Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

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13 a 10 de julho de 2015

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Ponte Nova – Quem nasce em Ponte Nova é ponte-novense. Tive por lá muitos leitores que se transformaram em bons amigos. Conheço a cidade da Zona da Mata de Minas. Ano passado, os ponte-novenses orçavam pelas 60 mil almas. Não sei se ainda produzem a melhor goiabada cascão mineira, ipso facto, a melhor do mundo. Duas vezes me mandaram latões de cinco quilos, que devorei com ímpeto e aplauso.Fiquei feliz com esse ipso facto, que tem sido pouco usado na mídia impressa. Significa “por isso mesmo” ou “por via de consequência”, locução muito do aprazimento do saudoso Aureliano Chaves.Ex-produtor de goiabada cascão para doar aos amigos, conheço o doce de goiaba em pasta e sei que o meu nunca se comparou ao ponte-novense fabricado com açúcar especial produzido pelas usinas locais. Mas o meu era “simpático” e elogiado pelos donatários.

Com o passar dos anos, muitos anos, fiquei covarde e desliguei o rádio na manhã de 2 de julho durante a notícia de que a ponte-novense Gilmária Silva Patrocínio confessou o assassinato de Patrícia Xavier da Silva, 21 anos, grávida de nove meses.

Matou Patrícia com uma paulada na cabeça, retirou-lhe o filho cortando a barriga da moça com uma lâmina de barbear, procurou os bombeiros com o menino sem cortar o cordão umbilical, como se o tivesse parido. Foi levada ao hospital em que os médicos identificaram a farsa do parto.

Depois de inventar uma gravidez, Gilmária, assombrosamente gorda, pretendeu mostrar ao marido que a gestação era verdadeira. Os médicos não acreditaram na invenção e a Polícia Civil logo descobriu a autora do crime.

Desligando o rádio pensei livrar-me da notícia, que acabou publicada com fotos e detalhes nos jornais que assino e só recebo por volta das 8h, e nas tevês à noite. Escusado é dizer que Gilmária, autora confessa do bárbaro homicídio, foi apresentada pela mídia impressa como “suspeita”. E não aparece um editor, um diretor de redação, um dono de jornal para demitir por justa causa o repórter que chama de suspeita uma criminosa confessa, provada e fotografada.


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Uber – A Câmara Municipal de São Paulo tem 55 vereadores, cada um com 30 assessores. Só aí são 1650 cérebros privilegiados, fora os 55 dos edis pensando o Brasil para conseguir a proeza de proibir o proibido.Em março de 1968 Caetano, o filho de dona Canô, e Os Mutantes estouraram na praça com a música É proibido proibir. Agora, os vereadores paulistanos e seus 1650 assessores proibiram o que já era proibido, a Uber, uma startup americana do setor tecnológico fundada em 2009, na cidade de San Francisco, Califórnia, por Travis Kalanick e Garrett Camp, que em seis anos passou a valer 40 bilhões de dólares oferecendo serviços semelhantes aos dos táxis.Não sei o que é uma startup. Fui ao Google e há milhares de explicações, motivo pelo qual continuo dizendo que a Uber tem um aplicativo através do qual você chama um automóvel particular, que o transporta mediante pagamento não raras vezes muito mais barato que o dos táxis convencionais.

O jornalista Jorge Pontual, que mora em Nova York, diz: “Não vivo sem o Uber”. A jornalista Cora Rónai, que mora no Rio, também adora o Uber. Ou a Uber, como queiram.

Nesta minha esplendorosa ignorância, pensei que Uber, startup (?) fundada na Califórnia, fosse palavra inglesa. Não é. Então, fui ao pequeno dicionário Michaelis alemão-português, que tem über à beça e à bessa, “sobre, acima de, além” e muitos outros significados. Alemão não vive sem über e Bunde. Bundeskriminalamt, na Alemanha, é Polícia Federal. Petistas brasileiros devem temer a Bundeskriminalamt, assim como nossos futebolistas amam a Bundesliga, primeira divisão dos campeonatos nacionais alemães.

Pertinax sum tamquam parta sus (sou teimoso feito porca parida) e fui ao latim-português para descobrir que uber é fertilidade, abundância, tanto assim que Cícero, ao escrever aqua uber (água abundante), não podia imaginar a situação da cidade São Paulo, dois mil anos mais tarde, com o Sistema Cantareira no volume morto e a Câmara Municipal proibindo o (a?) Uber, que já era proibido(a).

Impende notar que a cidade de São Paulo tem uma porção de empresas de táxis, cada uma com dezenas de carros, nas quais os motoristas já começam os seus dias de trabalho devendo dinheiro aos donos das empresas. Os fiscais do Ministério do Trabalho gostam de falar das condições análogas às da escravidão e os motoristas das empresas andam próximos das tais condições.

