Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

Burros, Preços, Justiça, Foliões e Errei

20 de fevereiro de 2017 Eduardo Almeida ReisBlog

Burros – Pode ficar tranquilo, que não vou falar dos eleitores do Lula e da Búlgara, mas dos animais híbridos, estéreis, produzidos pelo cruzamento do cavalo com a jumenta, ou da égua com o jumento (Houaiss). Diplomata, poliglota, gourmet e lexicólogo, se entendesse de equídeos Houaiss saberia que o produto do cruzamento do cavalo com a jumenta é o bardoto, feminino bardota, menos comum que o burro e a mula pelo seguinte: a égua é muito mais receptiva ao jumento, que a jumenta ao cavalo.

No cio, a égua dá por gosto, enquanto a jumenta é sestrosa, chata, difícil. Além disso, parece que o bardoto e a bardota têm menas qualidades, como diz o Lula, que o burro e a mula.

Qualidades discutíveis como atestou o genial Richard Francis Burton (1821-1890) e atesta aqui o philosopho. O capitão Sir Richard Francis Burton, escritor, tradutor, linguista, geógrafo, poeta, antropólogo, erudito, orientalista, espadachim, explorador, agente secreto e diplomata britânico falava 35 idiomas e entendia 50 dialetos, enquanto o philosopho mal fala português.

Num dos livros que escreveu sobre suas andanças pelo Brasil, Burton conta que nunca percorreu 100 quilômetros montado num burro, que não lhe pregasse uma peça.

Minha experiência foi menor, mas confirma o depoimento do inglês. De férias em Lambari, muito acima do peso suportado pelos cavalos de aluguel, aluguei o burro do Amercão, cigano estabelecido naquelas Águas Virtuosas. Burro grande, rosilho, manso, que transportava o Amercão de seu sítio até a praça onde alugava os cavalos.

No trajeto, então em estrada de terra, Amercão gostava de atravessar o burro no caminho enquanto picava o fumo de rolo do seu cigarro. Assim, mostrava aos veranistas quem mandava por ali. Automóveis em fila e o cigano picando seu fumo. Até que um dia teve a desventura de repetir a cena quando vinha pela estrada um coronel paraquedista do Exército, meu amigo e companheiro de caçadas, pilotando seu velho Ford cupê.

Como bom coronel do Exército de Caxias, pisou no acelerador e ameou o burro, que foi a óbito enquanto o Amercão, com as pernas quebradas, foi parar no hospital. Nas Águas Virtuosas daquele tempo havia um médico muito bom, que conheci pessoalmente, notável por observar os pedidos que recebia. Se o pedido era “para salvar”, o doutor fazia o possível e o impossível para curar o paciente. Sem pedidos, deixava por conta do destino, que muitas vezes colabora na recuperação.

Pois muito bem: aluguei o rosilho do Amercão e passei um mês passeando todos os dias. Na véspera da viagem de volta, depois do passeio matinal, parei defronte da loja de queijos e doces lambarienses, comprei uma porção de presentes, meti-os num saco branco e tentei montar no burro.

O animal disparou pelo calçamento de paralelepípedos tirando faíscas, com o saco branco de um lado e o volumoso veranista do outro. Devo confessar que cheguei meio assustado à pracinha do aluguel dos cavalos. O saco e o ginete sobrevivemos.

Preços – Audição, visão, animação e tesão, principalmente o tesão, tudo diminui com o passar do tempo. Surpresa, para mim, tem sido a queda no preço da linda poltrona Charles Eames, que custava mais que cinco mil reais há dez anos e já vem sendo vendida, com o respectivo banquinho, por menos que dois mil e quinhentos. Enquanto isso, poltronas horríveis estão sendo anunciadas por cinco, oito, dez mil reais só porque são novidades. Feias, desconfortáveis, mas novidades.

O Estadão costuma publicar pequenos anúncios de uma loja paulistana vendendo uísques na faixa de 60 reais. Ora, com o dólar a 3 reais, o litro custa 20 dólares. No meu tempo de pinguço, litro de escocês nessa faixa de preço seria meio caminho para cirrose fulminante.

