Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

Pé de moleque, Maravilha, Câmeras, Ósculos, Superdose e Encanto

31 de janeiro de 2017 Eduardo Almeida ReisBlog

Pé de moleque – Vejo no Houaiss que pé de moleque não tem hífen, enquanto pé-de-meia, pé-de-burro, pé-de-cabra e outros pés têm. Que se pode esperar de uma reforma ortográfica assinada pelo bandido Luiz Inácio Lula da Silva?

Há vários pés de moleques, a começar pelo horrível calçamento com pedras irregulares de tamanhos diversos, um castigo para os veículos e os pedestres obrigados a transitar por ali. Bolo feito de mandioca, fubá, coco e açúcar, comum no Nordeste, que deve ser horrível, também é pé de moleque. Por fim, o pé de moleque conhecido no país inteiro: doce consistente de açúcar ou rapadura com amendoim torrado.

De a pé, de automóvel e cavalgando já pervaguei, muito mais chique de que percorrer, quilômetros e mais quilômetros no horrível calçamento em pé de moleque, felizmente nunca provei do bolo comum no Norte e cria conhecer o doce, que inclui amendoim torrado, até que outro dia…

Bem, outro dia mereci a visita de um coronel-PM, que não conhecia pessoalmente, portador de alguns pacotes de pé de moleque produzido em Piranguinho, MG, a “Capital Nacional do Pé de Moleque”, enviados por um promotor de Justiça que trabalha em município próximo de Piranguinho, cavalheiro que me foi apresentado em BH na loja de seu irmão.

Senhoras e Senhores do Egrégio Conselho Leitoral: que pé de moleque! Realmente, é alimento diferente de todos os pés de moleque produzidos no resto de Minas e do Brasil. Sendo embora cidadão dulçoroso, cheio de amor para dar, nunca fui grande fã dos alimentos doces, mas o pé de moleque piranguinhense é um caso à parte.

Maravilha – Com a classe de sempre, Cora Rónai comentou assunto que estava na minha pauta há meses: o novo fósforo brasileiro. Sou vítima dos extra longos da Fiat Lux, caixas com 50 fósforos de segurança fabricados pela multinacional Swedish Match do Brasil S.A. com madeira 100% reflorestada.

Até aí, tudo bem. Acontece que os fósforos não acendem. Você risca suavemente seguindo a recomendação da embalagem, ou ferozmente seguindo sua indignação com aquela porcaria da Swedish Match, e o fósforo não acende. Só acende se você utilizar a chama de um isqueiro a gás para animar a cabecinha do fósforo.

Postscriptum: depois de caprichar no suelto retro, abri nova caixa de extra longos e os fósforos estão acendendo. Sem muito entusiasmo, mas acendendo. Fica o registro.

Câmeras – Mesmo em países atrasadíssimos como este vosso, muitos crimes, em diversas cidades, têm sido filmados pelas câmeras de segurança. Nome que é um contrassenso, considerando que as câmeras registram os crimes sem oferecer segurança. De segurança, ainda que relativa, são os coletes à prova de balas, os carros blindados, as cercas eletrificadas, as portas de aço.

Curioso que continuo sendo, fui procurar câmera nos melhores dicionários eletrônicos e todos me dizem que é sinônimo de câmara, do latim camàra/camèra,ae ‘teto abaulado, abóbada, navio coberto’, do grego kamára,as ‘abóbada, quarto abobadado’.

Entre muitos significados, câmara alta é o senado e câmara baixa aquela em que se reúnem os deputados. Neste país grande e bobo todos conhecemos os produtos daquelas câmaras, a alta e a baixa, e o melhor da festa é descobrir no Houaiss que câmaras, substantivo feminino plural, significa diarreia, eliminação frequente de fezes líquidas e abundantes.

Ósculos – Alzheimer é doença terrível porque mata sem matar. Conheço casos de pessoas que “vivem” anos e anos com Alzheimer e posso imaginar o sofrimento dos seus parentes. Dona Leda Nascimento Brito, que estava com Alzheimer desde o final do século passado, morreu agora em Petrópolis. Tinha 95 anos, era viúva do advogado Maneco Nascimento Brito, advogado do Banco do Brasil e diretor do Jornal do Brasil.

Filha da Condessa Pereira Carneiro e enteada do Conde, quase todos os jornalistas que trabalharam no JB falam bem de dona Leda, “uma intelectual que amava o jornalismo”, manchete do Globo na edição de 26 de janeiro.

Peço licença para falar da Condessa. Fui-lhe apresentado três vezes em recepções diversas. Quando informada do meu sobrenome, dona Maurina dizia: “Neste eu preciso dar um beijo”. E me osculava gostosamente a face para espanto dos circunstantes. Motivo: quando solteira namorou parente meu. Releva notar que, na temporada dos beijos, o philosopho andava doido para cronicar no JB. Tímido à beça e à bessa, acanhado prá dedéu, fiquei na vontade.

Superdose – Nem a senhora Luma de Oliveira, nascida em Nova Friburgo, RJ, mãe de Thor e Olin Batista, suportou a overdose de Eike Batista a que foi submetido o telespectador brasileiro na última segunda-feira 30 de janeiro. Todos os telejornais, o dia inteiro, focados no mineiro de Governador Valadares, que já se chamou Santo Antônio da Figueira e dizem que figueira dá azar.

Eike chegando ao aeroporto em Nova York, Eike sentado perto de uma cadeira de engraxate, Eike pendurado ao celular, Eike xingado (pouco), Eike cumprimentado (muito), selfies com Eike, Eike embarcando, Eike sentado na poltrona do avião, Eike tomando remédio, Eike dormindo. Ficou faltando Eike no banheiro do jato da American Airlines: é impossível que um senhor de 60 anos não tenha ido ao banheiro.

