Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

De vez em quando o pessoal se anima com o preço do leite, cuja produção nunca fez parte do agronegócio, porque é vício. Bem melhor do que crack, cocaína, nicotina e álcool, mas é vício. Na virada do ano, com o leite a R$ 1 e o dólar a R$ 2,20, tivemos o litro a 45 centavos de dólar e o pessoal “se animaram”, como diria o alcaguete honoris causa.

Na década de 70, vendi leite tipo B a 12 centavos de dólar e, hoje, me pergunto se o preço melhorou, porque o dólar daquele tempo era muito mais forte do que o atual. Quanto? Não sei, mas acredito que um economista alfabetizado possa calcular. Não se espante o leitor com o “alfabetizado”, porque há economistas, e são muitos, analfabetos de pai e mãe, assim como existem advogados, engenheiros e outros doutores que rivalizam em português e conhecimentos gerais com o alcaguete.

Há um aspecto curioso no negócio leiteiro: é um mau negócio em que você trabalha com bichos abençoados. Copio de um livro meu, portanto não é plágio, os cálculos do crescimento de um lote de 10 vacas mestiças, perfeitamente adaptadas ao meio, e todos sabemos que a eficiência reprodutiva do rebanho normalmente não chega aos 100%, metade machos, metade fêmeas.

Velhos pantaneiros diziam que, depois de um ano de pasto ruim, nasciam mais machos que fêmeas. Talvez exista explicação natural, biológica para o fato constatado ao longo dos anos. Subalimentado, o rebanho se defendia produzindo menos fêmeas para não complicar ainda mais as coisas, considerando que bezerro macho, depois de adulto, não dá crias.

Volto aos cálculos copiados do meu livro sobre as 10 vacas iniciais. No primeiro ano, temos 10 vacas e 5 bezerras = 15 fêmeas. No segundo ano, 10 vacas, 5 garrotas (bezerras de sobreano) e 5 bezerras = 20 fêmeas. No terceiro ano, 10 vacas, 5 novilhas de dois anos, 5 garrotas e 5 bezerras = 25 fêmeas. No quarto ano, 15 vacas, 5 novilhas, 7 garrotas e 7,5 bezerras = 32,5 fêmeas. No quinto ano, 20 vacas, 5 novilhas, 7,5 garrotas e 10 bezerras = 42,5 fêmeas.

A partir do sexto ano, ainda com as 10 vacas originais perfeitamente “operacionais”, o negócio se transforma numa loucura: são 25 vacas, 7,5 novilhas, 10 garrotas e 12,5 bezerras = 55 fêmeas. Sete anos, mesmo na roça, passam muito depressa.

É claro que você vendeu fêmeas refugadas e perdeu fêmeas acidentadas, picadas de cobras, essas coisas que acontecem. É claro, também, que lápis e papel aceitam qualquer coisa, mas que a vaca é um bicho abençoado, é.

O que atrapalha a pecuária leiteira é o leite. Se fosse possível inventar uma pecuária leiteira, com vacas adaptadas ao meio, sem vender leite, estaríamos diante de um dos melhores negócios do mundo. E ainda tem uma coisa: no primeiro ano, nasceram 5 machinhos, mais 5 no segundo ano, mais 5 no terceiro ano, quando você já tinha 5 bois para vender ao açougueiro. Não falo da venda de tourinhos, hoje muito prejudicada pela vulgarização da inseminação artificial. Quanto às 7,5 bezerras que pintaram no pedaço impresso, paciência: a exemplo do lápis e do papel, o computador também aceita quase tudo.

Rebanho adaptado, criado com um mínimo de cuidados, tem um crescimento extraordinário: a partir do sétimo ano, se a raça é adaptada ao meio, tem vaca e bezerra que não acaba mais. Se o fazendeiro é criador, e não mata de fome os seus bezerros e vacas, ao cabo de sete anos e quatro crias ainda vende sua vaca como vaca leiteira, retendo na fazenda quatro crias da vaca vendida.

Diante disso, não chega a causar espanto que tanta gente se vicie no negócio leiteiro. Falo de cadeira, porque ainda sinto funda saudade do tempo em que vivi dele.

Como lhes contei em crônica recente, até 2010 ou 2011, se ganhasse a Mega-Sena, compraria pequena fazenda próxima a Belo Horizonte para tirar leite de 80 vacas mestiças. Pagando as despesas com o leite, o fazendeirinho continuaria vivendo de escrever para fora, profissão que muito me diverte e dá para pagar os charutos.

Hoje, não compraria a tal fazendola porque tenho fazenda de genro para curtir. É uma espécie de vingança de um sujeito que sempre suportou candidatos a genros na roça.

A Granja


Edição 783
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