Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

Produto, Sorteios, Notícias, Calhamaços e Institutos

Produto – Salvo nos teatros, onde significa desejar “boa sorte” aos atores que vão entrar em cena, o substantivo feminino merda é matéria fecal, excremento, fezes. O desejo teatral teve origem no tempo em que a assistência qualificada chegava de carruagens para assistir aos espetáculos. Veículos tracionados por animais, as carruagens aguardavam seus passageiros nas ruas próximas e os animais faziam cocô. Na dependência da quantidade de matéria fecal encontrada na manhã seguinte, o espetáculo podia ter sido um sucesso, daí os votos feitos até hoje.
Surpresa para este venerando philosopho tem sido a merda produzida pela esmagadora maioria dos jornais impressos de uns tempos a esta parte. Mudam-se os tempos, as tecnologias e as vontades, é certo, mas as coisas podem acabar, como acabaram as fábricas de galochas, sem passar pela merda que vem sendo produzida pelos jornais.

Que pretendem seus diretores? Cadernos inteiros sobre homossexualismo só porque a prática de relação amorosa e/ou sexual entre pessoas do mesmo sexo continua existindo, como sempre existiu. Péssimos cronistas negros pelo só fato de serem negros. Ora, bolas, José do Patrocínio e Machado de Assis eram negros, mas tinham talento.

Há quem sustente que o jornal impresso tem sobrevida de alguns anos. Ainda outro dia, grande jornal americano contratou 60 jornalistas de peso. Tenha ou não sobrevida, é importante evitar a merda que vem sendo produzida.

Sorteios – Um monte de gente recebe telefonemas avisando sobre um prêmio de 60 mil reais e um automóvel novo, resultado de um sorteio realizado naquele dia. Muita gente acredita e deposita determinada quantia no banco para finalizar os trâmites do dinheiro e do carro sorteado. Os telefonemas são dados por presidiários e o contemplado, coitado, fica sem o dinheirinho que depositou na conta indicada.
Mas há sorteios divertidos, como aqueles feitos por algumas igrejas evangélicas. Uma delas sorteia viagens de 15 dias a Israel, oficialmente Estado de Israel, república parlamentar localizada no Oriente Médio ao longo da costa oriental do Mar Mediterrâneo. Moeda: novo shekel israelense. Línguas oficiais: hebraica e árabe.

Se você tem uma empregada evangélica, e hoje é difícil encontrar domésticas que não sejam crentes, corre o risco de ficar sem ela durante 15 dias. Motivo: foi sorteada para conhecer o Estado de Israel. Não fala hebraico nem árabe, mal fala o português. Aproveitaria muito mais um sorteio para conhecer Cabo Frio ou Alagoas, coitada, mas dá com o costado em Israel, não entende absolutamente nada do que vê e lhe contam em português de pastor-adjunto, isto é, pastor que não tem a lábia de um Edir, um Soares, um Valdemiro.

Só uma coisa é certa: circulando em Israel corre menos riscos do que na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Notícias – Viciado em notícias, ligo a tevê e abro os jornais impressos para constatar que o planeta ultrapassou o paroxismo da maluquice. Considerando que paroxismo significa “momento de maior intensidade de uma dor ou de um acesso”, os dicionários precisam incluir o pós-paroxismo depois do pós-modernismo, do pós-orbital e do pós-parto já dicionarizados.

Ônibus urbanos de Belo Horizonte, circulando por duas das mais centrais e conhecidas avenidas, passaram a contar com dois guardas municipais além do motorista e do cobrador. Motivo: centenas de assaltos aos passageiros nos últimos meses.

Mocinha linda de Goiânia, GO, presa nas Filipinas ao desembarcar do avião com seis quilos de cocaína escondidos num travesseiro, “missão” que lhe renderia 15 mil reais e mais um troquinho para passar dois dias em Manila, capital do país presidido pelo doutor Rodrigo Duterte. Valor da coca transportada: dois milhões de reais.

Só em Belo Horizonte, sem um grama de cocaína, conheço diversos mineiros que pagariam 15 mil reais à linda mocinha para passar com ela três dias num hotel. Em Manila corre o risco de ser condenada a 20 anos de cadeia, ou mais. Pela óptica sexual a moça é honesta, mas pouco inteligente.