Justiça – Mais que justa a decisão unânime dos ministros do STF no sentido de indenizar os criminosos presos em condições sub-humanas. Idem para todos os brasileiros que não cometeram crimes e vivem em condições sub-humanas, como também para os brasileiros que têm moradias decentes nas cidades que não oferecem as mais mínimas condições de segurança, isto é, no Brasil inteiro, com exceção, talvez, do município de Serra da Saudade, MG, com os seus 818 habitantes, que visitei há mais de 30 anos. O país é pouco sério, mas o STF estava dispensado de exagerar.

Foliões – Noite de sexta-feira 17 de fevereiro, na outrora pacata Manchester Mineira, bairro em que reside o degas. Cavalheiros e damas, animados pela proximidade do carnaval – e carnaval é cultura, di-lo a tevê – excederam-se na animação e acabaram aprontando uma segunda Noite das Garrafadas. A primeira ocorreu na cidade do Rio de Janeiro, dia 13 de março de 1831, e teve importância na crise política de que resultou a abdicação do imperador D. Pedro I, dia 7 de abril daquele ano.

Nas garrafadas juiz-foranas alguém se lembrou de telefonar para a gloriosa PM de Minas, que não enviou uma viatura e sim uma superviatura, que também atende pelo nome de ônibus, referta de policiais.

Testemunhas oculares informam que a pancadaria foi espetacular e a paz voltou a reinar na madrugada de sábado 18 de fevereiro, ainda no horário de verão.

Errei – Dia 14 de fevereiro contei-lhes que tenho vergonha de ter nascido por aqui, quando vejo anúncio de uma bolsa por R$ 3.980 num país em que o salário mínimo não chega a mil reais.

Errei. O próprio jornal que publicou os anúncios retificou o preço da bolsa Ferragamo. Não custa R$ 3.980, mas R$ 9.900.

 

 

Shakespeariano, Notícias, Banhos e Brincos

17 de fevereiro de 2017 Eduardo Almeida ReisBlog

Shakespeariano – “To be or not to be, that is the question”, de Shakespeare em Hamlet, Ato III, Cena I, frase das mais famosas da literatura mundial, tem sido repetida na Prefeitura do Rio comandada pelo bispo Marcelo Bezerra Crivella, coproprietário do império inventado por seu tio, o bispo Edir Macedo Bezerra. Império isento de impostos.

Traduzida como “ser ou não ser, eis a questão”, a frase parece ter sido bolada pelo dramaturgo inglês (1564-1616) pensando no Rio de 2017, em que o prefeito adotou a administração “não ser”. Seu filho Marcelo Hodge Crivella não é psicólogo, mas se apresenta como bacharel em Psicologia Cristã (sic). A merendeira nomeada secretária municipal se diz bacharel em Direito, mesmo tendo interrompido o curso dois ou três períodos antes de colar grau.

Na mesma peça, Shakespeare escreveu “Há algo de podre no Reino da Dinamarca”, Ato I, Cena IV. Só lá?

Notícias – Vejo na imprensa que a Marinha do Brasil decidiu desativar definitivamente o único porta-aviões da sua frota de combate, o NAe A-12 São Paulo, comprado na França, em 2000, pelo então presidente FHC. Custou 12 milhões de dólares e nunca serviu para nada, a exemplo do antigo porta-aviões Minas Gerais, o único navio de guerra do mundo que tinha telefone fixo, com fio, no catálogo telefônico.

Perdi a conta dos champanhes vinificados em França que tomei no Minas Gerais, ancorado no cais da cidade do Rio de Janeiro. Reformado na Europa durante dois anos, temporada em que os salários dos oficiais destacados para acompanhar a reforma davam para juntar uns cobrinhos, o navio-aeródromo Minas Gerais teve entupida sua adega de champanhe antes de vir para o Brasil. Amigo de um oficial lotado no Minas, muita vez almocei no navio e o champanhe era barato.

Num texto do jornalista Roberto Godoy, especializado em assunto bélicos, li que os Estados Unidos pensam renovar sua frota de porta-aviões. Cada um dos atuais navios-aeródromos tem maior poder de fogo que a soma de todas as frotas dos países que participaram da II Guerra Mundial.

