Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

Imagem
22 a 28 de junho de 2015

Imagem

Amizades – Tenho velho amigo, sujeito supimpa, que é amigo do Zé Dirceu. Por força da profissão de jornalista frequentava o Palácio do Planalto e conhecia o poderoso ministro do Lula. Eram vizinhos em Brasília. No dia em que Zé Dirceu foi parcialmente defenestrado, sem deixar de mandar nesta choldra, meu amigo estranhou o pequeno movimento de carros diante da casa do vizinho. Deu um pulo até lá, havia pouquíssimas pessoas, beberam uísques vários, fumaram charutos enviados pelo comandante Castro. Desde então, ficaram amigos. Sai dessa, caro e preclaro leitor.

O mesmo amigo do Zé Dirceu, sem deixar de ser cavalheiro da melhor supimpitude, também ficou íntimo do general Stroessner (1912-2006), que foi morar em Brasília, DF, depois de apeado da presidência do Paraguai em 1989 pelo general Rodríguez, por sinal seu genro. Stroessner, acompanhado de um segurança, gostava de assentar-se numa cadeira de praia para ver o pôr do sol no Lago Paranoá. Como também era vizinho do meu amigo conversavam sobre diversos assuntos. Papo interessantíssimo, Stroessner contava episódios de seu governo entre 1954 e 1989, 35 anos de acordo aqui com a calculadora chinesa que me custou nove reais. O mineiro de Passa Quatro, o paraguaio de Encarnación e os demais bandidos de alto coturno tinham e têm coisas interessantes para contar, das que podem ser contadas.

Em 1996 mudei-me para BH e fui morar a dois metros da Favela do Cafezal, que chamei de Savassi Hills, brincadeira com o saudoso Roberto Drummond. Atleticano roxo, quando se mudou para um apê no Bairro Cruzeiro, Roberto escreveu que havia comprado apartamento de alto bordo no Alto Savassi. Sendo a Favela do Cafezal mais alta que o Cruzeiro, virou Hills, “montanhas” em inglês.

Dois ou três dias depois, ainda sem empregada, fui almoçar na churrascaria da moda, desabou um toró indescritível, passava das 4 da tarde e nada de táxi que me levasse para casa. Nisto, aproximam-se um senhor, sua mulher, os três filhos pequenos e o maridão me pergunta: “Condução para Savassi Hills? Não quer tomar um licor e fumar um charuto lá em casa?”. Aceitei o convite, embarquei no Mercedes último tipo do marido, enquanto sua mulher, com os três filhos, dirigia Mercedes igual.

Belo apartamento, ótimo licor, charuto magnífico, quando fui intimado a autografar três grossos livros encadernados em couro preto reunindo cerca de 1600 recortes de crônicas minhas para o jornal em que trabalhava. Autografei, bebi o licor, fumei o charuto e fui conduzido de Mercedes ao prédio vizinho da favela.

Claro que incluí o dono dos três livros encadernados em couro preto na lista dos amigos. De lá para cá nos encontramos poucas vezes em reuniões sociais. Não creio ter escrito nada que o pudesse irritar. Recentemente, transcorridos 18 anos, telefonei-lhe indicando o filho de um mecânico, que desejava fazer um estágio não-remunerado no clube presidido por ele. Na verdade, minha indicação era um presente ao time do mineiro, porque o menino leva jeito extraordinário para jogar futebol. Indicação que não me renderia um centavo, custou-me telefonemas interurbanos, porque continuo com a mania idiota de prestar serviços, de indicar pessoas, essas bobagens que rendem, no máximo, um agradecimento do tipo “fui indicada pelo senhor”.

Pois muito bem: o amigo do conhaque, do charuto, da carona e dos três livros de recortes encadernados em couro esnobou meu telefonema. Se Freud não explicar, ninguém explica.


Imagem

Ilações – Ilação, sabemos todos, é inferência, ação de inferir, de concluir. Inferência é conclusão.  Na tevê, sempre que vejo Nelma Kodama, Paulo Roberto, Palocci, Dirceu, Vaccari e sua cunhada, Duque, Luiz Inácio, Rosemary, essa turminha toda que o leitor conhece através da telinha, não posso deixar de tirar uma ilação meditada: distinguem-se da primeira empregada que tive em Belo Horizonte pelos valores roubados, mas a moça era linda e cheirosa.

Pois é, cristão-novo na capital de todos os mineiros, ano da graça de 1996, telefonei para uma agência de empregos e me mandaram a moça para trabalhar de carteira assinada. Lindíssima, cheirosa, 26 anos, mãe solteira de três filhas, morava num barraco na divisa dos municípios de BH e Contagem.

