Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

Tradicional e atual aos 69 anos de vida.
Reportagens e artigos técnicos de extrema relevância para o produtor e para o profissional do campo.

Bezerros e eucaliptos

 

Por defender, com pureza de alma, as coisas em que acreditava, perdi a conta das brigas que comprei nos últimos 40 anos. Só na revista A Granja, em março passado, inteirei 28 anos de colaboração mensal regular – e duas dúzias de brigas com leitores e instituições que não concordavam com as minhas idéias. Devo ter errado muitas vezes e acertado outras tantas, com uma única certeza: a de ter agido, sempre, de boa-fé.

Com o passar dos anos, contudo, o sujeito vai ficando ranzinza e tem que puxar o freio de mão, sob pena de fazer uma porção de inimigos. Bom mesmo é fazer amigos – e disso não posso me queixar. Através da imprensa, bem como dos livros que publiquei, fiz um caminhão de amigos. Quando um deles, que nos deixou há três meses, assumiu posto importante no Ministério da Agricultura, publiquei n’A Granja uma crônica em que previa o sucesso de sua administração. Em Brasília, um cavalheiro perguntou ao nomeado: “Quanto foi que você pagou ao cara? Ele vive esculhambando todo mundo…”

Pois é: imprensa que não seja chapa-branca sempre foi malvista pelos poderosos. Ainda outro dia, João Ubaldo dizia que levou séculos para ter a coragem de escrever o substantivo esculhambação, tido como chulo no Aurélio. Mas é a tal coisa: alguém conhece palavra melhor para definir a situação reinante no Brasil?

Voltando à vaca-fria, o título desta crônica engloba dois assuntos que passei a evitar, para não me aborrecer: críticas ao eucalipto e elogios à criação de bezerros em gaiolas individuais. Sempre que vejo alguém criticando esta bênção dos céus chamada eucalipto, vou saindo de mansinho. Se o sujeito, até hoje, não entendeu a importância dos arbustos e árvores do gênero Eucalyptus, que reúne cerca de 600 spp. e vários híbridos, é porque ainda acredita em assombração, mula-sem-cabeça, criacionismo e na Terra como centro do universo.

O mesmo se aplica, no meu modesto entendimento, aos que insistem na criação de bezerros em gaiolas individuais, presos pelo pescoço como se fossem cachorros bravos, dependendo de água e ração fornecidos, a intervalos regulares, por funcionários de salário mínimo. O método é patético, para não dizer coisa pior.

E assim chegamos às 359 palavras de um texto que pede 800: ou escrevo sobre eucaliptos e bezerros e me indisponho com uma porção de gente, ou saio de mansinho e completo a crônica de hoje com uma novidade que retirei do noticiário jornalístico.

Sou fã dos artigos do biólogo Fernando Reinach publicados no Estadão. Parece que o rapaz, professor universitário, é dirigente da área ambiental do Grupo Votorantim. Andei procurando livros seus para comprar, até hoje sem sucesso, mas recortei e guardo vários de seus artigos.

Dia desses, Reinach escreveu sobre a Finlândia. Desde 1749, a Igreja Luterana anota meticulosamente, em seus livros, nascimentos, casamentos e mortes dos finlandeses: “Um dos resultados obtidos recentemente é intrigante”, diz o biólogo. E acrescenta: “Comparando a história de vida de pares de gêmeos em que os dois filhos eram do mesmo sexo, com pares em que os filhos eram de sexos diferentes, os cientistas descobriram que meninas que dividiram o útero com irmãos do sexo masculino têm menor sucesso reprodutivo”.

Homessa! A ciência precisou recorrer aos números e às tabelas da Igreja Luterana finlandesa para descobrir um fenômeno que até o gato lá de casa, há séculos, está careca de saber: a esterilidade da fêmea bovina gêmea fraterna de um macho. Em inglês chama-se free-martin. Quando estudei o assunto, só pequena percentagem de gêmeas fraternas de machos não seria maninha. Que me lembre, apenas 8% das fêmeas seriam férteis. O exame empírico, nos currais serranos, era feito com uma caneta Bic. Se o diâmetro da vulva da bezerrinha recém-nascida permitisse a entrada de boa parte da caneta, não seria maninha. Se a Bic encruasse no vestíbulo vulvar, era uma vez uma bezerrinha.

Isso explicava o motivo pelo qual os fazendeiros, ainda que de maneira empírica, não procuravam desenvolver rebanhos produtores de bezerros gêmeos. Partos gemelares têm forte influência genética. Observamos o fenômeno na espécie humana, nas famílias que têm gêmeos porque a vovó era gêmea, a titia era gêmea, e há priminhos gêmeos.

A partir desse fato, seria relativamente fácil selecionar rebanhos com propensão genética para produzir gêmeos, mas os fazendeiros esbarraram no fenômeno free-martin, que os obriga a sacrificar cerca de 90% das fêmeas recém-nascidas, se gêmeas fraternas de bezerros machos.

Aí, ocorria outro fenômeno curioso: empregados com larga folha de serviços prestados à profilaxia social, que não hesitariam em matar a foiçadas seus colegas de trabalho (assisti aos resultados de um caso: a cena do crime é terrível) –, ficavam cheios de dedos na hora de matar a bezerrinha. Sobrava para o patrão.

REVISTA A GRANJA – 705

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: