Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

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Três dias

Eduardo Almeida Reis

Publicação: 26/08/2013 04:00

Sete anos de pastor Jacó servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; mas não servia ao pai, servia a ela, que a ela só por prêmio pretendia. Os dias, na esperança de um só dia, passava contentando-se com vê-la; porém o pai, usando de cautela, em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Se o soneto de Luís Vaz não é exatamente assim (meu Camões anda sumido desde a mudança), é muito parecido. Lembrei-me dele, soneto, depois de passar 72 horas sem televisor. E olhem que tive um dos primeiros televisores do Rio, com o seguinte detalhe: ainda não havia televisão. Você ligava o aparelho, obviamente preto e branco, e a vizinhança afluía em peso para ver os chuviscos na telinha de 14 polegadas: um sucesso! Algum tempo depois, a TV Tupi passou a transmitir sinal com a figura de um índio, para que os técnicos pudessem instalar as antenas nos altos dos edifícios de Copacabana. E a vizinhança ficava fascinada pela figura imóvel do silvícola.
De lá para cá, todo mundo viu. Hoje o negócio é à base do diodo emissor de luz, conhecido pela sigla LED, em inglês Light Emitting Diode, que já se usa nos sinais de trânsito (chamados semáforos em Belo Horizonte), nos faróis dos automóveis, em painéis, cortinas e pistas de LED.
Nos três dias sem tevê devo ter deixado de ver centenas de depoimentos idiotas sobre a tragédia da Vila Brasilândia, em São Paulo, SP, onde perderam a vida cinco pessoas, e críticas idiotas ao presidente do STF por ter constatado o que a humanidade pensa. Mas descobri algo que deve ser dividido com o leitor.
Dizia-se que a televisão acabaria com o rádio e o cinema, que continuam firmes e fortes. No meu caso, descobri agora, tem prejudicado a leitura. Nas 72 horas que fiquei sem o televisor, que “congelou” em Renata Lo Prete, antes da visita do meu neto mais velho para consertar o enguiço, dei cabo da metade de um livro cuja leitura estava encruada e li um outro, inteirinho, de 589 páginas em letrinhas miúdas.

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Isso depois das atividades escrevinhantes, que tanto me divertem durante várias horas por dia. Passei a entender e louvar a figura do imenso Paulo Rónai, que, segundo li em algum lugar, não tinha televisão em casa. Sem tevê, sobrou tempo até para que o mais desarrumado dos homens sérios se transformasse em arrumador-mor. E o mais grave é que estou aprendendo. Já tenho uma gaveta de pilhas, clipes, fios carregadores de celulares, e outra de benjamins e tomadas, ou adaptadores de tomadas inventadas pelo misto de ladroeira e imbecilidade brasileira, que adotou tomada única no mundo. Dizem que, com ela, tomada só existente neste país grande e bobo, alguém faturou mais que R$ 3 bilhões. Não é nada, não é nada, US$ 1,5 bilhão no câmbio do dia: em matéria de gatunagem, o pessoal é criativo à beça e à bessa.

Peúgas

A televisão foi buscar um sociólogo da PUC-Rio para tentar explicar as manifestações que tomaram conta das ruas de um país grande e bobo. O ilustre professor deitou falação, boa voz e dicção razoável prejudicadas, anuladas, desmoralizadas pelo fato de usar meias brancas. Que se pode esperar de um sujeito que usa peúgas brancas fora das quadras de tênis?

E isso numa tarde/noite em que um philosopho amigo nosso estava de meias amarelas, sem que soubesse explicar como o pavoroso par de peúgas, tamanho 12, fora parar em sua gaveta. Já lhes disse que tenho meias belgas, canos longos, que me custaram uma fortuna em euros, antes da crise europeia. De tão chiques, não tenho coragem de usá-las. Há uns seis pares ainda virgens, azuis escuros para combinar com os sapatos pretos dos homens sérios. De couro ou pelica, valha a informação.

Deu-se que precisei passar um creme nas patas antes de calçar as botinas. Fui à gaveta das meias e lá estava o par amarelo-areia. Podia ser pior: amarelo-ovo, mas amarelo-areia já era de lascar. Tamanho 12, o par não era virgem. Dei nele uma esticada, passei o creme nos pés, vesti as peúgas, calcei as botinas e fiquei torcendo para não aparecer visita. Felizmente sou pouco visitado. Resta saber como foi que as peúgas amarelo-areia pintaram na gaveta de um homem sério.

O mundo é uma bola

26 de agosto de 55 a.C., Júlio César invade a Grã-Bretanha. Em 1429, Joana D’Arc entra em Paris, o que nunca foi original: até hoje, centenas de jornalistas mineiros vivem entrando em Paris. Em 1498, a Pietà é encomendada a Michelangelo pelo cardeal francês Jean Bilhères de Lagraulas, mas a mesma fonte nos diz que a encomenda foi feita no dia 21 de setembro.
Em 1769, Francisco de Castro é autorizado a estabelecer uma fábrica de tecidos de linho em Abrantes. Em 1978, o cardeal Albino Luciani é eleito papa João Paulo I. Morreu um mês depois, falou-se em conspiração, mas é possível que tenha sido morte morrida.
Em 1743 nasceu o francês Antoine Laurent de Lavoisier, considerado o Pai da Química, morto em 1794 pela Revolução Francesa.

Ruminanças
“Aguardamos a invasão prometida há tempos. Os peixes também” (Churchill, discurso pelo rádio em 21.10.1940).


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