Deu para entender? Se não deu, repito: cada porta-aviões americano, da frota que vai ser renovada, tem maior poder de fogo que a soma de todas as frotas da II Grande Guerra.

Enquanto seu lobo não vem, o Ministério Público quer saber por que a superior administração da PM do Rio renovou seu estoque de armas adquirindo pistolas que não funcionam ou disparam sozinhas.

Banhos – Num cálculo ligeiro, superficial, perfunctório, ando pelos 40 mil banhos tomados. Durante anos foram dois por dia. Admitindo-se que em média tenham demorado meia hora, foram 20 mil horas perdidas, que ajudam a explicar o pauperismo de minha produção intelectual.

Gênios de antanho não tomavam banhos. Ainda recentemente, um dos fundadores da Apple foi pouco amigo dos banhos e cheirava mal, como atestou na tevê seu sócio da empresa fundada em Cupertino, Califórnia, no ano de 1976.

Augustin François César Prouvençal de Saint-Hilaire (1779-1853), botânico, naturalista, viajante e gênio francês, passou anos percorrendo o Brasil, escreveu livros maravilhosos contando tudo que viu e fez. Li os seus livros e não me lembro de uma só referência a um único banho. Cavalgava de botas metido numa sobrecasaca. Dá para imaginar o cheiro do conjunto.

Esta conversa de cheiros é muito relativa. Primeiro, porque há gente que sofre de anosmia, diminuição ou perda absoluta do olfato. Depois, porque há gente que gosta. Tive um amigo sul-mineiro que demorava horas nos motéis do Rio antes de reaparecer dizendo que uma garota de programa, para prestar, “é só depois que fede”. Numa noite em que procuramos companheiras na praia de Ipanema, o bom amigo perguntou a uma delas: “Bem, cê quer dar uma volta?”. E ouviu: “Não, tô a fim de trepar”.

Em 1817, a Missão Austríaca que acompanhou a grã-duquesa Maria Leopoldina da Áustria, quando se casou no Rio com o príncipe dom Pedro, futuro imperador Pedro I, reunia figuras geniais. Carl Friedrich Phillip von Martius (1794-1868) percorreu 10 mil quilômetros em três anos catalogando e registrando vegetais, como aprendi outro dia numa reportagem do Globo.

Litografias de von Martius, como aquela da Serra dos Órgãos mostrada pelo Instituto Moreira Salles, são obras de arte a partir de um desenho que não se faz em duas ou três horas. A Missão Austríaca incluía outros gênios, o zoólogo von Spix, o pintor Ender, e o país percorrido por eles nunca foi uma Suíça.

Ainda hoje, decorridos 200 anos, vosso país não é para principiantes; vosso, isto é, país que vos pertence. Tornei-me apátrida diante do que vi e vejo por aqui. Se pudesse, teria passaporte tonganês, do Reino de Tonga, capital Nuku’alofa, cerca de 100 mil habitantes, rei Tupou VI.

De acordo com o censo de 2006, a taxa de alfabetização tonganesa entre pessoas de 15 a 25 anos é de 98,4%, sendo que entre as mulheres a taxa sobe para 98,8%. E tem mais: 98,9% dos habitantes são bilíngues, sabem ler e escrever os dois idiomas oficiais do país, o inglês e o tonganês, informação que discrepa um tiquinho da taxa de alfabetização do censo de 2006, mas não vamos brigar por causa disso num país em que o Lula foi eleito duas vezes.

Brincos – Apesar de idosa, a senhora Fátima Bernardes é mulher bonita. Pescoço, ombros e cabelos nos conformes, boca sensual, braços sem aquelas pelancas próprias da idade.

Só não dá para explicar os brincos imensos que pendura das orelhas. Brinco é “enfeite” inventado há milhões de anos, quando os humanos procuravam se distinguir dos outros mamíferos. Até hoje nenhuma leitoa recorreu aos brincos que “enfeitam” humanos os mais primitivos.

Lóbulos das orelhas de mulheres bonitas foram feitos para o mordiscar dos machos da espécie, eventualmente para fêmeas que se dedicam ao lesbianismo, o que não é o caso da senhora Bernardes.

