Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

Concupiscência

 

Eduardo Almeida Reis – eduardo.reis@uai.com.br

Publicação: 07/07/2014 04:00

 (Lelis)

Há palavras que conhecemos pela rama e julgamos saber todos os seus significados. No embalo da leitura, pelo contexto do parágrafo, tais palavras passam batidas. Poucos são os que ainda leem com um dicionário ao lado. O advento dos dicionários eletrônicos relegou os de papel às estantes. São grandes, pesados e têm, no meu caso, o gravíssimo inconveniente de não abrir na palavra procurada. Abro noutra página e me distraio com a leitura de outros lexemas, que, com perdão da lexia, constituem as unidades de base do léxico, que podem ser morfemas, palavras ou locuções.

Vejamos o substantivo feminino concupiscência. O estudante de teologia dirá que é “movimento de amor em direção a Deus e aos homens”. Em direção a Deus: lindo, não é? Como também pode ser “aspiração humana de bens naturais ou sobrenaturais”, desejo perfeitamente normal.


Contudo, na mesmíssima teologia, com uso pejorativo, a concupiscência é a “cobiça natural do homem pelos bens terrenos, consequência do pecado original e que produz desordem dos sentidos e da razão”. Pronto: começou a bagunça do pecado original; desordem dos sentidos e da razão. 

Aí, você recorre à rubrica filosofia para descobrir que, no agostinismo, concupiscência é luxúria carnal, desejo libidinoso, e no tomismo medieval é desejo de prazer gerado por uma realidade física, material. Todos sabemos, ainda que por alto, que o tomismo é o conjunto das doutrinas teológicas e filosóficas de Santo Tomás de Aquino (1225-1274) e que o agostinismo é doutrina filosófica e teológica formulada por Santo Agostinho (354-430), mas vivemos em 2014 e a concupiscência, nos textos jornalísticos, geralmente significa “cobiça de bens materiais” ou “anelo de prazeres sensuais”. Anelo, no caso, é desejo intenso. Donde se conclui que tudo termina em sexo, o que nos remete a Santo Agostinho, que teria pedido: “Dai-me a castidade, mas não ainda”. Ora, bolas: depois de impotente, todo cavalheiro é casto. Revogam-se as disposições em contrário. 

Democracia
Razão tinha Ernesto Beckmann Geisel (1907-1996) quando falou da “democracia relativa”. Que é democracia? Antônio Houaiss, carioca de família libanesa, diz que democracia é: 1. Governo em que o povo exerce a soberania; 2. Sistema político em que os cidadãos elegem os seus dirigentes por meio de eleições periódicas; 3. Regime em que há liberdade de associação e de expressão e no qual não existem distinções ou privilégios de classe hereditários ou arbitrários.

Vamos por partes, que Roma não se fez num dia. Número 1: você acredita nesta conversa de que o povo exerce a soberania? Que povo tem condições de exercer a soberania? Nem o norueguês em seus melhores dias.

Número 2: você acha que as eleições periódicas melhoram as coisas? Acha que os votos comprados pelo Bolsa Família devem ser computados? Que me diz dos marqueteiros que produzem candidatos marquetados para vender aos tolos? Sim, utilizemos o verbo marquetar, que tem hora e vez em nosso idioma, gerúndio marquetando.

Número 3: você conhece regime em que não existam distinções ou privilégios de classe hereditários ou arbitrários? Se conhece, me diga onde fica, prezado cara pálida. Liberdade de expressão: que, como, quando, onde, por quê? Você acha que um articulista do NYT pode meter o pau num grande anunciante do jornal? Poder, pode, mas é demitido no dia seguinte.

Você, caro e preclaro leitor, acha que greve de ônibus é democracia? E greve de professores, de fiscais de trânsito, de policiais, de funcionários de hospitais? Tudo bem: o direito de greve é sagrado, como também sagrados são os direitos dos que viajam de ônibus, estudam, circulam pelas ruas das cidades, recorrem à polícia e aos hospitais. 

Mais de 50 mil homicídios/ano, 16 entre as 50 cidades mais violentas do planeta, juízes que judicam e desjudicam 24 horas depois, roubalheira indescritível – isso é democracia? Qual seria a alternativa? Ditadura não é. Fora da educação levada a sério, vosso país não tem remédio. Educação que nos mostra o verbo judicar no Aulete digital, enquanto Houaiss e Aurélio só abonam judiciar. 

O mundo é uma bola

7 de julho de 1456: Joana D’Arc é absolvida depois de ter sido queimada viva em 1431. A revisão do seu processo começou em 1456 e fez escola em tribunais supremos que mandam soltar num dia, revogando a soltura 24 horas depois. Em 1920, o papa Bento XV canonizou Joana. 

Em 1497, parte de Lisboa a expedição de Vasco da Gama rumo à Índia. Em 1865, Mary Stuart foi enforcada. Teve a subida honra de ser a primeira mulher executada nos Estados Unidos e boa coisa não deve ter feito. Em 1978, independência das Ilhas Salomão. Em 2007, escolhidas em Lisboa as Novas Sete Maravilhas do Mundo: Ruínas de Petra, Grande Muralha da China, Cristo Redentor, Machu Picchu, Chichén Itzá, Coliseu e Taj Mahal. Duvido que alguém saiba onde fica Chichén Itzá, por isso explico que fica em Yucatán, no México. E aproveito a ensancha oportunosa para explicar que as Ilhas Salomão, capital Honiara, ficam na Melanésia, Oceano Pacífico. 

Ruminanças

“É melhor tornar-se ilustre do que nascer ilustre” (Axel Oxenstierna, 1583-1654).


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