Devo confessar que pensei: “Estou feito!”. Nas idas ao supermercado todo mundo me olhava com inveja: o coroa e o avião, mas apesar de ateu tenho anjo da guarda muito melhor do que o anjo daquele comercial imbecilérrimo da Cemig. Anjo da guarda ou anjo custódio, como sabe o leitor, na angeologia cristã é o anjo encarregado por Deus de velar continuamente por uma alma humana em particular, defendendo-a e guiando-a.

Inda me lembro de um almoço em domicílio, num dia em que estava alegre e tomava uma garrafa de champanhe. Philosophei: “É hoje!”. Mas o anjo custódio buzinou qualquer coisa na obnubilação provocada pelo produto vinificado em Reims e adiei a missão para o dia seguinte. Missão, dizem os militares, não se discute: cumpre-se.

O inverno se aproximava, começou a esfriar e fui aos armários procurar toalha de banho extra larga, produto raro que comprei no Rio. Tinha três e não encontrei nenhuma. Na prateleira dos lençóis havia uma fronha, e só uma, de um conjunto colorido que havia desaparecido. E assim por diante: a moça linda e cheirosa, mãe solteira de três filhas, tinha roubado meu “enxoval” inteiro, inclusivamente copos, xícaras, essas coisas. Pouco inteligente, deixou sinais do furto como a tal fronha colorida ao levar os lençóis e a outra fronha.

Seria a coisa mais fácil do mundo chamar a polícia para recuperar os produtos furtados e dar um aperto na moça linda e cheirosa, providência que evitei aconselhado pelo anjo da guarda. Toalhas de banho, de mesa, lençóis e copos a gente compra outros. Resolvi o problema com a demissão sumária, baixa na carteira, recibos assinados e até hoje não consegui encontrar novas toalhas de banho daquelas imensas, ótimas no inverno.


Imagem

Propaganda – Escrevendo em jornal impresso, o assunto propaganda é delicado e só pode ser trilhado com toda a cautela do mundo. Não se deve “ofender” as agências, que são anunciantes no jornal. Baixar o cacete nos anunciantes que sustentam o jornal exige uma inteligência que me falta.

Na internet, contudo, a gente pode falar à vontade para comentar o nível de nossa propaganda, que vem caindo assustadoramente. Aqueles anúncios da Caixa sobre o poupançudo  são de uma imbecilidade que merece o pódio da debilidade mental.

Ficamos sabendo pela Operação Lava-Jato que a Caixa entupiu de dinheiro uma agência de publicidade, que deve ter sido a responsável pelo comercial do poupançudo. Ricardo Hoffmann, operador da agência Borghi-Lowe, está preso e fechou um acordo de delação premiada. Se a Borghi-Lowe foi responsável pelo poupançudo, o comercial merece a pena aplicada na Indonésia aos traficantes de cocaína.

No boom  das vendas de automóveis, uma empresa montadora anunciava seus veículos como capazes de escapar dos tiros de metralhadora disparados de um helicóptero. Tem cabimento? Será que alguém compra um automóvel normal para fugir das balas disparadas de um helicóptero?

E a Oi, hein? Que me diz o leitor de uma operadora de telefonia celular que, em sua fase de organização, anunciava telefoninhos que orientavam o comprador a alcançar uma UTI? Alguém compra um celular para descobrir o caminho que leva a uma unidade de terapia intensiva?

E a GM, coitada, que já recorreu aos seus presidentes no Brasil, nas Américas, na China, risonhos, engravatados, prometendo vender Chevrolet “a preço de funcionário”, demite à beça, tem milhares de funcionários em férias ou layoff, e as vendas não engrenam. Com uma novidade: Juiz de Fora, beirando os 700 mil habitantes, cidade-polo da Zona da Mata de Minas, semana passada (15 a 21 de junho) perdeu a última concessionária GM. Agora, se um Chevrolet enguiça, seu proprietário precisa alugar a um reboque e procurar concessionária noutras cidades.


Imagem

Compras – Ando numa fase comprista e os objetos de meu atual desejo são uma bicicleta e uma poltrona de avião. Influenciável, vi na tevê que a bicicleta evita derrames, enfartes, obesidade e é uma garantia de saúde eterna. Quanto à poltrona é daquelas usadas, retiradas de aviões que não avoam mais. Valem uma tuta e meia nas oficinas que desmancham aviões.

