Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

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Comércio

Eduardo Almeida Reis

Publicação: 08/09/2013 04:00

Na Juiz de Fora de não muito antigamente havia imensa loja, a Casa do Compadre, que vendia tudo. Sei que “tudo” parece força de expressão, mas o fato é que a loja tinha tudo que faltava nas outras. Alguns exemplos: telefone de parede, daqueles de madeira, e imensas pilhas novas para telefones de parede; torradeiras de café, bolas de lata para rodar na chama do fogão de lenha; moedor manual de café torrado nas torradeiras de lata; ferro de engomar a carvão; lampiões a querosene – tudo isso e mais um milhão de produtos hoje incomuns, além de outros relativamente comuns.Pormenores originais: as mercadorias não tinham etiquetas com os preços e a firma não usava aquelas maquininhas, comuns durante os anos de inflação maluca. Vejo que escrevi uma besteira: se não havia etiquetas, por que usar máquinas de etiquetar?

Era tudo calculado de cabeça pelos donos, acho que irmãos, e seus sobrinhos, que estabeleciam os preços de acordo com a cara do comprador. Como tenho cara de rico, raramente comprei alguma coisa na Casa do Compadre. Ficava no carro e pedia a um amigo que comprasse para mim. Mineiros sabem pechinchar, verbo que não aprendi até hoje. Se peço abatimento e o comerciante faz desconto expressivo, fico achando que o preço pedido era para me roubar. Nunca fiz um negócio em que não fosse enganado, salvo na compra de terras, que se valorizaram com o passar do tempo. E nas vacas, que têm filhas, netas, bisnetas. Vaca é bicho abençoado.

O certo é que a atividade comercial e a aptidão para o comércio me fascinam. Conheço vários comerciantes natos. Parecem acreditar nas virtudes das coisas que revendem e no direito divino de faturar, o que acaba fazendo que os outros acreditem neles. Mercúrio era o deus romano dos viajantes, dos comerciantes e dos ladrões. Xixi Piriá, personagem do admirável romance Vila dos Confins, do não menos admirável Mário Palmério, contava com a estima e o respeito de todos, apesar de viajar mascateando perfumes, joias e pequenos utensílios. Digamos, então, que Xixi fosse uma exceção à regra dos protegidos de Mercúrio.

Lojas modernas, com todos os recursos da informática, têm coisas inacreditáveis. Pedi a um amigo que me comprasse em Belo Horizonte determinado chuveiro elétrico, que custa pouco mais de 600 reais. A loja tem diversas filiais na cidade. Meu amigo esteve numa filial próxima do Mercado Central, onde lhe informaram que o chuveiro estava em falta. Pelo interurbano, descobri que havia uma porção de chuveiros em estoque noutra loja da mesma empresa, onde o amigo comprou e me trouxe o aparelho encomendado.

Como é mineiro meio esquentado, aproveitou para passar uma descompostura no gerente da loja dizendo ser inadmissível que um produto caro, como o tal chuveiro, fique em estoque numa das lojas enquanto as outras informam que o aparelho está em falta.

Trem-bala

No reino da fantasia instalado ao sul do equador, nenhuma ideia se compara, em idiotice, ao trem-bala. Se o robô faz a robótica, os óculos a ótica e o equilíbrio dietético yin-yang a macrobiótica, é forçoso reconhecer que os marqueteiros inventaram a idiótica, se bem que o adjetivo idiótico, relativo a idiotia ou a idiotismo, exista em português desde 1858. É puro grego: idiótikós,ê,ón ‘ignorante; trivial, vulgar’.

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Idiótica é outro departamento: é a ciência e técnica da bolação, veiculação e embromação dos idiotas. Como pensar em composições de alta velocidade se o sistema ferroviário brasileiro continua na Idade da Pedra? Falar em trem-bala ligando o Rio a Campinas é o mesmo que um sujeito de 20 anos, sem estudos de qualquer natureza, candidatar-se em Berkeley a um doutorado em física quântica.

O mundo é uma bola

8 de setembro de 1264: o príncipe Boleslau, o Piedoso de Kalisz, assina o Estatuto de Kalisz, carta que regulamenta as liberdades dos judeus e as obrigações dos cristãos na Polônia. O estatuído é uma delícia e está na Wikipédia, mas não encontrei o nome de batismo de Boleslau, pois ninguém pode ter esse nome, ainda que seja príncipe de Kalisz.

Em 1423, o papa Eugênio IV assina a bula Rex Regnum, um dos documentos que incentivaram o tráfico de escravos. Em 1504, primeira exibição de David, estátua de Michelangelo. Muitos especialistas acham que o bráulio de David é pequeno. Em 1612, fundação da cidade de São Luís do Maranhão, que teria a glória de ser habitada pelas famílias Sarney e Lobão.

Em 1636, fundação da Universidade Harvard, primeira instituição de ensino superior dos Estados Unidos. Anos atrás, caí na besteira de escrever Universidade de Harvard e quase fui escalpado por um leitor, ex-aluno de Harvard, porque o nome é Universidade Harvard sem o “de”.

Em 1664, os ingleses capturam dos holandeses a cidade de New Amsterdam e mudam o nome para New York. Em 1760, capitulação de Nova França (hoje Ontário e Quebec) aos ingleses. Em 1888, Jack, o Estripador, faz a sua segunda vítima.

Hoje é o Dia Internacional do Jornalista.

Ruminanças

“Não há profissão mais bela, mais interessante que a de jornalista; nenhuma exige mais talento, tato e vivacidade” (León Daudet, 1867-1942).


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