Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

Palavras

Esta mania de aportuguesar palavras tem coisas intoleráveis: budoar é uma delas

Publicação: 20/09/2013 04:00

Budoar é de lascar. Parece bu do A.R. (Almeida Reis?) e o Houaiss não tem bu, tem bubonalgia, dor nas virilhas, e o regionalismo bubu, sinônimo de nádegas. É o que os gramáticos, chatos como eles só, chamam de redobro: processo formal de repetir segmentos fônicos de uma palavra ou mesmo toda a sequência fônica de vocábulos, para indicar categorias gramaticais ou para obter efeitos expressivos; reduplicação. Abrange exemplos da linguagem infantil (babá, pipi, titia), hipocorísticos afetivos familiares (Lulu, Vavá) e os mais diversos recursos intensificadores (muito, muito alto; fazer algo devagar, devagar). Por que não escrever boudoir? É cômodo pequeno e elegante, em moradias requintadas, reservado à dona da casa, que nele pode se isolar ou receber pessoas íntimas. Também é local onde se acordam favores amorosos e/ou se pactua secretamente. Daí diplomacia de boudoir. Hoje, local onde se acordam favores amorosos está mais para motel e as moradias requintadas, com pequeno e elegante cômodo, são cada vez mais raras, se é que ainda existem. Há casas imensas e luxuosas, mas pouco ou nada requintadas. Esta mania de aportuguesar palavras tem coisas intoleráveis: budoar é uma delas. Aliás, os lexicógrafos têm coisas inexplicáveis como dicionarizar gougre, adjetivo de dois gêneros. O leitor e o seu philosopho conhecemos uma porção de damas e cavalheiros gougres, mas nunca lemos, ouvimos ou dissemos o adjetivo de dois gêneros, que significa “deselegante no trajar”, regionalismo brasileiro. É dose.

Engordativa
Tive amiga engordativa que só pensava em comida, só falava do que comera e do que pretendia comer. Senhora roliça, prima bem mais velha e da melhor respeitabilidade, descrevia um trajeto de acordo com os restaurantes e as confeitarias do caminho. A Avenida Atlântica, onde se reuniram os milhões de peregrinos do papa Francisco, era “aquela avenida do Lucas”, pelo restaurante da esquina com a Rua Sousa Lima. No Centro do Rio de Janeiro havia a “rua da Pavê”, a “esquina da Colombo”, a “avenida da Maison de France” e assim por diante. Certa feita, descrevendo o acesso ao sítio de um amigo no então longínquo Jacarepaguá, ela citou uns 30 restaurantes que havia pelo caminho para chegar à estrada rural em que você andava oito quilômetros até encontrar, à direita, uma placa: “Vendem-se ovos”. A porteira do sítio ficava do outro lado da estrada.

Sensação térmica
Sempre leio sobre sensação térmica e fiquei feliz de ouvir um meteorologista dizer que é simples fórmula matemática, em que entram a temperatura em graus Celsius, a velocidade do vento e a umidade relativa do ar. Fui procurar no Google e encontrei fórmula complicadíssima, que não considera a umidade relativa e informa o seguinte: “Assim, em um local onde a temperatura é 5°C e o vento sopra a 40 km/h a sensação térmica é de aproximadamente -9,5°C”. A partir daí, a fórmula tem aquele V de raiz quadrada, que nunca entendi. Minha aritmética terminou na tabuada decorada e até hoje sei que 9 x 9 é igual a 81, como também sei que sinto um frio danado. E noto que ligeira alteração no termômetro da sala, coisa de 2°C, melhora minha natural felicidade. Aos 17°C o ambiente é insuportável, melhora bastante aos 19°C e o paroxismo da felicidade começa aos 22°C, ainda muito agasalhado. Nas ruas, velho de canela de fora é um pavor, mas em casa o bermudão é tolerável. Acho que bermudão com bolsos para isqueiros, lenço de linho e lenços de papel, só acima dos 26°C. Vou ficar atento e prometo dar notícia ao pacientíssimo leitor, que presumo interessadíssimo nas minhas sensações térmicas.

O mundo é uma bola
20 de setembro de 331 a.C., Alexandre, o Grande, atravessa o Rio Tigre para enfrentar o Império Persa. Tigre ou Tígris, em árabe Dijla, em turco Dicle, na Bíblia Hiddekil, é o mais oriental dos dois grandes rios que delineiam a Mesopotâmia, que significa “terra entre os rios”. O outro é o Eufrates, em aramaico Frot/Frat, em persa antigo Ufrat, em turco Firat. Em 1276, eleição do papa João XXI, o único papa português da história. Em 1378, eleição de Clemente VII, o Antipapa, em oposição a Urbano VI, iniciando o Grande Cisma do Ocidente. Em 1519, a partir da Espanha, Fernão de Magalhães inicia aquela que seria a primeira viagem de circum-navegação do planeta. Fernão morreu flechado no caminho. Em 1870, Risorgimento: fim do domínio dos Estados pontifícios sobre Roma. Em 1898, o mineiro Santos Dumont realiza o primeiro voo de balão com propulsão própria. Em 1919, Cândido Mariano da Silva Rondon é nomeado diretor de engenharia do Exército. Em 1896, nasceu Eduardo Gomes, o brigadeiro, político e militar brasileiro. Em 1897, nasceu Humberto de Alencar Castello Branco, presidente do Brasil, honesto e alfabetizado. Em 1917, veio ao mundo Obdulio Varela, aliás, Obdulio Jacinto Muiños Varela, capitão da Celeste que aprontou em 1950 no recém-inaugurado Maracanã. Em 1936, nasceu Sophia Loren, aliás Sofia Villani Scicoloni, que dispensa considerações. Hoje é aniversário de Pará de Minas, onde Igor, doutor em ciência da computação, tem a mais linda noiva do universo.

Ruminanças
“Se os macacos chegassem a experimentar o tédio, tornar-se-iam homens” (Goethe, 1749–1832).

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