Eike descendo (sem algemas) a escada lateral de acesso ao finger do Galeão carregando sua valise e um travesseiro, Eike chegando ao presídio Ary Franco depois de passar pela Linha Amarela, Eike de cabeça raspada e roupa de presidiário chegando a Bangu 9, no Complexo de Gericinó. Camiseta de presidiário é muito mais lógica, muito mais decente, de aspecto muito mais limpo que a camiseta preta em que Eike vinha metido desde Nova York. E a passagem pelo Instituto Médico-Legal, no Rio, citado num romance que cometi há seis anos.

Que graça existe em filmar de um helicóptero, durante mais de uma hora, um carro preto da Polícia Federal, seguido de outro carro preto da Polícia Federal (e um carrinho cinzento, possivelmente de reportagem, aproveitando as sirenes das viaturas policiais) pelas ruas do Rio? Comitiva que saiu do Galeão, passou pela perigosíssima Linha Vermelha, percorreu parte da não menos perigosa Linha Amarela, com direito às passagens pelos estabelecimentos citados, troca de roupa, máquina zero, dezenas de repórteres de cada emissora de tevê, uma delas muito bonita, ruiva, na portaria do Ary Franco.

Escrevo na madrugada de terça-feira 31 de janeiro apavorado com o que me espera na tevê a partir das sete. Na tevê e nos jornais impressos que assino.

Encanto – Que voz, que boca, quis dentes, quis cabelos, quis olhos, que colo, quis braços, que rosto, quis mãos de Heloisa Gomyde, da GloboNews.

 

 

Antelações, Ódio, Ouro, Solução, Ora, a Constituição… e Eike

30 de janeiro de 2017 Eduardo Almeida ReisBlog

Antelações – Mineiro de Caratinga, beirando os 70, Ruy Castro é um raio de luz no planeta crônica. Conhece português, tem informação, humor e não complica as coisas. Foge do hermetismo que virou moda nos jornais, cronistas que procuram produzir quebra-cabeças obrigando eventuais leitores a esforços sobre-humanos para não entender absolutamente nada.

No mesmo planeta, o jornalismo impresso inventou “cronistas” em que só a cor da pele, a antelação sexual ou a celebridade televisiva explicam as despesas com diagramação, papel e tinta.

Aposto que você, caro e preclaro leitor, nunca viu antelação sexual como sinônimo de lesbianismo, viadagem e sexualidades afins. Antelação é sinônimo de preferência, como acabo de aprender. Portanto, em lugar da manjadíssima opção, temos antelação sexual e não se fala mais nisso, salvo se você pensar que é cidadão antelado, adjetivo que significa “provido de antela” e antela é tipo de inflorescência em que os raminhos laterais são mais compridos que o eixo. É uma variedade de tirso, comum nas juncáceas.

Ódio – Vou adiantado na leitura de imenso livro interessante, repleto de fatos verdadeiros, da lavra de escritor alfabetizado. Não lhe digo o nome porque escreve com ódio, ingrediente que tisna os textos. Seus livros, todos eles, são pensados e escritos com ódio. Por isso não merecem menção de um cavalheiro que tem a fortuna de não odiar ninguém, nem mesmo a Búlgara que ajudou o analfaboquirroto a afundas este país.

Ouro – O governo do Pará ultima a concessão ao grupo canadense Belo Son de autorização para explorar, na região da usina de Belo Monte, daquela que será a maior mina de ouro do Brasil. Como sempre, as autorizações esbarram na Funai preocupadíssima com as terras indígenas, preocupação que Trump não teve quando autorizou a construção de um oleoduto atravessando uma reserva Sioux.

Minas de ouro no Brasil envolvem aspectos curiosos. Em 1990, a serviço de um grupo europeu, fui visitar fazenda à venda no Mato Grosso. Acesso por estrada de terra estadual, que partia de estrada federal asfaltada.

Na estrada de chão havia que passar pelo território ocupado por mina de ouro norte-americana. Cês pensam que foi fácil? Os ianques só permitiam a passagem depois de autorizada pela gerência da empresa no Paraná. Você precisava dar o número da placa do carro, os nomes dos passageiros e os números de suas carteiras de identidade. Insisto: estrada estadual.

Viajei com dois amigos, um agrônomo e um técnico agrícola. Quando chegamos à primeira porteira, que impedia a passagem pela estrada estadual, fomos recebidos e conferidos por dois porteiros educados, observados por dois cavalheiros, protegidos atrás de imensos pranchões de madeira, portando armas de grosso calibre, daquelas que o pessoal da tevê gosta de dizer que são de uso exclusivo das Forças Armadas.

A partir dali tivemos tantos minutos para percorrer um trecho de tantos quilômetros, avisados de que não seriam permitidas fotos e filmagens. No percurso, cerca de 40 minutos, circulamos ao lado de imenso lago em que havia uma draga gigantesca, de vários andares, quase do tamanho de um transatlântico, sobrevoada por helicóptero de bom tamanho.

Draga que retirava material do fundo do lago e o depositava nas margens formando “montanhas” de rejeitos. Não sei como funciona a coleta do ouro naquele método, mas me disseram que peneirado, fundido e transformado em barras, era transportado de helicóptero para despachar num jato da empresa em aeroporto próximo. Disseram-me, também, que os governos estadual e federal não faziam a menor ideia da tonelagem exportada.

Não minto nem exagero. A fazenda não interessou ao grupo europeu, mas me proporcionou cena inesquecível na manhã em que sozinho, a pé, fui à margem do imenso Rio Guaporé, silêncio total, mata fechada na margem oposta e um grupo de botos surgiu para conhecer de perto o idiota que procurava fazendas para o grupo europeu.