Enquanto philosopho pensante, no país dos filósofos impensantes, sugiro que a referida senhora se abstenha dos horríveis brincos em nome da estética, da lógica, do bom senso.

 

 

Turismo, Presidente e Pancadas

16 de fevereiro de 2017 Eduardo Almeida ReisBlog

Turismo – Cresce no mundo inteiro o turismo destinado às cidades em que o uso recreativo da maconha é legalizado. Concomitantemente, o tabaco Nicotiniana langsdorfii, Nicotiniana rustica e Nicotiniana tabacum vem sendo proibido numa infinidade de cidades, mesmo ao ar livre ou dentro da casa do fumante.

Claro que fumar faz mal à saúde e o uso recreativo da maconha também faz, porque viver faz mal à saúde. Tive um amigo, genial em sua profissão, que sempre foi maconheiro de chapa e cruz. Perdi a conta das vezes em que me ofereceu a erva. Resisti às ofertas: basta-me o tabaco enrolado na Bahia com o nome de charuto, em italiano sigaro, em inglês cigar, em francês cigare, em espanhol cigarro, “Rolo de hojas de tabaco, que se enciende por un extremo y se chupa o fuma por el opuesto”; “Cigarro puro, cigarro liado sin papel”. Em russo, charuto tem uma letra que não consigo reproduzir aqui.

A Câmara dos Deputados da Rússia, ainda agora em janeiro, aprovou uma lei proposta por linda deputada loura, alta e magra, segundo a qual deixa de ser crime bater na mulher desde que a coça não cause muita dor física nem deixe marcas ou arranhões na surrada. E aprovou por mais de 300 votos contra dois. Repito, só dois entre os mais de 300 deputados votaram contra a proposta da linda colega. Lei que vai ao encontro de um ditado russo: “Se ele bate é sinal que te ama”.

O Uruguai, a Holanda e diversos estados norte-americanos aprovam o uso recreativo da maconha, daí o crescimento do “turismo cannabis”. Por outro lado, dizem que dois milhões de britânicos consomem haxixe contrabandeado do norte da África. É droga segregada pelas inflorescências femininas do cânhamo, Cannabis sativa, cujo componente ativo é o tetraidrocanabinol.

Continuo partidário da liberação de todas as drogas, que acarretaria o pagamento de impostos e reduziria o poder das facções criminosas enriquecidas no tráfico. Cassinos abertos, drogas leves e pesadas, tudo permitido.  Proibição instiga, anima, sugere. O mundo teve o exemplo da Lei Seca nos Estados Unidos com Alphonse Gabriel “Al” Capone (1899-1947) e sua turminha.

Presidente – Cá entre nós, que ninguém nos oiça: que faria o caro e preclaro leitor se fosse guindado à condição de presidente da República Federativa do Brasil?

Esqueça vaidade, status e carreira política para raciocinar nos seguintes termos: num dia qualquer deste ano de 2017 você acorda presidente. Há que enfrentar a situação: PIB em queda, desemprego assustador, rombos estratosféricos, analfabetismo galopante, ladroeira esfuziante, violência incontrolável e você presidente. Que fazer?

Noite dessas sonhei com a situação. Sonhando, minha presidência andou a pique de consertar o país. Preservando as edificações, fechei a Câmara e o Senado, demiti todo mundo sem exclusão dos ministros do Supremo, que botei para correr com as suas togas preservando três. Limpeza idêntica em todos os tribunais. Você sabia que os conselheiros do Tribunal de Contas do RJ, com exceção de um, estão às voltas com acusações gravíssimas? Assembleias fechadas, câmaras municipais idem. Basta lembrar que o povo belo-horizontino elegeu vereador um cavalheiro chamado Bim da Ambulância. Bim me lembra o bimbalhar dos sinos são-joanenses, que sou pudico à beça e não falo das gostosas bimbadas proporcionadas pelo falo, trocadilho infame.

Ditador assumido, meti-me numa farda de marechal, um novo Idi Amin Dada alto, de olhos azuis, nariz abatatado, lábios sensuais. Confisquei os bens de um sem conto de brasileiros permitindo que alguns fugissem do Brasil com as suas famílias e namoradas, oferecendo como alternativa o fuzilamento sumário com armas de uso privativo das Forças Armadas. Traficantes pequenos, médios e graúdos fuzilados sumariamente. Parlamentos fechados, imprensa livre para elogiar meu governo, ministério recomposto com cidadãos e cidadãs honestos, salários reduzidos, eleições proibidas, faxina geral.

