qual não dava um olhar, sentada à frente do apático marido, permitiu que este colocasse no prato dela, pausadamente, cinco camarões gigantes até que não coubesse mais nada. Choquei-me. Camarão é colesterol puro da pior espécie, e aquela dose poderia intoxicá-la. Embevecida da atmosfera de glamour, só cortou a ponta de um camarão, mandando para o lixo o resto.

Passaram-se alguns anos, e a senhora nem sequer consegue sair de casa.

Dalai Lama, por sua vez, esteve pela primeira vez no Brasil e visitou o Congresso Nacional. Da primeira fila, observei seus movimentos e semblantes sempre sorridentes. O garçom lhe ofereceu um copo d’água. Ele agradeceu profusamente, perguntou ao garçom se ele mesmo gostaria de aproveitar daquela água, tanto à direita como a esquerda ofereceu compartilhar seu copo e, depois de todas as desistências, sorveu parte do líquido sagrado.

Exatamente naqueles dias, num gabinete de um colega deputado, igual ao meu, encontrei, ao visitá-lo, o antebanheiro com a porta aberta e três lâmpadas de 500 watts (!) ligadas. Sinalizei em apagá-las, mas ele disse: “Pode deixar aceso”. Não insisti. No meu gabinete, igual ao dele, já tinha trocado duas lâmpadas pela menor potência disponível e exigi a supressão de uma terceira. Com isso, alcancei uma economia de 1.350 watts ao usar o banheiro por poucos minutos durante o dia. Esse senhor está atualmente atolado na Lava Jato, e sua carreira está em cinzas, que o vento ainda não levou por inteiro.

Os deuses têm suas regras, e feliz é o humilde que as respeita.

.

FONTE: O Tempo.



%d blogueiros gostam disto: