Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

TIRO E QUEDA
Idosos
No Rio de Janeiro dos anos 1960 havia, em Botafogo, um edifício apelidado Butantan, porque concentrava consultórios dos cobras em medicina

Eduardo Almeida Reis

Publicação: 09/01/2014 04:00

Todo maior de 50 anos, meu caso, é um sobrevivente de imbecilidades que hoje assustam católicos, evangélicos, budistas, muçulmanos, judeus, anglicanos e ateus. Pergunto ao pacientíssimo leitor: você já ouviu falar de pneus frisados? Pois é: a gente mandava frisar os pneus. E os carros daquele tempo já alcançavam velocidades expressivas. Quando o pneu ficava careca, muita gente mandava frisá-lo. Procedimento de consistia em fazer risquinhos no restinho na borracha (careca, lisinha) e nas lonas que ficavam por baixo. Dizia-se: o pneu é frisado, mas é muito bom. Ou não se dizia nada e o sujeito comprava o Fusca de segunda mão, com os pneus cheios de lindos risquinhos, para descobrir em pouquíssimo tempo que estava na lona. Comprei um Fusca assim, de gente conhecida, e com ele fiz minha primeira viagem de lua de mel. Sobrevivi sem furos ou derrapagens à viagem de 337 quilômetros, mas fui obrigado a comprar pneus novos na cidade de destino. Pneus custavam uma fortuna. Talvez por isso muita gente mandasse frisá-los.

Ciências médicas

No Rio de Janeiro dos anos 1960 havia, em Botafogo, um edifício apelidado Butantan, porque concentrava a maioria dos consultórios dos cobras em medicina. Regionalismo brasileiro, adjetivo e substantivo de dois gêneros, cobra é o que se diz de perito em determinado assunto ou especialidade. Surpresa para o anoso e andejo philosopho foi constatar que a capital de todos os mineiros também conta com um Butantan, que atende pelo nome de Serpentário – quatro mesas encarreiradas na lanchonete do Hospital Felício Rocho, onde almoçam os cobras da medicina mineira, iluminados pela beleza de Lívia Neffa, residente de cirurgia plástica, sorriso doce e encantador, primeiro lugar na avaliação de primeiro ano (R1) pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Como que siderados pela colega de profissão, almoçam por lá os doutores João Batista Gusmão, coordenador do CTI cirúrgico, Caetano de Souza Lopes, coordenador da angiologia, pecuarista e silvicultor abaeteense, Jamil Abdala Saad, coordenador de hemodinâmica, que já me fez um cateterismo há séculos, constatou que a tubulação estava boa e me obrigou a fugir do hospital (depois de pagar a conta), quando me disseram que não podia fumar um charuto no quarto “por causa do oxigênio”. Ora, bolas: tem oxigênio no ar aqui do apê e não vou me privar dos charutinhos. Almoçam, ainda, os doutores Marconi de Oliveira Ruas, cirurgião cardiovascular, que já examinou, a meu pedido, um filhinho da Paula, morena mineira que me prestava serviços domésticos em BH, um dínamo para trabalhar, feroz como ela só. Num ônibus de turismo, quando um gaiato passou a mão em sua filha de 12 anos, dona Paula atracou-se com o engraçadinho, foi contida pelo atual marido e comeu, literalmente, comeu um dos dedos de seu marido e senhor. E o doutor Cláudio de Azevedo Salles, amigo de velha data, também leitor do EM. Não se aplicam ao Serpentário os versos de Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865–1918), in Via Láctea: “Não têm faltado bocas de serpentes,/ (Dessas que amam falar de todo o mundo, / E a todo o mundo ferem, maldizentes) / Que digam: Mata o teu amor profundo!”. Em vez de matar, os cobras salvam vidas e ainda nos fazem o favor de pagar a conta do almoço na lanchonete, cujo cozinheiro não é nenhum Ducasse, mas dá para o gasto sob a batuta do professor doutor José Carlos Ribeiro Resende Alves, cirurgião plástico que há 15 anos me fez um queixo à Kirk Douglas e é, em favor algum, o brasileiro mais culto que conheço.

O mundo é uma bola 

9 de janeiro de 1154: Sintra recebe foral de dom Afonso Henriques. Foral, diacronismo antigo, significava legislação elaborada por um rei com o intuito de regulamentar a administração de terras conquistadas e que dispunha ainda sobre a cobrança de tributos e quaisquer outros privilégios. Em 1693 um terremoto atinge cerca de 60 aldeias e povoados da Sicília, matando mais de 50 mil pessoas, naquele tempo gente à beça. Em 1768, o inglês Philip Ashley apresentou em Londres o primeiro circo moderno, com acrobatas, palhaços e animais treinados. Conheço gente que pronuncia acróbatas e acabo de confirmar que o substantivo de dois gêneros também está dicionarizado. Em 1822, o príncipe regente dom Pedro teria dito: “Como é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto: diga ao povo que fico”. Foi o Dia do Fico, mas há que sustente que sua alteza, na hora, não disse nada: pigarreou e ficou no pigarro. Em 1863, inauguração do primeiro trem subterrâneo do mundo, o metrô de Londres, então com sete quilômetros. Por falar em metrô, como anda o de Belo Horizonte? Em 1872, Guerra do Paraguai, assinado o tratado de paz entre o Brasil e o Paraguai. Hoje é o Dia do Fico.

Ruminanças 

“A ausência de alternativas torna a mente espantosamente clara” (Henry Kissinger).


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