No que o país começava a tomar jeito, acordei, lavei o rosto, escovei os dentes, tomei o café, acendi o charuto e caí na real.

Pancadas – Entre beijos e tapas os casais heterossexuais não podem ser acusados de heteroagressões, que em psicopatologia significam a consumação de atos destrutivos voltados para o mundo exterior. Hoje mesmo falei do ditado russo “Se ele bate é sinal que te ama”, assunto que veio à balha, sempre mais chique do que vir à baila, depois que o parlamento russo aprovou uma lei que justifica as pancadinhas domésticas, excetuando aquelas que deixam marcas evidentes, costelas quebradas, olhos roxos e ferimentos outros, como na surra do bilionário Lirio Parisotto em Luiza Brunet.

Formado em Medicina, enriquecido em negócios complexos, Lirio nasceu 15 anos depois da publicação do romance “Olhai os Lírios do Campo”, escrito por seu conterrâneo Érico Verissimo.

Assim como Verissimo não tem acento agudo no primeiro i, Lirio não é o lírio da família das liliáceas, mas também das amarilidáceas, hemerocalidáceas e iridáceas, entre outras de flores geralmente vistosas e perfumadas. Donde se conclui que Lirio Parisotto não é flor que se cheire.

O que muita gente ignora é a existência de jovens senhoras que só alcançam o orgasmo apanhando. Sei do caso de G. A. M., professora primária EP7, do Estado do Rio, filha de um policial que lhe dava surras de correão, também conhecido como cinto.

Professora que confessou a um namorado grande e forte, boxeador amador, sua anorgasmia quando não apanhava, deixando o namorado na maior aflição. “Se lhe dou um soco, quebro seu queixo e machuco minha mão”, pensou o galã, que não frequentava motéis levando as suas luvas de boxe.

Na emergência, consultou velho cafetão, que lhe ensinou o caminho das pedras: tapa da cara e soco nas costelas. Foram felizes durante meses, até que o marreco descolou professora EP2 mais novinha.

 

 

Contêineres, Cultura, Perfeito, Interações, Selfies, Perigo, Felicidade e Grande novidade

15 de fevereiro de 2017 Eduardo Almeida ReisBlog

Contêineres – Pela simplicidade do recipiente de metal, você pode pensar que o contêiner foi inventado antes dos automóveis e dos aviões. Pois fique sabendo que é muito mais novo que os dois veículos motorizados: foi inventado em 1937 pelo americano Malcolm Mc Lean, motorista e dono de pequena empresa de caminhões, ao observar o demorado embarque de fardos de algodão no porto de Nova York.

Melhor que isso: foi somente em 1966 que o primeiro navio transportando contêineres, o cargueiro adaptado SS Fairland, chegou ao porto de Roterdam, na Holanda, e o desembarque foi feito pelo próprio guindaste do navio, outra invenção de Mc Lean.

Vale notar que em 1910, 56 anos antes do primeiro desembarque de contêineres em Roterdam, o romeno Henri Coandã criou o primeiro avião com propulsão a jato, apresentado em Paris há 107 anos. E os primeiros jatos comerciais da história, fabricados pelos ingleses, começaram a ser usados em voos de passageiros em 1952, 14 anos antes dos primeiros contêineres desembarcados na Holanda.

A vida média dos contêineres utilizados nas viagens marítimas vai de 12 a 20 anos. Na dependência do tamanho e do estado de conservação, cada um pode ser comprado numa faixa de US$ 1.100 a US$ 1.600. Então, ladies and gentlemen, o céu é o limite de sua imaginação.

Depois da limpeza para retirar eventuais resíduos tóxicos e do contador Geiger para medir certas radiações ionizantes (eta Wikipédia!), os contêineres só não servem como alimento, mas podem servir alimentos quando transformados em bar e restaurante, cozinha, shopping center, plataforma colaborativa (?), hotel, residência e o mais que se possa imaginar, sem prejuízo do inimaginável.

Você abre portas, janelas, empilha dois ou mais, põe teto solar ou telhado, ar-condicionado, o diabo a quatro. E dizer que a invenção recente já obrigou a ampliação do Canal do Panamá para permitir a passagem dos imensos navios porta-contêineres.

Cultura – Não basta assistir pela tevê com o som ligado. É preciso gravar os ditos, as frases, os comentários dos carnavalescos entrevistados nos blocos de rua. Gravar para ouvir com calma, repetidas vezes, abeberando-se na cultura carnavalesca.

Perfeito – Perfeito o prefeito Marcelo Bezerra Crivella ao nomear seu filho Marcelo Hdge Crivella secretário-chefe da Prefeitura do Rio. Coproprietário da bilionária Igreja Universal do Reino de Deus, império isento de impostos, o bispo Crivella, sempre citando a Bíblia, ajudou seu tio Edir Macedo Bezerra a acumular o imenso patrimônio. Citar não significa estudar, conhecer, acreditar. Basta pinçar algumas frases ou repetir expressões atribuídas à Bíblia, como “Mateus primeiro os teus”.

Expressão recente, nunca esteve no livro citado, mas se aplica à nomeação do filho, que não me parece nepotismo. Nepote é latim nepos,otis e significa neto.

Nepotismo, nepote + -ismo, virou “autoridade exercida pelos sobrinhos ou demais parentes do papa na administração eclesiástica”, considerando que, em rigor, o papa não deveria ter netos, filhos do filho ou filha em relação aos avós.

Não foram poucos os papas que tiveram filhos a montões, no que obraram muito bem: o ato da encomenda sempre foi muito gostoso. Não é justo que um papa, o chefe máximo de qualquer igreja, seja privado de certos prazeres saboridos, isto é, agradáveis ao paladar.

Basta aos bispos evangélicos a suposta privação do álcool sob a forma de cerveja. Ninguém merece. Não acredito que se abstenham das louras com alto teor de álcool por volume. São humanos. Por via de consequência, merecem o que é gostoso. Palmas para o bispo Crivella!

Interações – Não se pode pedir que os dirigentes televisivos sejam criaturas geniais, mas estavam dispensados de transformar Q.I., a sigla de Quociente Intelectual, em Quanta Imbecilidade.

As interações com os telespectadores são de envergonhar um continente. Que importa saber, pela GloboNews, que determinado beócio está de férias e pode passar duas horas vendo o programa de Aline e Raquel?

Selfies – Um dos pedágios das celebridades é a sucessão de pedidos de selfies pelos fãs. Deve ser uma chatura só compensada pela vaidade dos célebres, que são muitos por aí. Antigamente, era sinal de boa educação, era chique não tomar o tempo das pessoas conhecidas. Você almoçava num restaurante do centro da cidade, no Rio, ao lado de um ministro de Estado, que lá estava sem assessores ou seguranças. Descia do automóvel, almoçava, pagava a conta e voltava para o ministério. Duas vezes assisti à cena num bom restaurante da Lapa. Nome do ministro de JK: José Maria Alkimin (1901-1974).

Se várias selfies diárias devem chatear o fotografado, uma única, em muitos e muitos anos,deixa o cavalheiro todo prosa. Fiquei pimpão no dia em que um leitor, em Belo Horizonte, pediu para tirar uma foto comigo.

Perigo – Ruy Castro citou o livro do americano Dale Carnegie (1888-1955), publicado em 1936, “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”, um dos primeiros livros de autoajuda que já vendeu cerca de 50 milhões de exemplares. No Brasil nunca saiu de catálogo e sua leitura é recomendada pelo empresário Lúcio Costa, mestre na arte de fazer amigos.

Contudo, na dependência do leitor pode ser livro perigoso. Conheci cavalheiro pouco inteligente, que ficou encantado com o texto de Carnegie e se deu mal, puxa-saco que sempre foi, logo na primeira tentativa de influenciar cavalheiro importante.

Parece que o livro recomenda, entre outros procedimentos, tapinhas no ombro da pessoa que se pretende influenciar. O puxa-saco exagerou na força do tapinha justamente no dia em que o importante estava com bursite, processo inflamatório da bolsa subdeltoide. Resultado: arranjou inimigo pelo resto dos seus dias.

