Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

TIRO E QUEDA NheengatuNas 150 palavras que ainda cabem nesta crônica, pergunto: que levaria um cidadão a escrever um livro sobre nheengatu, que, impresso em letras miúdas, tem 800 páginas?

 

Eduardo Almeida Reis

Publicação: 17/04/2014 04:00


É um queijinho francês, Petit Brie, fabricado pela Président, e tem sua composição escrita na caixa em vários idiomas: italiano, português, holandês, finlandês, francês, inglês e chinês, que, suponho, seja mandarim. No texto em português, lê-se: Queijo de leite de vaca pasteurizado – 50% M.G. = 24% de M.G. no produto final – Peso líquido = 125 g – Conservar entre 4°C e 8°C – Abrir uma hora antes de servir. Tem ainda um texto em GR TYPI BRIE PRESIDENT, em que se lê: Amapá 50% – Yypaoaia 54% e depois umas letras que não consigo reproduzir no computador. Fiquei mais que intrigado com o GR e com o Amapá 50%. 

Nosso glorioso Amapá, estado que deu ao Senado as figuras solares dos senadores José Sarney e Randolfe Rodrigues, tem etimologia de origem controversa que pode ter vindo do tupi, significando “o lugar da chuva”, como pode vir do nheengatu, língua geral da Amazônia, uma espécie de dialeto tupi-jesuítico, significando “terra que acaba” ou “ilha” (fonte: Wikipédia). Também se atribui o nome do estado a uma árvore que produz fruto saboroso, Hancornia amapa, típica da região.

O negócio vai por aí e não há de ser resolvido neste espaço em que o philosopho pergunta aos leitores versados em grego e outras línguas complicadas: se GR é grego, como parece que é, que diabo significará Amapá 50% – Yypaoaia 54%? E tem mais uma coisa: 54% não se vê em nenhum dos idiomas da caixinha, só em GR para Yypaoaia. Seria erro de digitação? Nos outros idiomas é 24%.

Se o caro, preclaro e pacientíssimo leitor ainda não conhecia o maluco que tem vocabulário e gramática nheengatu, apraz-me dizer-lhe que está falando com ele. Fui procurar amapá e constatei que na língua geral amazônica significa árvore da família das Apecynaceas que dá uma fruta comestível, uma espécie de sorva (ô). Sua madeira branca é leve e pouco usada. A casca amarga contém resina leitosa usada para fins medicinais.

Informação que não bate com a atual, em que Apecynacea virou apocinácea e a madeira passou a ser útil em marcenaria, construções e produção de celulose. Quanto ao livro, senhoras e senhores do egrégio conselho leitoral, tem coisas deliciosas. O ato de excretar aquilo que se faz no banheiro é caaa-sáua. Quem obra é caaa-sára ou caaa-uéra e o banheiro, que não existia por lá, o local em que o caaa-sára costuma obrar é caaa-rendáua. Convenhamos em que o nheengatu merece matéria espichada, que prometo escrever com calma. 

Nas 150 palavras que ainda cabem nesta crônica, pergunto: que levaria um cidadão a escrever um livro sobre nheengatu, que, impresso em letras miúdas, tem 800 páginas? Vocabulário nheengatu-português e português-nheengatu, gramática e uma seleção de trechos de contos em nheengatu poranduua pelo conde Ermano Stradelli, com as respectivas traduções.

Resposta: o conde Stradelli morou muitos anos no Amazonas e fez o trabalho, que a Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro publicou pela Imprensa Nacional em 1929. A primeira revisão das provas ficou por conta do professor Rodolfo Garcia, membro do Instituto, avô deste menino Luiz Garcia, articulista do Globo. Edição complicada pelo fato de inexistirem nas linotipos da Imprensa Nacional y com acento agudo, u tilado, a e o com sinais de quantidade e outras complicações. Impresso o volume, foi comprado e encadernado pelo general Xavier, de Juiz de Fora, Minas, onde o adquiri num sebo. Gosto de dicionários, vocabulários e publicações do gênero. Não é defeito grave.


Conarj 
Se o Conar, Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, cuida dos absurdos da publicidade, é tempo de pensar num Conarj que cuide do jornalismo. Explico: certas matérias comprometem a credibilidade de quem as veicula e respingam no jornalismo como um todo. No final de março tivemos uma rede de tevê ávida do ibope através da “reabertura” de um processo que chocou o Brasil inteiro: os cinco mortos da família Pesseghini, num subúrbio de São Paulo.

Um casal de PMs paulistas, duas parentas mais velhas e o filho do casal, menino de 12 ou 13 anos, aparecerem mortos a tiros. Raros homicídios foram tão estudados no Brasil e a policia concluiu que o autor dos quatro homicídios foi o menino, que terminou por se suicidar perto dos país.

A “reabertura” jornalística do caso, baseada no depoimento ridículo de uma priminha do menino, comprometeu a credibilidade de todos nós que trabalhamos na área. Caso típico de Conarj.


O mundo é uma bola 
17 de abril de 1521: Martinho Lutero é excomungado por suas críticas ao papa. Alemão de Eisleben, nascido em 1483, Lutero foi um monge católico agostiniano, professor de teologia e figura central da Reforma Protestante. Contestou a alegação de que a liberdade da punição de Deus sobre o pecado poderia ser comprada, recusou-se a retirar seus escritos a pedido do papa Leão X, em 1521, e do imperador Carlos V, no mesmo ano, foi excomungado pelo papa e considerado fora da lei pelo imperador do Sacro Império Romano. Morreu gordo e feliz em 1546, casado com Katharina von Bora, mãe de seis filhos. Hoje é o Dia do Lojista de CD.


Ruminanças 
“A contribuição principal do protestantismo para o pensamento humano é a sua demonstração poderosa de que Deus é um chato” (H. L. Mencken, 1880-1956).

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