VITTORIO MEDIOLI

Cinco camarões e 1.500 watts

Os deuses têm suas regras, e feliz é o humilde que as respeita

Existem pessoas que subestimam a importância do alimento, desperdiçando-o, assim, sem dor. Como troco, estou convencido, não receberão no momento de maior necessidade os cuidados que a natureza dispensa aos probos e aos respeitosos da fome alheia. Pagam-se nesta terra os pecados da indiferença, e, quando não acontece já nesta vida, será nas próximas.

Num mundo onde existem bilhões de seres humanos e de animais que padecem sem o mínimo de alimento, as forças ocultas da justiça desta terra não perdoam. De várias formas, os deuses cobram pelo descaso com o sofrimento, mesmo pelo mais distante e, aparentemente, sem importância. Existe uma nuvem cheia de méritos e pecados que flutua sobre todos e precipita acertando os indiferentes.

Ao entrar num monastério zen, se ensina: “quem desperdiça um único grão de arroz não ascenderá ao reino do céu”. Depois disso, o aluno é instruído a lavar sua vasilha e beber da água que usou para a tarefa, só assim terá certeza de que nenhum grão ou fracção se perdeu.

Ignaro dessas advertências, há quem deixe o prato quase cheio, achando celeradamente que isso distingue os ricos dos pobres. Encontrei ao longo da vida casos que me restaram impressos na memória e me levaram a aguardar as consequências cármicas.

A deusa hindu mostra a palma de uma mão virada para baixo e a da outra para cima, indicando que os cuidados com o ínfimo devem ser iguais àqueles com o mais elevado. Tanto na terra como no céu, devem se estender as preocupações humanas.

Bem por isso existem detalhes que marcam as pessoas condenadas a enfrentar, quase inexplicavelmente para os distraídos, um destino cruel.

Reparei, ao chegar ao Brasil em 1976, que as formas de viver, de economizar e de tratar os alimentos eram bem diferentes das maneiras do continente de onde eu vinha.

Na primeira vez em que almocei num restaurante em Belo Horizonte com um casal abastado, observei com estranheza seu comportamento. O casal pediu de aperitivo um uísque sour (destilado com gelo, alta dose de sal, açúcar e suco de limão). O marido ficou num filé malpassado, e ela, com meio frango grelhado. Desse, tirou um pequeno pedaço e deixou o resto com o contorno de batatas assadas no prato. O garçom era tratado com descaso e falta de atenção.

Passadas duas décadas, reencontrei casualmente a esposa, trajada sem requinte e maquiagem alguma, que me disse estar passando por dificuldades sem condições de cuidar dos filhos. O marido, alcoólatra, tinha sumido, deixando a família na miséria.

Não faz muito tempo que ouvi as lamentações de uma pessoa: “Fiz tudo certo, não merecia que minha família fosse ferida dessa forma…”. Embora sofrer faça parte da evolução, e bem por isso as adversidades devam ser recebidas da mesma forma que as vitórias, essa senhora um dia me perturbou deixando na minha memória um episódio que permanece vívido. Num banquete às custas do erário público, ao ser servida por um garçom, para o qual não dava um olhar, sentada à frente do apático marido, permitiu que este colocasse no prato dela, pausadamente, cinco camarões gigantes até que não coubesse mais nada. Choquei-me. Camarão é colesterol puro da pior espécie, e aquela dose poderia intoxicá-la. Embevecida da atmosfera de glamour, só cortou a ponta de um camarão, mandando para o lixo o resto.

Passaram-se alguns anos, e a senhora nem sequer consegue sair de casa.

Dalai Lama, por sua vez, esteve pela primeira vez no Brasil e visitou o Congresso Nacional. Da primeira fila, observei seus movimentos e semblantes sempre sorridentes. O garçom lhe ofereceu um copo d’água. Ele agradeceu profusamente, perguntou ao garçom se ele mesmo gostaria de aproveitar daquela água, tanto à direita como a esquerda ofereceu compartilhar seu copo e, depois de todas as desistências, sorveu parte do líquido sagrado.

Exatamente naqueles dias, num gabinete de um colega deputado, igual ao meu, encontrei, ao visitá-lo, o antebanheiro com a porta aberta e três lâmpadas de 500 watts (!) ligadas. Sinalizei em apagá-las, mas ele disse: “Pode deixar aceso”. Não insisti. No meu gabinete, igual ao dele, já tinha trocado duas lâmpadas pela menor potência disponível e exigi a supressão de uma terceira. Com isso, alcancei uma economia de 1.350 watts ao usar o banheiro por poucos minutos durante o dia. Esse senhor está atualmente atolado na Lava Jato, e sua carreira está em cinzas, que o vento ainda não levou por inteiro.

Os deuses têm suas regras, e feliz é o humilde que as respeita.

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FONTE: O Tempo.