Solução – Com ou sem pichações, grafiteiros, velocidade maior nas marginais, meios-fios pintados, piscinões e outras providências, São Paulo é um pavor. Se o prefeito João Doria Júnior sonha mesmo com uma Cidade Linda, a solução é simples: mudar-se para o Rio, Budapeste, Paris, São Petersburgo, São Francisco, Londres, Lisboa, um monte de cidades. São Paulo e Nova Iguaçu são irremediáveis.

Ora, a Constituição… – Por qualquer motivo e até sem motivo algum, um sem conto de patrícios evoca nossa Constituição como se fosse o conjunto das leis fundamentais escritas por Deus, quando é o produto, versão 1988, de um parlamento que todos conhecemos. Carta Magna sujeita a interpretações, fatiamentos e trambiques, como vimos no impeachment da Búlgara, que continua solta e fagueira. Adjetivo fagueiro só no sentido figurado “muito alegre, satisfeito, contente”, que na acepção “meigo, carinhoso, suave” a Búlgara jamais se enquadrou.

Tive como professor de Direito Constitucional um dos mais famosos constitucionalistas brasileiros, que só nos ensinou cinco dos 60 capítulos previstos. Jamais faltou a uma aula matinal, mas passava o tempo todo rodando um anel no dedo mindinho direito e falando de sua família sem remontar ao padre católico que iniciou o afamanado clã.

Nos moldes em que tem procurado funcionar, o Supremo Tribunal Federal é inviável. Por maior e melhor que seja a equipe de um ministro, ele não tem condições de julgar milhares de processos. Terori Zavascki, só ele, deixou 7.500 processos, enquanto a Suprema Corte dos Estados Unidos, toda ela, julga 200 por ano.

E tem mais uma coisa: para chegar ao Supremo o ministro é sabatinado pelo Senado Federal. Dá para acreditar numa sabatina do Senado de Collor, Renan, Lindenberg, Vanessa, Gleisi, Randolphe e do ascoroso petista Humberto Costa, que deveria ser impedido de abrir a boca?

Eike – Que os deuses me perdoem e só na Índia há mais que 30 milhões deles, mas noto certa alegria, mistura de desforra com maldade, nas notícias sobre a prisão do Sr. Eike Fuhrken Batista da Silva. Nunca sei como escrever Fuhrken e sempre me esqueço do Silva. Realmente, Fuhrken e Silva são sobrenomes que se chocam. E tem mais uma coisa: bilionário, ex-bilionário, remediado ou pobre, homem que usa camiseta preta merece cadeia.

Com pureza d’alma informo que as prisões de um Eike, de um Sérgio Cabral, me entristecem, mesmo sabendo que o ex-governador do Rio cometeu o crime inqualificável de abandonar sua primeira mulher, Suzana Neves Cabral, dos Neves mineiros, mãe de três dos seus filhos, gordalhufa e caminhada em anos.

 

 

Ambão, Avoando, Muro, Fato e Idiotice

30 de janeiro de 2017 Eduardo Almeida ReisBlog

Ambão – Como pode alguém chegar a uma idade mais que provecta sem conhecer o substantivo ambão? Devo confessar que cheguei à referida idade e não o conhecia. Que me lembre, andei próximo de ambão no dia em que ouvi uma tia portuguesa perguntar ao seu marido e senhor: “Vamos ambinhos ao cinema?”. Desde então, o apelido familial da obesa senhora foi Ambinhos.

Lendo ambão no texto caprichado de um confrade, corri ao Houaiss sem sucesso, mas o Aurélio tem: “Tablado pequeno, comum nas primitivas igrejas cristãs, utilizado para prédicas, cantos litúrgicos etc., e que, no séc. XIV, foi substituído pelo púlpito”.

Século XIV, salvo melhor juízo, foi o décimo quarto século da era cristã, quando ambão foi substituído pelo púlpito, do latim pulpitum/i “palco, tablado”.

Avoando – Memórias instigantes: aos 25 anos o sujeito se julga imortal. Acabo de constatar essa tolice diante de um vídeo de propaganda da Boeing “Como se faz um avião” e da notícia do acidente que matou o ministro Zavascki. Lembrei-me de uma passagem no Aeroporto de Carlos Prates, localizado no centro de uma porção de bairros belo-horizontinos, no dia em que, sentado na cadeira de copiloto, participei de uma aterrissagem na pequena pista.

Aeronave conduzida por um patrão que gostava de pilotar e sempre conseguia renovar seu brevê por ser formado em Medicina, profissão que nunca exerceu.

Quando nos aproximamos da pista notei que dezenas de pessoas saíam dos hangares correndo para a faixa de pouso. Depois, me disseram que, na velocidade em que nos aproximávamos, pretendiam ver em que bairro iríamos parar.

O piloto declarou: “Acho que não vai dar para pousar” e o copiloto, na flor dos seus 25 aninhos: “Arremete Luciano”. Foi o que fez o médico Antônio Luciano Pereira Filho, perguntando: “Que foi que houve?”.

Do alto de minha ignorância aviatória, arrisquei: “Acho que você se esqueceu de baixar os flaps”. E ele, confirmando o fato: “Ué? É mesmo… Eu sou um homem muito ocupado”. Fez a volta, baixou os flaps e pousou que foi uma beleza.

Muro – Com mais de 15 metros de altura, o muro da casa de Eike Batista, no Rio, impede que os passantes vejam a qualidade e o tamanho da mansão filmada pelos helicópteros das emissoras de tevê.