Você, leitor de Marcia Lobo, é contra o Uber? Na cidade em que moro não existe a startup. Se existisse, o autor destas bem traçadas não baixaria o aplicativo, porque ainda não aprendeu a mexer com o smartphone comprado há seis meses. Fiquei felicíssimo, dia 1º de julho, através do Jornal Nacional, diante da notícia de que no Japão milhões de pessoas, mesmo entre as jovens, preferem os celulares antigos, descomplicados.


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Confusão – Enquanto o brasileiro confundir bunda com rabiça vosso país vai continuar de mal a pior. Sei que rabiça vem de rabo + iça, mas rabo não é necessariamente bunda; pode ser o par de asas de uma elegante casaca, a cauda de um vestido ou de belo cavalo, o prolongamento de qualquer objeto ou de imenso cometa, além de significarproblema na locução rabo de foguete.“Pegar penosamente à rabiça dum arado de ferro, e i-lo empurrando desde a alva ao crepúsculo,… é labor doloroso” disse o Eça (Notas contemporâneas, pág. 157). Labor é trabalho, faina, tarefa árdua e demorada, muito diferente de falar da bunda de Paolla Oliveira, que agitou este pobre país há meses e caiu no olvido, o que sempre é melhor do que cair no ouvido, onde pode provocar uma otite.


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Pechincha – Inflação em 10%, economia em pandarecos, desemprego, crise galopante – o quadro do país administrado pelas mulheres sapiens Dilma, Erenice, Gleise, Rosemary Nóvoa de Noronha & Cia. exige prudência, pesquisa de preços e outras cautelas. As tevês nos mostraram remédios à venda, na mesma rede de farmácias, com diferenças de preços da ordem de 900%. Nos supermercados também há diferenças abissais. Daí a recomendação de que o consumidor pesquise, o que implica perder dias inteiros visitando supermercados à procura dos menores preços. Se o consumidor trabalha não pode perder tempo em pesquisas demoradas. Se não trabalha está duro, sem um tostão para comprar no supermercado barateiro. O quadro é muito pior do que os 7 a 1 aplicados pela seleção da Alemanha.É importante pechinchar, aproveitar descontos, negociar, regatear. Palavra de origem obscura, pechincha deve ser aproveitada, motivo pelo qual me permito recomendar ao leitor de Marcia Lobo a compra de um automóvel com desconto de R$ 149.100,00. Isso mesmo que você entendeu: cento e quarenta e nove mil e cem reais.Pechincha que vi no Globo, edição de 1º de julho. Na Intercar do Rio, com lojas na Avenida Atlântica e em São Cristóvão, você pode comprar um Mercedes SL 400 14/15, que normalmente custa R$ 589.000,00, por R$ 439.900,00: “criado para conquistar corações”. No Rio atual, carro conversível…


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Dengue – Frio cachorro, segunda semana do inverno, manchete do principal jornal: Epidemia de dengue em Juiz de Fora. Sai dessa, caro e preclaro leitor de Marcia Lobo. Os mosquitos devem ter sido importados da Sibéria.Em todos os campos o noticiário tem sido assustador. No dia em que escrevo, liguei o rádio na hora do almoço para saber que foi preso, num município mineiro, o cavalheiro que matou sua namorada com mais de 30 facadas, tirou um dos olhos da moça, cortou-lhe os cabelos e os enfiou na boca da morta, matou-lhe o gato de estimação, que também teve um olho removido, escreveu qualquer coisa numa porta com o sangue da moça ou do gato. Aí, a jornalista mineira informou ao perplexo Carlos Alberto Sardenberg: “Vai ser indiciado por tentativa de homicídio doloso”. Caraca! – tentativa de homicídio doloso… Sardenberg sofre, coitado; seus ouvintes, também.

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Bordão – Simón José Antonio de la Santísima Trinidad Bolívar y Palacios Ponte-Andrade y Blanco não dava dois passos sem recorrer ao bordão Carajo!, que significa miembro viril.Encadernados em couro vermelho, tenho aqui os dois volumes de suas obras completas. São mais de três mil páginas em letrinhas miúdas, papel-bíblia, produção espantosa para um sujeito que morreu tuberculoso em 1830, na flor dos seus 47 aninhos, e aprontou enquanto andava tossindo por aí. Tenho a certeza de que todos os bolivarianos atuais, de Maduro ao Lula, passando pela incompetenta, nunca leram uma só página dos escritos de Simón José Antonio de la Santísima Trinidad Bolívar y Palacios Ponte-Andrade y Blanco, que também não li, mas tenho os livros que eles não têm.Nos resumos biográficos do Google vejo que Bolívar, nascido na Venezuela, casou-se aos 19 anos com uma espanhola que conheceu na Europa. A moça morreu de febre amarela logo que chegaram a Caracas e ele, apaixonadíssimo, jurou nunca mais se casar. Deve ter compensado a falta de sexo escrevendo feito um louco sem olvidar o Carajo! Lacan teria dito que a escrita substitui as estripulias horizontais.

