Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

Sem ter formação psiquiátrica não posso andar por aí, distribuindo títulos de loucura, mas tenho estrada para falar dos fazendeiros originais que conheci. É compreensível que a roça tenha tipos exóticos; não há profissão urbana que não os tenha. Nem me refiro aos criminosos – como os médicos que estupram pacientes anestesiadas em seus consultórios -, mas aos extravagantes ou simplesmente esquisitos.

Fui vizinho de fazenda de um famoso neurocirurgião nacional, que trabalhava normalmente em seu hospital carioca, em que operava e era bemvisto pelos colegas. Na fazenda, vestia- se de caubói, botas bicudas de salto alto, chapéu Stetson e dois revólveres de verdade na cintura. Fantasiado, montava a cavalo e percorria as estradinhas rurais, naquele tempo tranquilas e sem notícia de bandidos ou de assaltantes de diligências. A raça de cavalos quarto-de-milha ainda não tinha sido introduzida no Brasil, o que obrigava o vaqueiro herói-cômico a montar cavalinhos fluminenses, mestiços de jacaré com cobra-d’água.

Mais adiante, havia uma senhora fazendeira muito rica, acionista controladora de imensa indústria paulista, fazenda pequena e caprichada, em que plantava flores e produzia leite tipo M (fora das especificações do Ministério da Agricultura), o leite dos milionários. Seu preço de custo não seria menor que dez vezes o valor de venda à cooperativa, talvez vinte vezes. O que é de gosto regala a vida, já diziam nossos avós.

Acontece que, na fazendinha da excelente senhora, morriam passarinhos, como costuma acontecer onde quer que existam passarinhos. Quando aparecia passarinho morto nos jardins da sede e a dona da indústria paulista estava na fazenda, parava tudo para enterrar a ave “passeriforme”. Não pensem que estou brincando, porque o enterro era sério, o defunto tinha direito a caixão-mirim – pouco maior do que uma caixa de charutos -, coveiro, cemitério demarcado,e a fazendeira à frente do cortejo fúnebre, que reunia todos os empregados e suas famílias.

Cerca de 100 quilômetros à frente, numa estrada que liga o Rio a São Paulo, havia uma fazenda de 1.200 hectares, sede colonial belíssima visitada às quartas-feiras pela mulher do proprietário. De Mercedes com chofer, a fazendeira inspecionava suas terras e benfeitorias: gado holandês de boa qualidade; administrador argentino com diploma de zootecnista.

Pois muito bem: desde cedo, terminada a ordenha, as vacas eram lavadas com água e sabão, antes de serem amarradas às tábuas brancas do estábulo, de tal forma que estivessem limpíssimas na hora da inspeção da proprietária. Não só as vacas, como também o zootecnista argentino de banho tomado e botas engraxadas.

Tive a sorte de participar, a convite, de uma dessas visitas. Cheguei cedo, de banho tomado, porque sempre tomo banho pela manhã, sem prejuízo de alguns tomados à tarde ou à noite. Tive direito a um reforço no meu café matinal, junto com o argentino e a fazendeira, com o seguinte detalhe: os intrusos calçávamos pantufas, grandes chinelos acolchoados, por cima de nossos calçados de couro, para não arranhar o lindo assoalho de tábuas velhas de mais de 100 anos.

Terminado o café, embarcamos no Mercedes negro: eu e madame no banco traseiro, o zootecnista e o chofer no banco da frente. As pantufas ficaram no vestíbulo da sede, que não tinha alpendre. Pouco adiante, o argentino desceu do carro para dar notícia das vacas que inspecionávamos. Sujou as botas engraxadas, explicou o que tinha de explicar, e a visita aos 1.200 hectares prosseguiu da seguinte maneira: o chofer dirigindo, madame e eu no banco traseiro e o pobre argentino, homem grande, cinquentão, correndo ao lado do carro.

Só vi cena parecida no cinema, com os agentes secretos correndo ao lado do carro do presidente dos Estados Unidos, mas os agentes correm de terno, óculos escuros e arma na cintura, enquanto o zootecnista corria de botas e roupa esporte, sem óculos escuros, impedido de entrar no carro porque tinha sujado o calçado.

Não creio que o cooper faça parte dos cursos da ciência zootécnica, que sempre desejei estudar mas nunca tive oportunidade. O fato é que o argentino correu brilhantemente agarrado à maçaneta da porta traseira do Mercedes, e não me consta que tenha morrido do método de condicionamento aeróbico baseado nas propostas do médico e preparador físico norte-americano Kenneth H. Cooper, coronel reformado da Força Aérea dos EUA. Tanto não morreu do cooper, que o encontrei, tempos depois, administrando a fazenda que enterrava passarinhos.

Eduardo Almeida Reis


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