Residência muito confortável e compatível com o cavalheiro que pretendeu alcançar o posto de homem mais rico do mundo, quando andaria pelo oitavo lugar. Os critérios da Forbes são discutíveis, mas a turma que aparece nos primeiros lugares do ranking tem dinheiro para comprar “o pão e uma pouca de manteiga para lhe barrar por cima”. Frase de um personagem do Eça, mas o incrível Google apresenta quatro resultados tirados de textos aqui do degas.

Forbes, Eike, bilionários, tudo pode ser explicado, menos a genialidade do Google. Ainda hoje, sem conseguir encontrar nas estantes um livro sobre o exterior dos animais domésticos, recorri ao Google para descrever as pernas de uma vaca.

Sim, as pernas de uma vaca para saber o nome daquele trecho que nos humanos aceita tornozeleiras eletrônicas. Na pecuária leiteira moderna as vacas usam sensores eletrônicos numa perna e coleira eletrônica holandesa, invenção recentíssima, nos respectivos pescoços. Através dos sinais que recebem no escritório da fazenda os técnicos sabem se a vaca está comendo, está descansando, sabem até se está entrando no cio para providenciar inseminação artificial na hora certa. Veterinários e técnicos em informática de plantão 24 horas por dia, sem exclusão dos domingos e feriados. E você tem a coragem de achar caro o leite vendido no supermercado.

Fato – Eugênio Ferraz, mineiro de São Lourenço, desligou-se da Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais. Era a única repartição pública que funcionava no Brasil. A única. Graças à competência, à retidão, ao dinamismo de Eugênio Ferraz.

Idiotice – Entre as muitas definições de marketing encontradas nos dicionários, a que melhor se aplica à administração de João Doria Júnior, como prefeito de São Paulo, é: conjunto de ações, estrategicamente formuladas, que visam influenciar o público quanto a determinada ideia, instituição, marca, pessoa, produto, serviço etc.

O novo prefeito pretende influenciar o público paulistano com um monte de exibições idiotas, a primeira das quais foi vestir-se de gari empunhando uma vassoura para aparecer na tevê. Vestir-se, junto com o seu secretariado, de fiscal de trânsito, com aquelas faixas amareladas sobre as roupas normais, foi outra cretinice. Ainda bem que a capital de São Paulo não tem praias de nudismo.

Multar os secretários municipais que cheguem atrasados às reuniões, com aquele trânsito sempre engarrafado, chega a ser increditável. Vestir-se de jardineiro para cortar a grama na Estação da Luz é coisa de maluco.

Empresário vitorioso, cidadão muito rico, é justo e compreensível que o filho de João Doria sonhe com o governo de São Paulo e com a presidência da República. Sua estratégia de marketing, contudo, pode dar com os burros n’água ou nas enchentes paulistanas, que infelicitam centenas de milhares munícipes enquanto sua excelência aplica tinta cinzenta sobre os grafites da cidade que o elegeu.

 

 

Besteirol, Clínica, Foco, Sábio e The End

26 de janeiro de 2017 Eduardo Almeida ReisBlog

Besteirol – Com inveja do besteirol do jornalismo impresso, o televisivo luta pelo pódio da imbecilidade ao insistir no “obrigado(a) pelas suas informações”, quando basta um “obrigado(a)”, sem as suas informações, como também basta o ascoroso “bom trabalho”, coisa de periferia da ralé.

Bom descanso e bom trabalho são locuções típicas de gente da pior extração, portanto incompatíveis com jornalistas que alcançam nossos televisores. Os mesmíssimos idiotas que insistem no verbo prestigiar para dizer que Fulano e Fulana compareceram, assistiram, participaram, estiveram, foram a determinado evento.

Prestigiar é “conferir prestígio a algo ou alguém”, é “valorizar, com sua presença, alguém ou algum evento”. Dia desses, escreveram que o Sr. William Bonner prestigiou o espetáculo em que uma de suas filhas dançou com sua ex, a televisiva Fátima Bernardes.

Não seria mais simples dizer que Bonner presenciou o espetáculo dançante da filha com a mãe? Compareceu, assistiu, esteve na plateia? Mas há imbecilidade maior. Dia 20 de dezembro, pela hora do almoço, a apresentadora da Band, exibindo o filme do assassinato do embaixador da Rússia na Turquia, disse que o diplomata discursava numa galeria de arte quando foi abatido a tiros pelo “suspeito”, um policial turco de 22 anos. Ora, o “suspeito” foi filmado e fotografado pouco atrás do embaixador, bem como na hora em que retirou a pistola do coldre e começou a atirar matando o russo.

Suspeito? Suspeito de quê? Só matando a tiros o locutor que narra daquele jeito. Gritei “Puta que pariu!” e desliguei o televisor, assustando a comadre que fritava a batata do meu almoço e veio correndo da cozinha sem entender absolutamente nada.

Enquanto ao mais, vale recordar o que disse um dos sobreviventes do desastre com o avião da LaMia, ao retornar a sua casa em Chapecó falando da emoção de reencontrar “minha mulher, meu cachorro e minha mãe”. Cachorro ensanduichado entre a mulher e a mãe.

Clínica – Se existem clínicas para reabilitação de viciados em álcool e noutras drogas, não dá para entender que inexistam centros de reabilitação dos viciados na produção de leite, uma espécie de LA, Leiteiros Anônimos, em que o viciado se convença de que, sem deixar de ser viciado, está em permanente tratamento contra recaídas.

