Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

 

 

Em muitas regiões de Minas, a divisão das fazendas pelos herdeiros resultou num quadro preocupante: pequenas propriedades rurais, cada qual com sua casa, todas inviáveis para exploração agropecuária. Casas sobre alicerces de pedra para compensar o desnivelamento das terras, quase sempre amorreadas.

Numa região do estado do Rio as fazendas tinham, em média, 450 hectares, até hoje não sei por quê. Muitas delas conservaram a área original dividindo a escritura por diversos herdeiros. Nossos vizinhos moravam numa casa imensa, estilo colonial, habitada por seis famílias de inimigos íntimos, gente simpaticíssima com as visitas e a vizinhança – irmãos, cunhados e sobrinhos que viviam às turras.

Fraternidade, substantivo feminino, é o tipo da coisa bonita de escrever e difícil de encontrar. Significa laço de parentesco entre irmãos, união, afeto de irmão para irmão, amor ao próximo, fraternização, harmonia e união entre aqueles que vivem em proximidade ou que lutam pela mesma causa.

Como resultado imediato da repulsão que existia na tal família, foi o único lugar em que encontrei, até hoje, sete cozinhas enfileiradas num comprido anexo concretado ao lado da casa colonial. Seis cozinhas, com suas pias, seus fogões e seus armários de mantimentos, de cada uma das famílias, e uma cozinha “da fazenda”. Espetáculo grotesco, não sei se era para rir ou para chorar.

A fazenda tinha usina hidrelétrica própria de 50 kWh, do que resultava o seguinte: cada família comprava lâmpadas para os cômodos que ocupava e as partes comuns, corredores e escadas, viviam no escuro. Presumo que a manutenção da ótima usina fosse rateada entre os “fraternos”.

Visitas de amigos ou vizinhos à casa imensa eram sempre divertidas e engordativas. Mesa descomunal, dezenas de cadeiras, cada família fazia questão de que a vítima experimentasse os biscoitos, os bolinhos, os doces das respectivas cozinhas. Havia luz no salão, porque era ali que todos almoçavam e jantavam, respeitando os seus lugares à mesa quilométrica.

Algazarra inenarrável, porque todas as famílias conversavam com as visitas ao mesmo tempo em que ofereciam seus doces, seus biscoitos, seus bolinhos. Não tive oportunidade de dividir com eles uma noite de Natal, porque a fazenda foi vendida pouco tempo depois de comprarmos a nossa.

Engordei à beça. O comprador, Dr. Brandi, era gourmet e trazia de Petrópolis, todos os dias, farnéis imensos entupidos de numerosa iguaria, vinhos, cervejas, uísques, enquanto fazia as obras na casa colonial, oito banheiros supimpas, cozinha caprichada, piscina funda de 3,5 metros, estábulo, bezerreiros, ordenha mecânica – e demolia o anexo de concreto com as sete cozinhas da família briguenta.

Reformada nossa casa e coberta com telhas francesas, que comprei numa demolição carioca, as “abelhinhas” de Marselha – até hoje as melhores telhas jamais fabricadas –, eu ainda morava na fazendinha antiga, esperando eventual comprador. O leitor de A Granja sabe como são as coisas: se a gente abandona, o mato e as cobras entram pela casa da fazenda à venda. Por isso, viajando diariamente para a fazenda reformada, engordei à beça almoçando com a família Brandi, até hoje muito amiga de todos nós.

Como deu para perceber, mesmo entre irmãos a “fraternidade” é muito difícil. Fora gêmeos univitelinos, os irmãos diferem uns dos outros. Não raras vezes, é mais fácil encontrar “irmãos” fora de casa do que entre irmãos dos mesmos pais biológicos. Rivalidades, ciúmes e a sensação de que os pais gostam mais de outro filho fazem que as brigas sejam constantes, e houve precedentes bíblicos: Caim e Abel não me deixam mentir.

Tive a sorte de ter três filhas que se adoram. É verdade que moram em cidades, estados e países diferentes. Morassem na mesma casa, talvez não se amassem, porque a convivência é muito difícil. Mudei-me recentemente e logo no segundo dia fui visitado por vizinha idosa, surda, de bengala, que se queixava dos latidos do meu cachorrinho.

Aos berros, depois que ela se identificou como surda, expliquei-lhe que não tenho cachorro, não gosto de cachorro, detesto pulgas e não consigo imaginar a cena de levar um cachorro ao pet shop para tomar banho e tosar os pelos. Informação assustadora: em Orlando, Flórida, uma consulta ao veterinário custa 700 dólares. Nunca soube de médico, no Brasil, que cobrasse 1.400 reais por consulta. Já paguei 400 reais e fiquei furioso.

A Granja


Edição 771
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1 Comentário(s)

  1. Semí Alvarenga

    29 de agosto de 2014 às 19:33

    Só um homem inteligente como o Eduardo para aproveitar a vida dessa maneira .Tento ser um pouco inteligente como ele .Parabéns

    Curtir



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