Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

No finalzinho de fevereiro, em Itupeva/SP, uma quadrilha conseguiu a proeza de roubar retroescavadeira Hyundai avaliada em 220 mil reais. A televisão nos mostrou uma Hyundai igual à roubada: é veículo imenso, que se desloca sobre lagartas de aço, donde se conclui que não deve ser fácil de transportar, a começar pelo fato de exigir a presença de um bom operador de retro.

Depois de certa idade, e bota certa nisso, tudo nos lembra episódios que assistimos ou deles tivemos notícia, não raras vezes por intermédio dos próprios executores, num quadro que a criminologia chama de vaidade criminal. É através dela, vaidade criminal, que a polícia consegue desvendar muitos casos: o próprio criminoso se encarrega de contar.

Conheci um vizinho de fazenda, em região amorrada, que conseguiu fazer uma várzea de 150 hectares valendo- se de uma patrola de empresa que trabalhava perto das suas terras. Sexta-feira, no final da tarde, os encarregados da empresa retiravam as baterias de suas máquinas e as trancavam debaixo de sete chaves, para gozar belo final de semana.

Meu vizinho pegava seu operador de máquinas, botava uma bateria em sua picape, chegava ao acampamento e tirava uma patrola em marcha a ré, levando-a para a fazenda onde trabalha sem parar até domingo ao final da tarde, ele e o operador se revezando no nivelamento das terras. Tinha estoque de diesel na fazenda e levava a patrola de volta ao acampamento quando caía a noite de domingo, tendo o cuidado de retirar sua bateria.

Fez isso durante meses, trabalhando semanalmente cerca de 40 horas sem parar, até aprontar uma várzea que ficou supimpa. Depois, construiu uma barragem de cimento, dotada de comporta, que represava um riacho capaz de inundar os 150 hectares em poucas horas. Corrigiu, adubou e fertilizou a área, plantou capim braquiária, dividiu a várzea em 100 piquetes de 1,5 hectare e desandou a produzir leite que foi uma beleza.

Ele próprio me contou o feito, que não configurou furto de máquina, mas empréstimo não autorizado, e vendeu a fazenda, que tinha sede antiga muito bonita, por US$ 1 milhão, uma fortuna no dólar daquele tempo. Foi-se embora para a Bahia, comprou fazenda e deve ter morrido, porque era bem mais velho que eu.

Contribuí indiretamente para a venda de sua várzea quando levei o repórter João Castanho Dias, autor de tantos livros de sucesso sobre fazendas e leites, e o Castanho fez matéria para uma revista agrícola. Na embalagem, a fazenda foi vendida para milionário carioca, junto com outras 11 propriedades na região, cada uma na faixa do milhão de dólares.

O milionário ajeitava as casas, fazia jardins, construía piscinas, botava algum gado nos pastos e deixava as sedes paradas, com jardineiros, piscinas de águas tratadas, essas coisas. Foi no tempo em que se temia o comunismo tomando conta do resto da Europa e a explicação para as 12 fazendas, quietas, era a de que o brasileiro guardava as sedes coloniais para hospedar seus amigos que fugissem da França, da Alemanha, da Itália, da Bélgica…

Aliás, guardava 11 porque ocupava uma delas, das mais bonitas, que deixou junto com as outras para sua viúva, senhora muito conhecida de todos nós.

Com o furto da retroescavadeira Hyundai lembrei-me de um casal brasileiro, que residia na Tanzânia e produzia cafés finíssimos exportados para a Suíça. No final de cada dia de trabalho, todo o equipamento de irrigação era recolhido ao terreiro da fazenda para dormir vigiado por guardas armados, sob pena de ser roubado nos campos durante a noite. Não foi há mil anos, mas ainda outro dia, no final do século passado.

Pois muito bem: o quadro existente na Tanzânia, antiga Tanganica – e todos conhecemos o capim coloniãode- tanganica – hoje se espalha pelo Brasil. Há regiões inteiras em que as máquinas e os tubos de irrigação devem ser guardados à noite, sob pena de aparecer alguém que os leve, como foi levada a retro Hyundai.

Hoje, cabe a constatação sobre o fenômeno da ladroeira que já chegou ao campo brasileiro, refletindo a roubalheira ampla, geral e irrestrita que se vê no resto do país

Noutras circunstâncias, costumávamos perguntar: “Onde é que isso vai parar?”. Hoje, cabe a constatação sobre o fenômeno da ladroeira que já chegou ao campo brasileiro, refletindo a roubalheira ampla, geral e irrestrita que se vê no resto do país, sobretudo e principalmente nas ONGs ligadas a uma porção de ministérios brasilienses.

A Granja


Edição 760
04/69

 

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1 Comentário(s)

  1. Gustavo Rocha da Silva

    27 de fevereiro de 2017 às 18:28

    Excelente artigo, como tudo que já li de Eduardo Akmeida Reis, com quem aprendi uma pérola do mais castiço Latim:

    “Piper alieno culo refrigerium”

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