Felicidade – Engana-se quem acha que a vida só produz instantes de felicidade, como nos períodos em que as pessoas estão apaixonadas. Felicidade pode, sim, durar meses inteiros. Desde o ano passado, senhoras e senhoritas se revezam no Rio, dia e noite debaixo de um viaduto, guardando os melhores lugares para o show do senhor Justin Bieber marcado para o dia 29 de março de 2017. Só aí são quatro ou cinco meses de felicidade ininterrupta.

Grande novidade… – Pelo menos 18 mil profissionais médicos da área da saúde mental, nos Estados Unidos, assinaram petição on-line pelo impeachment do presidente Trump, alegando sua incapacidade para o cargo. No final do ano passado, três professores de Psiquiatria da Universidade Harvard escreveram ao então presidente Obama alertando-o sobre o perfil psi do candidato Trump.

Grande novidade… Vosso philosopho, que interrompeu sua “vocação” para estudar Medicina ainda no terceiro ano do curso científico, antes do vestibular, vezes sem conto escreveu neste espaço sobre as birutices do marido de Melania.

 

 

Ihlazo, Ufa, Filosomias, Futuro, Aviatórias e Pergunta

13 de fevereiro de 2017 Eduardo Almeida ReisBlog

Ihlazo – Vergonha em zulu é ihlazo, em espanhol vergüenza, em inglês shame. É o que sinto quando vejo certos preços anunciados no país em que o salário mínimo não chega a mil reais. Vejamos: camisa (R$ 4.790), jaqueta (R$ 6.090), bolsa (R$ 3.980), bolsa (R$ 8.600), blazer (R$ 11.900), calça (R$ 5.000), relógio (R$ 8.077), casaco (R$ 14.000), cinto (R$ 1.820), tudo anunciado no mesmo dia 11 de fevereiro de 2017, num só caderno de um único jornal.

Isitswebhu é pouco para mimosear os lombos dos que adquirem certos produtos. Como você já deve ter percebido, isitswebhu em zulu é chicote e o tradutor Google é muito divertido, ou hilarious em zulu, língua banta da família nigero-congolesa do Sudeste da África, falada na República da África do Sul, área da antiga Zululândia, e também no Lesoto, Suazilândia e Malaui.

Ufa… – Cheguei ao fim do tal livro escrito com ódio. São quase 600 páginas que caberiam, com folga, em 150, tantas são as repetições do autor. Não lhe digo o nome, que o livro não merece propaganda. Tem vícios de linguagem insuportáveis, como por exemplo: “O Osvaldo escreveu”, “A Maria disse”, “O Odorico falou”, os e as perfeitamente dispensáveis, chatos, inexplicáveis. E tem mais uma coisa: relatados com ódio, episódios divertidos perdem a graça.

Filosomias – Na década de 60, o trem passava todos os dias no final das tardes pela cidadezinha em que trabalhei. Manhãs seguintes passava de volta. Parava na pequena estação observado pelo cabo-PM, com seu destacamento de três ou quatro soldados.

Quase todas as noites o cabo metia na cadeia da estação dois ou três cavalheiros que desciam do trem. Manhã seguinte, embarcava os fulanos na composição que passava de volta.

Curioso, perguntei: “Como é que o senhor sabe que o sujeito é um bandido?”. E ele, que me chamava de doutor: “Eu vejo na filosomia dele”.

Durante anos gozei o português do cabo, até descobrir filosomia nos textos de Camões. Dele mesmo, Luís Vaz de Camões (ca., 1524, Lisboa – 10 de junho de 1579 ou 1580), melhor em português que o senador Edison Lobão.

Filosomia, catadura, cenho, face, fachada, feições, figura, fisionomia, fuça, rosto, semblante – quando tratamos do Brasil uma conclusão se impõe: povinho feio. O melting pot não deu certo. Chinês tem cara de chinês, russo tem cara de russo, japonês é japonês, brasileiro é feio pra dedéu.

Esqueça apresentadores e atores da tevê, veículo que tem compromisso com a estética, e pense nas filosomias dos entrevistados nas ruas. Nas cataduras e nas silhuetas, ambas pavorosas. Nas ruas e nos parlamentos repletos de figuras grutescas, que alguns puristas recomendam em lugar de grotescas. Purista é phodda com ph de pharmácia e dos dês de Toddy. Que se pode esperar de gente que recomendava anidropodoteca em lugar do galicismo galocha?

Futuro – É impossível deixar de acreditar num futuro brilhante para o Brasil depois de ler algumas pérolas pescadas nas provas do Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio, que nos dão o retrato de nossa escolarização. Enquanto o enema é a introdução de água e medicamentos líquidos no organismo por via retal, também chamado clister, o Enem é a selfie cultural do país.

Pesquei as pérolas nos e-mails de dois amigos, JP e HC, brasileiros tímidos, que preferem utilizar as iniciais de seus nomes. Comecemos através da Amazônia “que tem um valor ambiental ilastimável e que vem sendo devastada por pessoas que não tem senso de humor”, na opinião abalizada de um futuro universitário. “A fiscalização tem que ser preservativa, não podem explorar a Amazônia de maneira tão devassaladora”, reclama outro. Um terceiro encerra sua prova afirmando: “tem que destruir os destruidores por que o não destruimento salva a floresta”. Preocupação de outro estudante de bom coração: “Depois de tudo isso, o que vamos deixar para os nossos antecedentes?”.

Há que preservar os nomes dos jovens, pois a Apple, a Microsoft e a Google, do Vale do Silício, adoram contratar nossos gênios.

“Precisamos de oxigênio para nossa vida eterna” escreve o rapaz, que também pode ser uma rapariga.  Preocupação estendida aos animais da floresta amazônica: “A floresta está cheia de animais já extintos. Tem que parar de desmatar para que os animais já extintos possam se reproduzir e aumentaram seu número, respirando um ar mais limpo”.

Isaac Assimov escreveu que 99% das espécies que já existiram na Terra estão hoje extintas. De repente, a partir de um pensador do Enem e do ar mais limpo, assistiremos a uma trepação desenfreada de animais extintos há milhões de anos.

“Não sabemos se o presidente está melhorando as indiferenças sociais ou promovendo o saneamento dos pobres. Nos preocupa o avanço regressivo da violência urbana” diz o jovem. Carradas de razão tem um colega dele: “o nervo ótico transmite ideias luminosas para o cérebro”.

“Respiração anaeróbica é a respiração sem ar, que não deve passar de 3 minutos, pois o indivíduo pode morrer”, informa outro. Você, caro e preclaro leitor deste belo blog, deve anotar o seguinte: “Os Estados Unidos tem mais de 100.000 km de estradas de ferro asfaltadas”. E mais: “As estrelas servem para clarear a noite e não existem estrelas de dia, porque o calor do sol queimaria elas”, ressalvada a existência, diz aqui o philosopho, das estrelas que não dispensam os filtros solares.

E tem mais: “A bigamia era uma espécie de carroça dos gladiadores, puxada por dois cavalos”. Anote aí: “Os animais vegetarianos comem animais não vegetarianos”. E mais estas: “O Papa veio instalar o Vaticano em Vitória do Espírito Santo, mas a Marinha não deixou para que fosse construída a Capitania dos Portos, no mesmo lugar”; “os hormônios, células sexuais dos homens masculinos”; “Ateísmo é uma religião anônima, praticada escondido. Na época de Nero, os romanos ateus reuniam-se para rezar nas catacumbas cristãs”.

Aviatórias – Além das forças gravitacionais, várias forças atuam nos voos brasileiros. José Roberto Guzzo, na Veja, mostrou que um ministro do STF não pode viajar nos aviões particulares de certos empresários. Eliane Cantanhêde, mais realista que o Reis, criticou no Estadão a viagem do Aécio num jatinho da Líder pago pelo fundo partidário. O Ministério Público vai adiantado nas investigações sobre a compra do jatinho que matou Eduardo Campos.

Pergunta – Por mais justas que sejam as reivindicações, pequenos grupos de manifestantes podem bloquear as entradas dos quartéis?

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FONTE: philosopho.com.br

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