Calhamaços – De repente, sem aviso prévio, voltei a comprar e ler livros imensos, 500 páginas em letrinhas miúdas, que têm a virtude de poupar o leitor do noticiário televisivo.

Embalado, reli “Notícias do planalto”, de Mario Sergio Conti, sobre a roubalheira da Era Collor. Conti escreve bem e vai mal na tevê, como se pode constatar no seu programa “Diálogos” transmitido pela GloboNews. O livro é ótimo e o programa semanal, com todo o respeito, muito chato.

A começar pelo cenário sempre importante num programa de tevê. Pior que o cenário dos “Diálogos” só aquela josta inventada para o “Estúdio i”. Maria Beltrão e os telespectadores não mereciam.

Institutos – Vejo na tevê que uma doutora em saúde mental vem de criar o Instituto Delete para tratar de viciados em celulares, jogos eletrônicos, internet e outras enfermidades modernas. Tem gente que vara a noite nos games, assim como há dependentes dos smartphones. Funcionando há poucos meses o Delete já foi procurado por mais de 500 dependentes, muitos realmente “ligados”, outros com problemas mentais de variada causa. Vale recordar que Eusébio Santiago, autor de várias mortes no Aeroporto de Fort Lauderdale, na Flórida, ouvia “vozes”. Quando acabou a munição de sua arma, Santiago se entregou à polícia, confessou os crimes, foi filmado, fotografado e preso, o que não impediu conhecido jornal de manchetar: “Suspeito escolheu aeroporto da Flórida para realizar massacre”. Quer dizer: o cavalheiro de 26 anos realiza um massacre é continua suspeito. Só matando o jornalista que publica asneira de tamanha inópia. Aprendi agorinha: vem do latim inópia,ae “falta, carência, privação do necessário”, isto é, do necessário para o exercício do jornalismo.

Baseado no Instituto Delete penso criar o Instituto Rabiscar (de rabo + -iscar), o que não significa “pôr isca em”, no caso o rabo, mas escrevinhar. Escrever é muito gostoso. O escriba se diverte à beça e à bessa, aprende uma porção de coisas, divulga o que pode divulgar e vai tocando a vida. Lacan disse que a escrita substitui o sexo. Se não disse, deveria ter dito porque escrever é quase tão divertido quanto.
Terminamos a semana passada com a China ameaçando os Estados Unidos de guerra total, se impedida de controlar meia dúzia de ilhotas inexpressivas situadas a centenas de quilômetros de suas costas.

A semana que começou dia 17 de janeiro promete: menos pelos diamantes que o Lula teria guardado nos cofres portugueses do que pela posse do Trump.
A notícia dos diamantes foi dada pela senhora Maria Christina Mendes Caldeira, 51 anos, refugiada nos Estados Unidos, que diz ter provas da maracutaia guardadas nos cofres de cinco países. Pesa contra a denunciante o fato de ter sido casada com o pulha Valdemar Costa Neto, que foi presidente nacional do PP (hoje PR), andou preso e foi indultado em 2015. Valdemar Costa Neto não faria feio num time que contasse com Renan, Cunha, Geddel, Waldir Maranhão, Lula e outros craques de nossa política.

Stetson, Se beber, Salários e Facebook

Stetson – Não bastassem os 12 milhões de desempregados, os recordes de homicídios e roubos, os arrastões, a corrupção e o mais que aflige este país grande e roubo, temos agora padres cantores de chapéu de caubói com a agravante da música sertaneja, um castigo para os ouvidos da humanidade.
Cantar é preciso, o canto gregoriano no Mosteiro de São Bento, no Rio, é lindo, mas padre católico de chapéu de caubói e música sertaneja são o fim da picada.
Por R$ 2.590,00 você pode comprar um Stetson de pelo (ainda grafado pêlo) na internet, mas é recomendável o chapéu de palha, da mesma Stetson Cowboy Hats fundada em 1865 por John B. Stetson.