De corrida ou normal, a bicicleta pode ser usada e deve ser muito barata. Será pendurada na área de serviço: já não sei andar de bicicleta. Soube, mas passei da idade. A poltrona será entronizada num lugar do apê para ser vista o dia inteiro e me lembrar da felicidade de não estar sentado num avião. Detesto viajar. Fico feliz quando informado sobre aeroportos em que os aviões decolam com intervalos de 50 segundos e sei que não estou num deles, mas devo confessar que o clima no saguão de um aeroporto, dos grandes, muito me diverte.

Gente esquisita, malucos em profusão, filas imensas, malas despachadas, roubadas, alegrias e aflições, correria, discussões, atrasos, cancelamentos, clima dos mais divertidos quando a gente não vai embarcar.

Voei muito a trabalho, anos e anos, até em aviões de garimpo na Amazônia. Num deles, o piloto me disse: “Por aqui, doutor, instrumento não funciona. Se o sujeito confiar em instrumento, sifu. Quer ver?”. Entardecia e o piloto ajustou os instrumentos para chegar a Cuiabá, que já se avistava ao longe. Foi deixar o voo por conta dos instrumentos e o teco-teco tomou o rumo oposto.

De outra feita, teco-teco para cinco passageiros, a pista era tão curta que o pilotinho decolou com dois heróis, deixou-os numa pista maior e voltou para apanhar nós três. Só da pista maior conseguiu decolar com a lotação completa.

 Com a velha poltrona entronizada num canto da sala vou ficar feliz sabendo que não estou entre os milhões de passageiros que voam todos os dias. A IATA, International Air Transport Association, divulgou relatório em que revela o transporte de 3.129 bilhões de passageiros em voos regulares em 2013. Somando os voos irregulares e os militares, metade da população do planeta anda avoando por aí. E a bicicleta pendurada na área de serviço deve ser garantia de saúde per omnia saecula, saeculorum.


Imagem

Números – Há que tomar cuidado com os números noticiados pela televisão. No primeiro terremoto de Katmandu, Catmandu ou Kathmandu, por exemplo, o noticiário começou com 9,9 na Escala Richter, equivalente a centenas de milhares de bombas atômicas, e foi baixando até 7,8 ou 7,9 na mesma escala.

O Nepal tem uma das maiores densidades demográficas do mundo e centenas de milhares de turistas. Com 9,9 na Richter, naquele trecho do planeta, teria destruído boa parte da Ásia matando centenas de milhões de pessoas além do diretor do Google, coitado, que efetivamente morreu tentando escalar o Everest.

Enquanto isso, nota pequena do Globo informava que um cavalheiro vindo de Angola foi internado em Juiz de Fora, a poucos quarteirões aqui do tugúrio, com suspeita de Ebola. Data: 24 de abril de 2015. Dores de estômago e febre felizmente transformadas em caganeira, substantivo feminino que entrou em nosso idioma no ano de 1562, embora a humanidade cagasse desde sempre, verbo cagar, datado do século XIII, do latim cáco,as,ávi,átum,áre ‘cagar, evacuar o ventre, defecar’.

Escrevo furioso com o Aurélio eletrônico vendido pela paranaense Positivo Informática, presidida pelo senhor Helio Bruck Rotenberg, que me obriga de tempos em tempos a rodar o CD do dicionário para provar que foi comprado por mim e o tenho em domicílio. Ora, bolas, o Houaiss eletrônico também foi comprado e não me pede que insira o CD regularmente.

A Positivo Informática só pode ser do ramo paranaense da senadora petista Gleise Helena Hoffmann e do ex-vice-presidente da Câmara André Vargas (PT-PR). Felizmente, o Paraná tem um Sérgio Moro.


Imagem

Suspeito – Puro latim, o adjetivo e substantivo masculino suspeito foi transformado pela mídia em palavra-ônibus, palavra quase sempre de uso coloquial, cujas acepções são tantas que não comportam delimitação semântica formal (por exemplo:troço, legal, bacana, coisa, negócio).

Vejamos um entre milhares de casos que nos servem nas rádios e nas tevês. Um cavalheiro residente em boa casa na Baixada Fluminense, com jardim e piscina, instalou uma porção de câmeras em seu chatô. Noivo de uma jovem goiana de alevantadas qualidades glúteas, foi filmado por suas próprias câmeras espancando a noiva no jardim, antes de lhe dar diversos tiros que a levaram a óbito, como se diz hoje em dia. Em seguida, o referido cavalheiro foi filmado roubando o carro de um vizinho.