Substituir, não substitui, mas escrever é atividade muito divertida para os que gostamos de lidar com a pena de pato, sobretudo e principalmente quando há gente que gosta das  tolices que escrevemos.


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Paranoia – Ortoépia ói, a paranoia é termo introduzido na psiquiatria para designar os problemas psíquicos que tomam a forma de um delírio sistematizado. Engloba sobretudo as formas crônicas de delírios de relação, ciúmes e perseguição e a chamada esquizofrenia paranoide.Manhã de domingo, noite muitíssimo bem dormida, café tomado, charuto aceso, abro a revista que acompanha um dos jornais que assino. Normalmente leio três ou quatro assuntos na revista, mas no dia 24 de maio tive a impressão paranoica de estar sendo perseguido pelos editores. Seria muita pretensão achar que se reúnem visando a produzir textos que me irritem, mas a edição estava de lascar. Cofres velhos, pesados, enferrujados, funcionando como mesas de centro não são bonitos nem práticos. Sei que gosto não se discute, mas a praticidade é inseparável da decoração. Por exemplo: quarto de cama nunca foi espaço destinado à visitação pública, daí a imbecilidade dos decoradores que enchem as camas de almofadas coloridas. Afinal, o casal vai dormir, transar ou caçar espaço para botar todas aquelas almofadas?Cofre de ferro, pesadíssimo, enferrujado, não é bonito, não enfeita e não merece matéria numa revista de circulação nacional.


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Escrever – Comprei o livro Por que escrevo?, organizado por José Domingos de Brito, primeiro volume da séria Mistérios da Criação Literária. Prefácio do craque Fábio Lucas, meu amigo e confrade na Academia Mineira de Letras. Depoimentos de inúmeros escritores nacionais e estrangeiros, alguns notáveis, outros pretensiosos e uns poucos palatáveis, um genial como este de Lawrence Durrell: “Para me vigiar. Uma pergunta idiota, uma resposta idiota. Mas sim: para me vigiar”.Durrell nasceu na Índia e adquiriu cidadania inglesa. Li em algum lugar que Durrell seria corruptela de Dayrell, portanto o admirável autor de O Quarteto de Alexandria deve ser aparentando com os Dayrell que vieram para o Brasil.Millôr Fernandes disse: “Não sou escritor, nem nunca tive vocação para escrever. Sou jornalista, sempre escrevi por necessidade minha vida inteira”. Paulo Francis emendou: “Escrevo romances para me perpetuar, para ter fama, glória, dinheiro, amor, essas coisas comezinhas de vida”. Ignácio de Loyola Brandão resumiu: “Escrevo para me divertir e divertir os outros”.

Há respostas de gente ótima, imensas, que recomendam a compra do livro. Ninguém me perguntou por que escrevo, mesmo porque não sou escritor, mas simples autor de livros. Se me perguntassem, a resposta seria: “Porque gosto muito”.

Não me lembro se já toquei num assunto  importante aqui no site de Marcia Lobo. Se toquei, peço licença para repetir: não procure conhecer o caráter do escritor, do escultor, do músico, do pintor que você admira. Uma coisa é admirar a obra, outra, muito diferente, é conhecer o artista. Limite-se à obra e fuja das informações sobre o caráter do artista.


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Besteirol – Nossa mídia afetou indignar-se diante da notícia de que os americanos espionaram a toupeira que o Brasil elegeu em 2010. Saiu a lista dos telefones grampeados e uma repórter destacou: “Ouviram até as conversas no telefone especial do avião da presidência”.Ora, bolas: desde que o mundo é mundo a espionagem existe, hoje refinada pela moderna tecnologia. Muito antes do plebiscito grego do último dia 5, Homero já citava na Odisseia um cavalo de madeira, oco, transportando soldados-espiões, que visavam a recuperar a raptada Helena, mulher de Menelau, rei da Espanha. Cavalo infiltrando espiões para abrir os portões de Troia, cidade resistente a um cerco de nove anos, só fez demonstrar a inortodoxia das relações entre os grupos humanos, sejam países, empresas, bairros, torcidas de futebol.Pelo só fato de residir em bairros diferentes, jovens brasileiros se matam quando se encontram nas ruas, torcedores de futebol se matam, grandes empresas espionam as concorrentes – é a regra do jogo sujo.

Pena que nossa mídia não se atenha ao que há de importante e curioso em certa espionagem: só se preocupa com a pulga e não vê o elefante. Ninguém falou dos custos para contratar analistas que traduzam as falas da incompetenta. Como explicar em inglês o elogio da mandioca e o filosofar sobre a bola feita de folhas de bananeiras? Não basta traduzir. É preciso recorrer aos criptoanalistas para tentar decodificar a imbecilidade telefônica.


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Ruminanças – “OXI na Grécia significa não. No Brasil, OXI antecipa o resultado de uma partida quando o Flamengo ou o Vasco são os mandantes” (R. Manso Neto).

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