Operosos fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego – como se existisse, fora do Brasil, emprego sem trabalho – têm ajudado na extinção do trabalho rural. Basta dizer que insistem na fiscalização das fazendas para inventar situações de exploração laboral e das já famosas “condições análogas à escravidão”, pesando os balaios transportados pelos funcionários para ver se excedem não sei quantos quilos. Em rigor, isso implicar encher o balaio numa balança de precisão até ao limite do peso estabelecido pela fiscalização. Nos casos em que os trabalhadores solteiros moram nas fazendas é sabido que os fiscais exigem lençóis trocados diariamente, providência que os fazendeiros e suas famílias não adotam nas sedes das empresas rurais.

Carteira assinada é outra exigência, salvo no caso de um trabalhador que conheço pessoalmente e se recusa a trabalhar de carteira assinada pelo seguinte: pai de vários filhos de outras uniões estáveis ficaria sem um tostão se trabalhasse de carteira assinada, tantas são as pensões que seria obrigado a descontar. Assim, o operoso brasileiro embolsa dois salários mínimos mensais, tem casa, luz de graça, horta e pomar. Não faz muito tempo, constatei que sua filhinha, com a mulher atual, transporta um smartphone de última geração.

Foco – Imigrante italiano enriquecido nas lavouras de café sobrevoava as imensas plantações e descia do avião criticando seus gerentes: “Vocês ficam preocupados com a pulga e se esquecem do elefante”. Porteiras pintadas e outras tolices eram as pulgas, enquanto a capina atrasada representava o elefante”.

No episódio do helicóptero oficial do governo de Minas apanhando um filho do governador em Escarpas do Lago, a pulga é a aeronave de asas rotativas, enquanto o elefante é a forma através da qual Fernando Damata Pimentel chegou ao governo do estado. Tudo relatado, jurado e sacramentado por seu amigo e colaborador, o delator Bené. O governador decretou situação de emergência em 153 municípios mineiros por conta da febre amarela, enquanto seu governo resulta da febre vermelha. Em emergência estão os 853 municípios mineiros desde que Pimentel assumiu o governo.

Nada tenho contra ele. Não nos conhecíamos pessoalmente, até que numa festa em Conceição do Mato Dentro, o então prefeito de BH, quando me viu na calçada conversando com um amigo, afastou-se da mulher e dos filhos para vir de lá, descendo sobre a grama inclinada de pequeno jardim, exclusivamente para me cumprimentar.

Sábio – Mais que constitucionalista, o ministro Ives Gandra Martins Filho, presidente do TST e forte candidato à vaga de Teori Zavascki no STF, é um sábio. Celibatário por inspiração divina, escreveu o seguinte: “A mulher deve obedecer e ser submissa ao marido”; “O casamento de dois homens ou duas mulheres é tão antinatural quanto uma mulher casar com um cachorro”; “Casais homoafetivos não devem ter os mesmos direitos dos heterossexuais; isso deturpa o conceito de família”.

O Supremo Tribunal Federal não pode ter ministros e ministras que só pensam em sexo, sob pena de se transformar em STS, Supremo Tribunal Sexual. O celibato, com a só condição de ter sido recomendado por Deus, é tão natural quanto o fato de a mulher obedecer e ser submissa ao marido, não fosse o marido o Deus do lar. O resto é piu-piu, já dizia Ibrahim Sued, meu contemporâneo na redação de O Globo.

The End – E o Eike, hein? Que tristeza… Que país…

 

 

Academia, Orgânicos, Flagrante e The Wall

25 de janeiro de 2017 Eduardo Almeida ReisBlog

Academia – Do grego Akadêmeia ou Académía,as “jardim de Academo (herói ateniense) no qual Platão ensinava filosofia”, o substantivo feminino academia tem uma porção de significados, entre os quais “local onde se faz ginástica”. Não raras vezes telefono para um amigo sério e fico sabendo que o patrício foi para a academia logo depois do café da manhã. Ginástica faz bem à saúde.

Na acepção 6.1 do Houaiss eletrônico academia é sinônimo de Academia Brasileira de Letras. O ínclito sodalício, do latim sodalicìum ou sodalitìum,ii “amizade íntima, comércio entre amigos, confraria”, elege seus acadêmicos, que podem ser homens, mulheres e diversos, pois a moda é a diversidade. Tenho o livro “Os Onze Sexos”, escrito por um psiquiatra no tempo em que só havia onze. Ouço falarem, agora, do verbo sexualizar em 72 formas e há jornais impressos, tradicionais, imprimindo cadernos coloridos nos quais só muito raramente encontramos casais daqueles antigos, de homem com mulher, ambos os dois heterossexuais.

Daí a pergunta que faço ao leitor: como explicar a existência de academias femininas de letras? Se uma rua, um bairro, uma cidade conta com um sodalício do tipo Academia Dois-Correguense de Letras, no município de Dois Córregos, SP, a Capital Nacional da Poesia, que é também a Capital Nacional da Macadâmia e tem cerca de 25 mil habitantes, que motivo haveria para a fundação de uma Academia Dois-Correguense Feminina de Letras?

E tem mais uma coisa: numa academia, qual é a graça de formar grupos que se hostilizam e se odeiam? Num sodalício de 40 membros, entende-se que cada um tenha simpatia por alguns confrades e desgoste de alguns outros. Daí a bombardear os “inimigos” com cartas, futricas e processos judiciais vai uma distância que não consigo entender.

Orgânicos – Do tanto que já escrevi sobre a onda orgânica, amáveis leitoras vêm de me repassar estudos científicos desmascarando a picaretagem.

A imbecilidade, qualidade ou condição de imbecil, do latim imbecillìtas,átis “fraqueza, debilidade”, é orgânica, o que explica a mania de alimentos orgânicos de tanta gente boba e desorientada.

No crime da margarina a explicação está no poder da propaganda das indústrias, que não se acanham de espalhar uma porção de corações vermelhinhos em seus comerciais, dando a entender que aquela merda faz bem ao coração do consumidor.

Num dia você ouve na rádio Band, como ouvi, famoso cozinheiro de família húngara dizer que “margarina não se usa na cozinha”. Meses depois, na tevê, o mesmíssimo cozinheiro aparece fazendo a propaganda de determinada margarina. O mestre-cuca, coitado, deve ter filhos para educar, automóveis para abastecer, e o cachê da propaganda mentirosa engorda sua conta bancária.

Com a onda orgânica a empulhação é diferente, deve ser um apelo espiritual como as toalhinhas com o suor daquele pastor, perdão, apóstolo Valdemiro, rompido com os bispos Macedo e Crivella, cavalheiro que transpira muito, usa toalhinhas de pano para secar o suor e as vareja para a multidão de crentes. Aqueles que têm a ventura de apanhar uma toalhinha suada estarão curados de todos os seus males: basta passar a toalhinha. E a cura total virá num jantar de asa de frango crocante na margarina. De pé de frango não pode, porque milhares de toneladas são exportadas para a China com as credenciais de manjar dos deuses. Já pensaram num pé de frango orgânico?

No estudo que recebi, “Realmente a comida orgânica é um desperdício de dinheiro”, a tradução do inglês resultou: “Há blogueiros que promovem ‘vida saudável’ dizendo que a comida orgânica pode emagrecer, deixá-lo supersaudável ou até curar o seu câncer. Só há um probleminha: essas alegações são em grande parte bobagens.

O canal de ciências “ASAP science” resumiu pesquisas recentes – e muitas sugerem que, apesar de absurdamente cara, a comida orgânica não lhe fará bem e em alguns casos pode até fazer que você adoeça. É desnorteador, diz “ASAP science”. Muitos consumidores imaginam que fazendas orgânicas não usam pesticidas. Mas os fazendeiros orgânicos ainda podem usar pesticidas, desde que não sejam produtos de fabricação sintética, mas alguns pesticidas naturais são um risco maior para a saúde e o meio ambiente que os sintéticos. Natural nem sempre quer dizer melhor.

Há também pouca evidência de que a comida orgânica seja realmente melhor para você – embora seja em média 47% mais cara de acordo com a revista CONSUMER REPORTS. Um estudo de Stanford de 2012 analisou 237 estudos de alimentos orgânicos e mostrou que, em sua maioria, “não são mais nutritivos que os alimentos da agricultura tradicional”.

“Não há muita diferença entre os alimentos orgânicos e os tradicionais se você for um adulto que decide tomar a decisão baseado somente em sua saúde” disse Dena M. Bravata, de Stanford”.

Impende notar que a Stanford University não fica em Nova Iguaçu, RJ, mas em Palo Alto, Califórnia. Em países como a Bolívia, Cuba, Chile, México e o Uruguai “palo” é sinônimo vulgar de pênis, diz o dicionário da Real Academia Espanhola, numa porção de lugares é coito, mas sou cavalheiro sério e os significados distintos de Palo Alto são tantos, que não caberiam aqui.

Flagrante – Alta, loura, gorda, feia, casada, a vereadora Luciana Beatriz Lopes Kubiaki (PSD), eleita pelo povo de Guaíba, RS, foi presa pelo furto de produtos destinados a instituições de caridade. Mais de mil rolos de papel higiênico Fofinho, 200 quilos de carne, artigos para escritório, Luciana surripiava tudo que passava ao seu alcance. Em termos financeiros, uma ninharia diante do que roubam parlamentares estaduais e federais. Não todos, é verdade, mas alguns muitos deles.

The Wall – Se a história do muro na fronteira mexicana for verdade, Donald J. Trump se transforma em caso psiquiátrico gravíssimo. Tiro meu time de campo.

 

 

Aplicativos, Jacta est alea, Pôster e Cubanas

24 de janeiro de 2017 Eduardo Almeida ReisBlog

Aplicativos – Aplicativo entrou como adjetivo em nosso idioma no ano de 1619, o mesmo que aplicável. Como substantivo na rubrica informática, é muito recente: “programa de computador concebido para processar dados eletronicamente, facilitando e reduzindo o tempo de execução de uma tarefa pelo usuário”.

Em 2017, o planeta não dá um passo que não seja orientado por um aplicativo. Foi o que aprendi na revista O Globo, edição de domingo 22 de janeiro último. Na hipótese de o claro e preclaro leitor não ter lido a revista, informo que existem apps para públicos específicos, como por exemplo: Growir, voltado para gays tipo “ursão”, que geralmente têm barba e são peludos.

O Feeld é para quem deseja encontrar parceiros e parceiras para um ménage à trois e o JSwipe o maior aplicativo para a comunidade judaica, mas há outros como o JCrush.

No Single Parent Meet pais e mães têm um ponto de encontro. O Fresh só aceita que os utentes usem selfies sem filtros em seus perfis, fotos que devem ser renovadas a cada 24 horas. No Bumble somente as mulheres podem tomar a iniciativa de uma conversa quando estão em um match com um homem.

O Our Time promove encontros entre quem tem mais de 50 anos e o High There é aplicativo de encontros que tem como base a preferência das pessoas pelo uso da maconha, maneira elegante de classificar maconheiros.

No Meu Patrocínio o app se propõe a juntar sugar babies e sugar daddies, mulheres jovens em busca de homens mais velhos para sustentá-las. O Divino Amor é app de encontros para homens e mulheres evangélicos, enquanto o Luxy é exclusivo para milionários. Farmers Match é plataforma exclusiva para fazendeiros e Amor de Peso para pessoas que estão acima do peso.

Match em zulu é nomdlalo, enquanto em português significa partida, quando falamos de futebol. Como aplicativo, a melhor tradução é pouca vergonha, ou falta de vergonha na cara. Tenho dito.

Jacta est alea – “O dado está lançado”, isto é, “a sorte está lançada”, pensa o blogueiro logo depois de publicar sua opinião no blogue. Segundo Suetônio foram as palavras que Júlio César teria pronunciado ao transpor com suas tropas, em 49 a.C., o rio Rubicão, contrariando ordens do Senado. Plutarco discorda de Suetônio afirmando que na transposição do rio César teria pronunciado “Lance-se o dado” em grego, frase do comediógrafo Menandro (342 a.C.-291 a.C.).

Todo mundo escreve “Alea jacta est”, mas Paulo Rónai, que conhecia latim muito mais que todo mundo, conta a história das palavras que teriam sido ditas por César depois de transpor o Rubicão. Fatos ocorridos naquele tempo, sem câmeras, gravadores e repórteres da GloboNews, não passam de suposições buriladas pelo passar dos séculos.

Menandro, citado por tabela, era um craque. Trezentos anos antes de Cristo já dizia, obviamente em grego: “É sempre no ano que vem que o fazendeiro vai ficar rico”. Desde então, milhões de pessoas sonharam e continuam sonhando com a safra do ano que vem.

Pôster – O titular da Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Rio Grande do Norte é o delegado de Polícia Civil paraibano Wallber Virgolino da Silva Ferreira. Wall em inglês significa parede. Pois muito bem: na parede do seu escritório na Secretaria, o ilustre secretário tem imenso pôster com a foto do senhor Virgulino Ferreira da Silva (1898-1938), o Rei do Cangaço, nacionalmente conhecido como Lampião.

Tio deste menino Fernando Henrique, que foi presidente do Brasil, o bancário Joaquim Ignácio Cardoso, homem de bem, era comunista. Levou para o seu departamento no Banco do Brasil um monte de funcionários comunistas. Um deles, cearense, me contou que durante comício no Nordeste começou um tiroteio e todos se jogaram no piso do palanque. Uma jovem perguntou-lhe: “É o cangaço?”. E ele: “É o cagaço!”. Etimologia (cagar + -aço), ‘grande medo, pavor, susto’.

Cubanas – George Vidor, jornalista confiável, contou de sua viagem quando convidado pela Cubana de Aviación para o voo inaugural Rio-Havana. Pelo café da manhã do primeiro dia no Hotel Nacional (antigo Hilton, expropriado pela revolução), um jovem pergunta em voz baixa se George vai comer a fatia de presunto que ficara sobre o prato. Se não, pede que embrulhe a fatia discretamente no guardanapo de papel, pois eram vigiados por alguém junto à porta do “comedor”.

Todos os dias, depois do banho, pegava o sabonete usado e entregava para a ascensorista, a pedido da moça, antes que a camareira fizesse o mesmo pedido, privando a ascensorista do valioso presente. Então, o jornalista deu à ascensorista uma nota de cinco dólares (que estava ao par do real), agradecida com copiosos beijinhos na face. Dias antes, perto do hotel, uma enfermeira suplicou ao jornalista que lhe comprasse uma lata de óleo de cozinha.

Pois é, o paraíso existe. Tanto assim que jovem industrial mineiro, atleta, rico, foi passar sua lua de mel num hotel de turismo em Cuba. Mesmo em lua de mel, atletas fazem cooper matinal. Correndo, o mineiro foi alcançado por um cubano que lhe oferecia, por 50 dólares, sexo com uma jovem “ainda sem tetas”. O depoimento de Vidor saiu no Globo, edição de 5 de dezembro de 2016. A oferta de jovem ainda sem tetas me foi contada pelo pai do atleta mineiro.

 

Corais, Semana, Inventários, Impaludismo e Alerta

23 de janeiro de 2017 Eduardo Almeida ReisBlog

Corais – Era de ver-se a alegria dos membros do Tabernáculo Mórmon na cerimônia de posse de Donald J. Trump. Grupos corais esbanjam alegria num fenômeno que ainda não consegui entender. Todo coro, que não seja aquele do Mosteiro de São Bento, no Rio, é pura alegria. O canto gregoriano é bonito, mas a vida monástica contraria a natureza. Monacal, monastical, mongil ou monjal é vida incompatível com a alegria que exige sexo em todas as suas formas de expressão, que devem somar 72 como li em algum lugar.

O Tabernáculo Mórmon, da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que permite ou permitia a união de um homem com várias mulheres, reflete em sua alegria o prazer do macho de contar com o adjutório doméstico de várias santas, de mesmo passo em que a fêmea da espécie, risonha e franca, demonstra a felicidade de dividir com outras santas a dura missão de suportar um macho roncador e peidorreiro. Tem no Houaiss e está em nosso idioma desde 1789: “Diz-se de ou homem que peida muito”.

Semana – O noticiário da semana passada dividiu-se entre a posse de Trump, a morte do ministro Zavascki e a Penitenciária de Alcaçuz, a 15 quilômetros de Natal, capital do Rio Grande do Norte. Alcaçuz é problema insolúvel, bem como o passamento do ministro do STF, mas a posse de Trump resultou de um negócio chamado eleição, escolha por sufrágio de alguém para ocupar um cargo, um posto ou desempenhar determinada função, palavra que vem do latim electio,ônis.

Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, constatou que o brasileiro não sabe votar, fato confirmado por um sem conto de eleições em todos os tempos. Não só as presidenciais, como as eleições para vereadores, prefeitos, deputados estaduais e federais, senadores, ministros ou conselheiros dos Tribunais de Contas, são raríssimas as escolhas certas. Que se pode esperar de um povo que elege e reelege Dilma Rousseff?

Dir-se-á que os eleitores são analfabetos, mas a falta de instrução não é a única responsável pelos resultados das eleições. Membros de Academias como a Academia Mineira de Letras, situada na Rua da Bahia, em Belo Horizonte, normalmente constituem a nata intelectual de uma sociedade. Em 1955, minha eleição para o egrégio sodalício só fez comprovar que os intelectuais também não sabem votar.

O fato de Hillary Clinton ter tido mais votos que Donald Trump, eleito pelo complexo sistema norte-americano, mostrou que os dois escolhidos pelos respectivos partidos eram grossas porcarias. Fazer o quê?

A cerimônia de posse do 45º presidente dos Estados Unidos foi abençoada por uma porção de religiosos, cardeal católico, rabino, pastores, Tabernáculo Mórmon e a beleza estonteante da nova primeira-dama Melania Knauss-Trump, nascida Melanija Knavs em Novo Mesto, Eslovênia, no dia 26 de abril de 1970.

Bênção completa, no meu entendimento de philosopho, exigiria o abendiçoar in loco do bispo Edir Macedo, que tem um sem conto de dizimistas nos Estados Unidos da América.

Inventários – Família de classe média alta na Ipanema de 1930, o irmão do Dr. Alberto completou 18 anos, arranjou dois empregos, trabalhou 16 horas por dia durante seis meses, investiu o dinheiro dos salários em material de pesca, reuniu seus pais e muitos irmãos para anunciar: “Vou pescar”. Partiu para Angra dos Reis, fez barracão modesto e passou a viver dos peixes que fisgava. Sujeito alegre, divertido, inteligente, foi adotado pelos milionários que frequentavam Angra, passeava (e pescava) em seus iates, jantava e bebia nas melhores residências. Já naquele tempo Angra começou a ter melhores residências, que hoje passam de 300. Conheço uma porção de gente que se diz proprietária da melhor casa de Angra.

Quando morreram seus pais, o pescador herdou dois belos apartamentos em Ipanema. Procurado pelo Dr. Alberto, que me contou o caso, o irmão disse que não queria os imóveis nem iria ao Rio para transferir a herança aos irmãos. Um tabelião foi a Angra com a papelada, ele assinou a desistência e continuou tocando sua vida até passar desta para a pior.
Com exceção do irmão do Dr. Alberto, inventário de gente rica ou remediada costuma dar um bololô dos diabos. Matéria de página inteira do Globo, edição de 19 de janeiro, nos conta da confusão aprontada no inventário de Maria Cecília e seu marido Paulo Fontainha Geyer, filha e genro do Dr. Alberto Soares de Sampaio, meu quase vizinho de fazenda nas Serras Fluminenses.

Ao longo de quatro anos frequentei com alguma regularidade os jantares dos sábados na fazenda do Dr. Sampaio, ficamos amigos, ele já tinha parado de beber mas sempre me servia vinhos excelentíssimos da imensa adega de sua imensa casa. Jantares para cinco pessoas com direito a garçom e mordomo. Aí é que está o segredo de uma refeição supimpa: não basta o garçom, é indispensável o mordomo.

Os cinco eram o casal dono da fazenda, o casal da fazendinha próxima e o decorador português antissalazarista, magro, de gravata e colete, cravo na lapela, cuja única função na vida era redecorar a sede da fazenda orientado pela senhora Soares de Sampaio. Segundo me contou, passava o resto da semana em Copacabana a jogar peteca.

Fiz matéria para o Globo sobre a floresta que estava sendo plantada, dois hectares de cada essência florestal. No mesmo dia em que a matéria foi publicada o Dr. Sampaio recebeu telefonema de Belém, no Pará, prometendo a remessa de sementes de uma árvore que faltava em sua plantação.

Um engenheiro florestal, depois de percorrer a pé toda a área plantada, exagerou: “Aprendi mais aqui do que em todo o meu curso”. E agora vejo que o inventário dos bens do casal foi transformado em caso de polícia, cofres arrombados, filha deserdada, sumiço de várias peças doadas ao Museu Imperial de Petrópolis – uma tristeza que não tem mais tamanho.

Impaludismo – Sobrevivente de onze malárias, uma delas “maligna” como se as outras fossem benignas, li muito sobre o assunto. Num livro em espanhol o texto começava na capa informando: “Por ser, todavia, a enfermidade que mais mata no mundo tropical”. Traduzi agora, porque foi livro que devolvi ao dono e me daria muito trabalho escrever no idioma cervantesco, mas o “todavía” lá estava porque não há texto na língua de Cervantes sem o advérbio “todavía”, que no Brasil é conjunção coordenativa, di-lo Houaiss.

Temos agora a notícia de alguns casos de malárias em Diamantina, MG, e só o idoso philosopho pode explicar o fenômeno. O Arraial do Tejuco, cidade Diamantina, sempre foi região de garimpo, profissão de muitos dos meus ancestrais pela via materna. É natural que a região ainda atraia garimpeiros vindos da Amazônia e adjacências, onde há malária à beça e à bessa. Foram eles que levaram para Diamantina os plasmódios, designação comum aos seres unicelulares do gênero Plasmodium, do filo dos apicomplexos, que reúne espécies parasitas intracelulares das células intestinais e sanguíneas, incluindo o agente causador da malária. Que se pode esperar, todavia, do filo dos apicomplexos?

Alerta – Desemprego, febre amarela, dengue, zika, Odebrecht, PCC, Comando Vermelho, Família do Norte, chikungunya, balas perdidas, homicídios, estupros, sequestros e a imprensa brasileira preocupadíssima com o Trump.

.

FONTE: philosopho.com.br



%d blogueiros gostam disto: