Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

O que aprendi com os primos

Ana Cristina Reis, editora da Revista O GLOBO Foto: Reprodução

“A coisa que eu mais queria ontem, ao chegar em casa depois da tragédia brasileira na Colômbia, era receber um abraço do meu filho”, escreveu meu colega jornalista Fernando Moreira, em um post no Face. “E lá veio o Rafa correndo pela casa! Ajoelhei-me na cozinha e ele se aconchegou nos meus braços. Não durou muito. Crianças não se ligam muito nesse negócio de tempo, né?”

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Fernando continuou: “E lá se foi o Rafa fazer as coisas de que mais gosta: correr (ainda meio desengonçado) e brincar com os seus carrinhos. Eu me sentei no chão da cozinha e fiquei pensando em como a vida passa mais rapidamente que um avião supersônico e como os abraços são efêmeros. Mas, de alguma forma, aquele abraço do Rafa ficou tatuado na minha alma. Para sempre. Um sinal do tempo atemporal. Levantei-me, dei alguns passos (desengonçados — é genético!) e descobri que a vida segue abraçada na gente. Sou abraçoense”.

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Curioso ter lido este texto imediatamente após ter pensando sobre o que escreveria na crônica de hoje: primos. Não tenho filho, talvez por isso meus primos sejam um pouco meus Rafas. Eles vêm me abraçando na vida mesmo sem saber.

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Caio Mário veio ao mundo para apresentar os amigos, que viraram meus amigos.

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Abgar despertou meu interesse pelo português ao brigar com o irmão usando palavras como sicofanta e energúmeno.

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Fernando, que fala russo, entende o colapso do átomo clássico e dirige bem mesmo debaixo de nevasca, tentou me explicar física quântica quando lhe pedi. Para facilitar as aulas, usou como metáfora a mecânica do funcionamento de… hidrantes. Não funcionou, mas me apaixonei por hidrantes. Passei todos os dias daquelas férias reparando neles. Era maio, temporada linda nos Estados Unidos, onde Fernando morava. Quando eu não pedia para ele parar o carro a fim de fotografar as torneiras, saía a pé sozinha em missão de reconhecimento — que consistia em me acercar respeitosamente de um hidrante, pousar as mãos sobre ele e seguir explorando seus contornos, mais ou menos como a Demi Moore fazia com os potes de argila no filme “Ghost”. Conheci os hidrantes de Washington, revi os de Nova York e, ao cabo de 20 dias, elegi meus preferidos: os da cidadezinha de Alexandria, em Virginia. Pintados de branco e amarelo, gorduchinhos e menores que os brasileiros, eram figuras carinhosas e um pouco (mas só um pouquinho) carentes. Com Fernando, aprendi que é o.k. não entender tudo. O que importa é a perspectiva. Ou seja, quem não compreende física quântica se diverte com hidrante.

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Dani, médica, com marido simpático e filhas educadíssimas, sempre que vem ao Rio me procura e me surpreende: é possível uma criança temporã, de pais separados, virar uma mulher centrada, carinhosa e encantada pela vida; alguém que é lúcida sem ser pessimista.

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Jacque, com quem patinava no gelo no Tivoli Park, hoje é minha companhia para as missas de sétimo dia.

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Paula, uma estudiosa da natureza humana, antes de se casar me contou como enxergava as virtudes e os defeitos dos homens estrangeiros que namorou. Italiano: “É aquele que te olha com cara de fome, usa um treco meloso no cabelo, passa o domingo na frente da TV vendo futebol, e anda de camisa aberta para mostrar o peito cabeludo com o cordão de ouro. É o eterno filhinho da mamãe. No fundo, eles acham que se for para se casar e ter que ajudar a mulher em casa, seria melhor ter ficado com a mãe”. Francês: “É mal-humorado, mal-educado e, cá entre nós, a língua francesa só fica bem na boca da Carole Bouquet. Na boca do candidato a homem sempre tem um ar meio gay. Outro problema é se achar muito intelectual. Se você perguntar se ele ficou feliz de ser campeão do mundo pela primeira vez, não vai conseguir arrancar dele um sim ou um não. Ele vai fazer um discurso de 30 minutos sobre a influência do futebol na cultura de massa…” Norueguês: “É lindo, grande e saudável. Acho que nunca viu uma gripe. Não sei se é o leite, o salmão ou a acquavit. Algumas vezes, são bastante formais, o que para mim é definitivamente um ponto positivo. Talvez lhe falte um pouco de sal, mas aí seria perfeito demais”. Paula se casou com Sandro, um italiano.

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Marco Antonio convida para Búzios com Taittinger e um quarto de hóspedes recheado de livros. Onde vemos estantes de livros hoje em dia?

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FONTE: O Globo.



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