No Rio de antigamente tivemos um médico, enriquecido no ramo hospitalar, que comprou fazenda famosa e com ela um legítimo Stetson de feltro. Por mal dos pecados as exposições agropecuárias fluminenses eram realizadas em regiões quentes, normalmente quentíssimas, e o novo fazendeiro se notabilizou pelo número de vezes que levava a mão à cabeça para tirar o chapéu. Aquilo que parecia cordial cumprimento não passava da necessidade de refrescar a cuca.
Sem assinar o meu nome, prestei alguns serviços de redação ao doutor. Sempre que lhe levava as faturas do jornal ao belo apartamento da Vieira Souto saía de lá com o cheque para a empresa jornalística e uma garrafa de champanhe obviamente francês. Presente dado no idioma falado na região de Champagne: “Pour vous, monsieur”.

Se beber… – “Se beber, não dirija” seria recomendação perfeita se acrescentasse não fale, não se apaixone, não brigue. Embalado pelo álcool, o sujeito faz cada besteira que vou te contar. Dir-se-á (adoro mesóclises) que estou cuspindo no prato em que comi, isto é, no copo em que bebi durante 50 anos. Parei de livre e espontânea, sem ressacas, e não me arrependo da bebida nem da parada.
É claro, como também é óbvio e evidente, que o álcool diminui os reflexos, o equilíbrio, os movimentos e outras reações físicas, mas pergunto ao caro e preclaro leitor uma coisa que sempre me intrigou: quem somos de fato?

Esqueça a parte física e se limite ao núcleo da personalidade da pessoa, também chamado ego: a pessoa é a sóbria ou a alcoolizada? Se você souber, me conte, por favor.

Salários – Em números redondos, o novo piso salarial dos professores representa pouco mais que 14 reais por hora de aula, menos que três salários mínimos mensais.

Dir-se-á que é o piso salarial, regionalismo brasileiro para o “ nível salarial mínimo estipulado para determinada classe de trabalhadores” e nada impede a existência de salários muito maiores, à altura dos que exercem a mais nobre das profissões.
Ninguém nasce professor. É preciso estudar para ensinar. Aulas exigem planejamento e deslocamento do professor, que não mora na escola. Se o piso salarial fosse de 140 reais por hora de aula seria justo, mas é de pouco mais de 14 reais e a maioria dos municípios brasileiros não tem condições de pagar essa micharia.

Como? No Houaiss não tem micharia? Claro que não pode ter. A grafia correta é mixaria, algo de pouco ou nenhum valor, ninharia, bagatela, quantia muito pequena de dinheiro. De grande, mesmo, imensa, descomunal, só a ignorância do seu philosopho predileto.

Facebook – Em face do Face minha reação é de perplexidade. Há coisa de ano e meio fiz a besteira de entrar naquela josta, devo ter escrito meia dúzia de tolices durante quatro ou cinco dias e desde então venho recebendo diariamente avisos, mensagens, notícias do Face. Ora me informam que um conhecido atualizou o seu próprio status, palavra latina que significa situação, estado, qualidade ou circunstância de uma pessoa ou coisa em determinado momento. Em antropologia é “condição (de alguém ou de algo) aos olhos do grupo humano em que vive”; como termo jurídico é “condição de alguém aos olhos da lei” ou “conjunto de direitos e deveres que caracterizam a condição de alguém”. Por extensão de sentido da primeira acepção é “posição favorável na sociedade; consideração, prestígio, renome”.

Aí, uma senhora que não conheço e se expressa em inglês informa o falecimento de seu gato de 15 anos. Gato: pequeno mamífero carnívoro, doméstico, da família dos felídeos (Felis catus).

Em Juiz de Fora, MG, sou informado pelo Face da morte do gato e vejo que um caminhão de amigos da tal senhora manifesta condolências aparentemente sinceras.

A praxe no Face é demonstrar felicidade. O infausto acontecimento felídeo foi exceção à regra de publicar fotos as mais idiotas mostrando que Fulano e Sicrana foram à praia em Ipanema ou visitaram o Cristo Redentor, não o de Muriaé, que faz sucesso na TV-Integração por ser a terra do excelente Bráulio Braz, mas a estátua carioca. E o pior, o mais grave, o inexplicável é constatar que há gente brilhante pendurada no Face, que não sai do Face, que se exibe no Face. “O tempora, o mores!”, exclamou Cícero na 1ª Catilinária contra a corrupção de seus contemporâneos. Tempos e costumes que servem para estranhar uma porção de coisas, inclusivamente o Face.

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FONTE: philosopho.com.br

 



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