A partir de então, a polícia passou a procurar o suspeito… Ora, bolas, se havia o vídeo do espancamento, dos tiros mortais e do roubo do carro, não seria mais lógico procurar o autor dos crimes, que tem nome, CPF e carteira de identidade?


Imagem

Luzinhas – Através do vidro da janela do quarto, à noite, quando o tempo está limpo, gosto de ver estrelas, a lua, as luzinhas piscantes dos aviões que avoam rumo oeste e um astro que deve ser o planeta Marte. Pois muito bem: em abril instalaram luzinha vermelha, que pisca a intervalos regulares, no alto de um edifício em fase de acabamento. Deve ser exigência aeronáutica para orientar os aviões no fundo de um vale cercado de montanhas de bom tamanho.

É curioso notar que o prédio vizinho, habitado há muitos anos, não tem luzinha piscando. Presumo que os pilotos de helicópteros se orientem pelas luzes das janelas dos prédios, pelas ruas e avenidas, com os seus conhecimentos da região: voam mais devagar, podem parar no ar e têm recursos de manobrabilidade que faltam aos aviões.

Não tenho e nunca tive paranóias persecutórias, mas estou desconfiado de que a luzinha vermelha só foi instalada para me aborrecer, como tem aborrecido. Situação agravada quando este belo suelto já estava pronto e revisado: a luzinha vermelha parou de piscar e o tal prédio vizinho, que não teve luz nos últimos três anos, instalou lâmpada amarelada. Tenho, portanto, a vista de uma luz vermelha acesa que não pisca e de uma amarelada também não piscante. Está salva a pátria educadora.


Imagem

Manias – Não sei se o leitor se lembra do tempo em que tudo estava a nível de. Depois, os operadores de telemarketing adotaram o gerundismo. Vivemos hoje a era do vai que. Vai que dure meses ou anos, até ser substituída por outra mania legal, ou joia, ou falou, que já andaram em voga.

Benfeito é uma de minhas atuais antipatias, pelo seguinte: o som de ben é diferente de bem. Será que o brasileiro já se esqueceu do filme Ben-Hur? Benfeito foi invenção do Acordo Ortográfico do Lula, que Marcia Lobo não adota, no que faz muitíssimo bem. No Brasil e em Portugal a forma da tradição lexicográfica sempre foi bem-feito. Devem ter inventado o benfeito para São Tomé e Príncipe ou para as vênus vulgívagas que os pariram.


Imagem

Esculturas – Pegue mil escultores e dê a cada um grande chapa de ferro. Duvido que algum consiga esculpir peça tão bela, tão inspirada, tão escultural como as obras de Amílcar de Castro, mineiro de Paraisópolis (1920-2002).

O assunto vem à balha por causa das esculturas que tenho visto nas fotos dos jornais. Qualquer imbecil, sem a menor aptidão para esculpir, esculpe, é exposto e sua obra de arte (sic) é fotografada para sair nos jornais.

Ninguém diz nada, todos aceitam a empulhação e têm medo de opinar passando por ignorantes. As “obras de arte” são cada vez mais malucas e menos artísticas. Você deve estar lembrado daquele tubarão metido num tanque de formol, que foi vendido por  milhões de dólares.

Em rigor, o sujeito que pega uma porção de estantes de aço e as distribui “artisticamente” numa exposição não faz mal a ninguém. Comprou e montou cada estante, fez a arrumação que lhe pareceu artística, mas o jornalista que publica a foto da “escultura” no jornal ofende os leitores.

Assunto que me recorda as esculturas do Dr. Fausto Alvim (1900-1995), de quem tive a honra de ser amigo durante anos. Duas de suas esculturas continuam na família depois do meu primeiro divórcio.

Em seus passeios pelas roças, o Dr. Fausto recolhia raízes que transformava em lindas esculturas para presentear seus amigos. Foi prefeito do Araxá durante 10 anos, depois de cena divertida num almoço oferecido pelos araxaenses ao ditador Getúlio Vargas.

Servida a travessa de picadinho com quiabo, quando Getúlio ameaçou servir-se, o jovem Fausto puxou a travessa e “rosnou” para o ditador. Getúlio morreu de rir e tratou de nomear o rapaz prefeito da estação de águas. Durante 10 anos o prefeito sofreu, coitado, porque um amigo dele, muito moleque, espalhou na cidade que os pratos prediletos de Fausto Alvim eram mocotó e dobradinha, alimentos detestáveis. Desde então, sempre que um araxaense oferecia uma refeição ao prefeito era inevitável a dupla de mocotó e dobradinha.

FONTE: Jornal da ImprenÇa.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: