Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

 

No ‘‘boom’’ das bolsas da década de 70, não houve novo-rico que não comprasse Mercedes e fazenda. Um deles era meu vizinho no estado do Rio. Acompanhei suas atividades agropecuárias de perto, não só porque morava perto, como também porque presidi o Sindicato Rural que tinha jurisdição territorial sobre as muitas fazendas que comprou.

Criava gado Gir, porque lhe disseram que os zebuínos resistem melhor que os europeus ao rigor dos climas tropicais. O diabo é que está para nascer, aqui ou na Índia, um zebuíno que resista à fome, sobretudo cercado com braúna e sete fios de arame farpado, num morro sem qualquer vestígio de capim.

Novo-riquíssimo, nosso amigo chegava à fazenda em que ficava a sede no princípio das noites de sexta-feira. Até voltar para o Rio, na manhã de segunda- feira, não dava um passo fora do terreiro da sede, nem mesmo para comprar as terras que lhe ofereciam. Assinava as escrituras no Rio.

Passava os finais de semana inteiramente bêbado, abordoado aos litros de Buchanan’s de luxe scotch whisky, assessorado por um bando de vigaristas regionais, gente que indicava as terras, comprava os gados e lhe dava notícia da excelência do rebanho espalhado pelos milhares de hectares.

Nessas fazendas, o quadro era doloroso. Cercas novas, ausência total de pasto, bebedouros feitos a trator no mais fundo das grotas. Vacas, touros e eventuais bezerros mais pareciam lições de anatomia: pele e ossos. Devidamente salitrado em cochos caríssimos, o gado descia ao poço para beber água e ficava por lá até acabar de morrer. Não escapava um. A reposição do rebanho era função dos vigaristas comprando Gir cada vez mais longe, por conta do doutor.

Por acaso, estive com o doutor, para tratar de problemas do sindicato, num sábado em que os vigaristas davam notícia do gado de determinada fazenda: “Ah, doutor, o rebanho daquela fazenda está uma beleza!”. Também por acaso, passei pela tal fazenda na véspera, levado pelo diretor de nossa cooperativa, e não havia uma só cabeça em condições de sobreviver durante um mês.

Nunca entendi o porquê de os vigaristas não recomendarem a compra de ração, feno e silagem: talvez fosse mais rentável comprar os rebanhos de reposição. Enquanto durou o ‘‘boom’’ das bolsas e a corretora do doutor aguentou, foi um morticínio de Gir que teria acabado com a raça no Brasil, se as bolsas e a corretora não afundassem em poucos anos. Acho que o doutor morreu, porque não encontro seu nome no Google e ele tinha 20 anos mais que eu.

Não faço a menor ideia do fim que levaram as terras, porque saí de lá em 1980, mas que o quadro foi doloroso, foi. E suscita o tema da vigarice nas bacias leiteiras. Nunca houve fazendeiro principiante que não fosse assessorado pelo picareta regional.

O malandro é simpático e sabe encher a bola do principiante, começando com a notícia de que a fazenda comporta 400 vacas, quando não cabem 100. Propriedades à venda, pastos vedados causam boa impressão. Talvez suportassem 200 vacas, se não existisse o período da seca. Aqui no Sudeste e na maioria das terras brasileiras falta neve que convença o fazendeiro da necessidade de guardar comida para os meses em que não há pasto.

O principiante se entusiasma com o verde dos pastos vedados e compra, orientado pelo vigarista, as 400 vacas. O verde acaba num átimo, antes mesmo do período seco. A mortandade é inevitável.

Fosse mais moço, eu compraria uma área mecanizável que está à venda aqui perto, plantaria milho e capim-napier para fazer milhares de toneladas de silagem e aguardaria a próxima seca para sair comprando vacas moribundas. São milhões à venda, entra ano, sai ano. Morrem algumas nos caminhões, mas as sobreviventes, comendo silagem ao ar livre, num curral de terra, voltam a ficar bonitas e vendáveis. Parece milagre.

O esterco levado do curral de terra para as áreas de plantio de milho e napier permitiria que no ano seguinte o sujeito aumentasse o número de silos e o número de moribundas compradas. Em 10 anos, o fazendeiro fica rico, mas é a tal história: só temos certas ideias quando já não sobra tempo de executá-las.

O trabalho seria nenhum. Três ou quatro empregados plantando e ensilando, um ou dois compradores de vacas, no auge da seca, percorrendo as regiões em que a mortandade é braba. Caminhões alugados.

Recuperada a saúde das vacas, os compradores aparecem. E aí temos novo fenômeno curioso. Todo rebanho à venda, com mais de 200 vacas, tem uma porção de cabeceiras. O primeiro comprador escolhe 20 ou 30, que nunca são as melhores, e o segundo comprador tem nova cabeceira para escolher. Afinal, o gado está bonito. Sempre sobram algumas de bicos perdidos, mas essas vão para o corte com lucro.

Eduardo Almeida Reis


Edição 733
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