Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

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17 a 23 de agosto de 2015

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Jornalismo? – Invejoso dos processos que correm em segredo de Justiça, certo jornalismo vem de inventar a notícia secreta, que conta o milagre omitindo o nome do santo.

Peço ao leitor de Marcia Lobo que veja esta manchete: “Risco de saúde pública. Força-tarefa interdita 20 bares por falta de higiene. Fiscalização conjunta do MP, da Vigilância Sanitária e do Procon encontra ratos, baratas e alimentos estragados em estabelecimentos da área central. Página 3”.

Aí, o leitor vai à página 3 e não encontra o nome de um único dos 20 bares interditados na área central de uma cidade de 600 mil habitantes.

Tem sido assim, também, com as notícias dos crimes: “Um homem de 40 anos foi preso ontem depois de atirar num jovem de 18 no bairro Grajaú”. Você fica sem saber os nomes do atirador, do jovem e se o tiro foi mortal. No máximo, é informado de que o estado da vítima é “estável”, adjetivo que tem uma porção de significados. Vale notar que, omitindo os nomes dos estabelecimentos interditados, o jornal prejudica todos os bares da área central da cidade.

Mas, porém, todavia, contudo, apesar dos segundos, um a um, que a ciência de tempos em tempos acrescenta às 24 horas do dia, há sempre um dia depois do outro. No dia seguinte ao da manchete que transcrevi acima, o mesmo jornal deu suíte: “Legalmente, nomes deveriam ser públicos”. Com o seguinte bigode: “OAB diz que é direito do consumidor saber quais locais foram interditados”. Acompanhei o noticiário mais três ou quatro dias e até hoje não sei os nomes dos bares fechados.


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Pátria educadora – Todo brasileiro palpita sobre futebol e educação. Nosso futebol tem sido isto que se vê e a educação não vai lá das pernas: basta comparar o Brasil com os outros países. Se não me falha a memória, ocupamos o 88º lugar no ranking da UNESCO.

Entre os brasileiros que entendem do assunto não tenho visto nenhum que aborde um problema basilar de nossas universidades públicas estaduais ou federais. Quase todas se queixam da falta de verbas e continuam permitindo que muitos alunos, filhos de famílias ricas, continuem estudando de graça. Educação gratuita para o aluno que chega ao campus dirigindo seu carro último tipo. Na Federal de Juiz de Fora o café da manhã custa 50 centavos e o almoço R$ 1,40.

Família de classe média alta pelos padrões daquele tempo, cursei faculdade de Direito sem pagar um tostão e tinha, desde os 18 anos, um puta salário numa sociedade de economia mista.

Fui um entre centenas de milhares de casos, que talvez se contem por milhões ao longo dos últimos 50 anos. Absurdo que continua existindo, o que me permite recomendar: além das diversas cotas inventadas recentemente é justo que exijamos a cota dos que podem e devem pagar. São milhares no Brasil inteiro. Não tem cabimento que continuem a estudar de graça.


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Palavras – Num texto de José Eduardo Agualusa, nascido em Huambo, Angola, no ano de 1960, encontro o substantivo concúbito, em nosso idioma desde 1672, latim concubìtus,us de mesmo significado: união carnal, cópula, coito.

Até aí, tudo bem, não fosse a esplendorosa ignorância que me impôs consulta ao dicionário para aprender o significado de concúbito. Aproveitei a pesquisa para ver na Wikipédia que a maioria da população de Huambo é de origem ovimbundo, que Wambo Kalunga fundou o reino de Wambo, que o Morro Moco tem mais de dois mil metros de altitude com muitos rios e riachos que descem para o litoral e países vizinhos.

José Eduardo Agualusa Alves da Cunha é branco, presumivelmente de família de colonizadores portugueses, muitos dos quais curtiam o concúbito com as ovimbundas num quadro que a Medicina Legal de antanho chamava de cromo-inversão sexual. Cromo, sabemos todos, vem do grego khrôma,atos ‘cor’ e um personagem do Eça já dizia: “Em a gente se acostumando, não se quer senão daquilo… A preta é uma grande mulher”.


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Halputta – Se você sabe que halputta ou hulputta é jacaré, que alattchumpah é vivo e omulka é todos ou tudo, parabéns: o ilustrado leitor de Marcia Lobo vai adiantado no vocabulário dos seminoles, índios que ocupavam a região onde hoje fica a cidade de Orlando, na Flórida, que recebe 55 milhões de turistas/ano, contra 6 milhões do Brasil inteiro. É mole?

Na Primeira Guerra dos Seminoles, em 1836, o soldado Orlando Reeves foi morto e enterrado junto a uma árvore, na qual escreveram seu nome, daí o nome da cidade que, em 1890, tinha 2.896 habitantes, reduzidos para 2.841 em 1900, saltando para 80.000 quando passei por lá em 1956 e hoje tem cerca de 240.000. Sua área metropolitana passa de dois milhões de habitantes. O turismo emprega 230 mil pessoas na região, que tem 100 mil quartos de hotéis e 26 mil casas para alugar.

Clima subtropical quente e úmido, no verão os termômetros podem atingir 45ºC e no inverno podem chegar aos 5ºC. E o leitor tem o direito de perguntar por que, diabo, estou falando de Orlando, cidade incorporada em 1875, 25 anos depois da Terceira Guerra dos Seminoles, que, como vimos, chamam jacaré dehulputta.

Acontece que em Orlando há uma loja sueca de móveis decorada, sabe o leitor com quê? Se não sabia, fique sabendo: com livros de João Ubaldo Ribeiro em diversos idiomas. É ou não é de cabo de esquadra?


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Coautoria – Na aceleração do processo de extinção dos jornais impressos não se pode omitir a figura do coautor, que ocupa cargos importantes nas redações.

Gente que ainda não entendeu o óbvio: não faz sentido noticiar um fato conhecido desde a véspera. O leitor já soube pela tevê, pela internet, pelo celular. Dir-se-á que há 50 anos o leitor de jornais sabia pelas rádios e pelas tevês, mas as fotos, os mapas, as listas, as comparações, os números, as tabelas não cabem nas telinhas ou nas rádios, hoje veículos ideais para assaltar bocós através dos pastores.

Jornal impresso pede opiniões, até para que o leitor possa discordar dos opinantes. Pede cronistas com os quais muitos leitores se identificam, afeição que pode chegar ao amor platônico, sempre que possível entre pessoas de sexos diferentes. Jornal impresso permite que o assinante evite a leitura dos textos escritos por pessoas com as quais não concorda. Assino quatro jornais e não leio uma porção de gente, porque já sei que, pela minha óptica, só escrevem asneiras.

Que fizeram os “gênios” que dirigem a maioria dos jornais impressos? Acabaram com os cronistas ou inventaram “cronistas” cujos textos, tentando ser originais, se distinguem da bosta pela falta de odor.

Sei que Bragas, Ubaldos e Sabinos já não abundam como abunda a pita, grande erva rosulada da família das agaváceas. Daí a contratar uma cantora, ou duas, ou três, que não têm nada para contar, é uma besteira que não atrai nem conserva os leitores. Equivale a contratar um Affonso Romano, uma Cora Rónai, para cantar num show sertanejo.

Impende notar que na Ilha de Lesbos os jornais são editados numa língua de origem indo-europeia falada pelo povo grego na Grécia e em Chipre.


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Nihil novi – Baseado no Google, informo ao caro e preclaro leitor que a expressão Nihil novi sub sole está no Eclesiastes (I. 10) e significa “Nada de novo sob o Sol”.

Assim também com as reações do pessoal dos táxis contra a UBER, parecidíssima com as reações que acompanhei no Rio de muito antigamente. Os táxis eram todos pretos, geralmente Chevrolet, e o taxímetro Capelinha ficava do lado direito do painel com a indicação Livre se estavam desocupados. O tipo do negócio difícil de ver durante o dia e impossível à noite. Motoristas geralmente portugueses.

Então, um deles teve a ideia de botar uma luz iluminando a bandeirinha Livre para que fosse visível à noite. Sabe você o que os colegas fizeram com o inventor da luzinha? Apedrejaram seu táxi. E todos botaram luzinhas depois de alguns dias.

Mais tarde, outro novidadeiro adotou o bigorrilho, nome daquele negócio de plástico posto sobre a capota do carro, que, aceso, indica táxi livre. Foi agredido pelos colegas e teve seu carro quebrado a pauladas. Pouco tempo depois, todos tinham bigorrilhos nas capotas dos seus carros.

Não sei como vão se ajeitar com a UBER, mas já surgiram na praça diversos aplicativos, tipo easytaxiwaytaxi, para chamar os táxis normais. Vivemos a era dos aplicativos e o imbecil que lhe fala ainda não aprendeu a mexer com o smartphone adquirido há meses. Meu idoso Nokia não aceita aplicativos, nem posta bosta nenhuma.

O mundo inteiro deu para postar. Até aquele maluco de 16 anos, que matou um colega da mesma idade, não se esqueceu de postar sua foto nas redes sociais ao lado do defunto. Foi preso, mas postou.

Assisti a um programa televisivo do jornalista Jorge Pontual (Jorge Alexandre Faure Pontual, Belo Horizonte, 4 de novembro de 1948) entrevistando professor universitário nos Estados Unidos sobre “redes sociais”.

Aprendi uma porção de coisas. Uma delas é o risco de transmissão dos resfriados através das redes sociais. Um dos membros, que você não conhece, nunca viu e não faz parte de sua rede social, fica gripado e passa o vírus para um conhecido, que transmite para outro e o vírus vem sendo passado de mão em mão até chegar a um sujeito, ou uma sujeita, de sua rede social, que se encontra com você e bumba: é resfriado na certa, não porque se abracem ou se beijem, mas porque se cumprimentam com o maldito shake hands. Brasileiro não dispensa o shake hands.

Franceses se beijam no rosto. Não sei qual é o risco de transmissão do vírus através dos beijos no rosto, mas através do aperto de mão é quase certo, porque você acaba levando sua mão ao rosto, a não ser que se lave de cinco em cinco minutos.

Fumante de charutos, sempre beijei as mãos das senhoras que me são apresentadas para evitar que sintam o cheiro do tabaco enrolado na Bahia ou em Cuba. Em BH, não raras vezes ouvi: “Que bonitinho! Ele beija a mão…”

A explicação para esta febre das chamadas redes sociais nos chegou através de Umberto Eco: “A mídia social dá voz a uma legião de imbecis, que antes falava apenas no bar depois de beber uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”.

E conclui dizendo que a legião de imbecis tem hoje o mesmo direito de palavra que um Prêmio Nobel: “É a invasão dos imbecis /…/ o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.


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Honesta? – De vez em quando vejo nos jornais alguém dizendo que dona Dilma é honrada, é honesta. Discordo e vou explicar por quê.

Desonesto não é somente aquele que furta, rouba ou se organiza em quadrilha. Não é somente aquele que achaca a Petrobras, a Eletrobrás, que subtrai coisa móvel pertencente a outrem, com ou sem violência, que se organiza em quadrilha ou o estelionatário e o ladrãozinho de celulares.

A honestidade é atributo daquele que apresenta probidade, honradez, segundo preceitos morais socialmente válidos. Exercer o cargo de ministra da Casa Civil, a presidência do Conselho de Administração da Petrobras, a presidência da República e não ver nada de “errado” em seus subordinados é, sim, uma desonestidade.

Exercer um cargo eletivo sem ter competência é, também, uma desonestidade. Afundar um país do jeito que dona Dilma afundou é a prova perfeita e acabada de sua desonestidade.

Honestidade é decência, é ser irrepreensível, e  Dilma das Erenices, dos Mantegas e de tantos outros apaniguados nunca foi irrepreensível. Cada um dos reais que embolsou como salário no exercício de cargos para os quais não tem competência é dinheiro sujo. Não é possível que não tenha desconfiado, que não soubesse da ladroeira dos seus subordinados.  Portanto, é desonesta.


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Bicicleteiros – Ciclismo profissional é esporte exaustivo e oTour de France é a prova mais difícil e importante do mundo. Os 180 ciclistas que disputam a Volta da França terminam cada etapa em pandarecos e seu cansaço físico contamina os narradores do canal ESPN, tanto assim que uma comentarista, agora em julho, disse que determinado bicicletista estava evoluando na prova. Fiquei sem saber se o evoluar do atleta permitiu-lhe algum prêmio no final da prova.

 

 

 

FONTE: Jornal da ImprenÇa.

 



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