Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

Fórmula 1

Os pilotos, as mulheres e os pneus do grande prêmio

Ana Cristina Reis, editora da Revista O GLOBO Foto: Reprodução

Era um Opalão bege (hoje a cor se chamaria caramel cinammon latte ou outro similar pretensioso), sólido,confiável, rodado (modelo da década de 70, na ativa no final de 1980). A estrada, de terra, ligava Roça Grande a Descoberto (não são deliciosos estes nomes de cidades em Minas?). O dia estava claro ainda, final de tarde, brisa e poeira entrando pelas janelas, mãe e irmãs atrás, pai ao lado, eu na direção. Até que…

Uma ave me distraiu.

— Olha que lindo! É um tesourinha.

Meu olhar seguiu o passarinho. Meu olhar, minhas mãos e o carro, que entrou de lado em um barranco.

— Minha filha, direção e observação de pássaros não são compatíveis. Não congeminam nem conjuminam.

Fim de tarde, um descampado no alto de um morro, uma Brasília branca e mamãe no banco do carona.

— Bota em ponto morto e puxa o freio de mão — instruiu.

Não lembro o que fiz, mas foi perfeito para enganchar a Brasília num montículo de bauxita.

Donde se conclui que não sou uma motorista nata. Mesmo depois da autoescola e de meses de prática, ainda entrei sem querer em muito acostamento no caminho entre Juiz de Fora e São João Nepomuceno. O pensamento devaneava e o controle do carro, idem.

Sou exemplo de que a prática e a necessidade dão frutos: virei uma motorista acima da média, com talento às vezes (sou ótima na chuva) e inaptidão sempre que encontro uma pilastra em garagem.

E a vida continuou sem muitos sobressaltos no campo automobilístico até este ano, quando viajei por duas semanas com um amigo que adora carros. Fizemos test drive de um Tesla (na minha vez, a máquina estacionou sozinha; não quis me arriscar com pilastra americana), alugamos Mercedes e Chevrolet Camaro (eles não tinham Ford Mustang) e dirigimos, em pistas alternadas de Fórmula 1 e Nascar, uma Ferrari, um Audi e uma Lamborghini.

A sobrecarga não foi contraproducente — em vez de tomar ojeriza, comecei a olhar o mundo dos carros com atenção. Vi duas vezes “Rush”, o filme que conta a história do playboy lindão e genial James Hunt e seu brilhante e metódico, quase TOC, oponente Niki Lauda. Comecei a reparar nas matérias quando falam de zero a 100km em tantos segundos. Passei a visitar sites de grandes marcas, acompanhando os lançamentos.

A apoteose aconteceu no último fim de semana. Fui pela primeira vez a um Grande Prêmio de Fórmula 1. Detalhe: para ver os treinos no sábado e a corrida no domingo, com direito a visita aos boxes, interação com pilotos e equipes, aulas sobre pneus e caminhada no pitlane. O que aprendi:

Cada competição recebe 1.800 pneus virgens da Pirelli, que depois da competição são imediatamente enviados para reciclagem;

Niki Lauda é um lorde;

Os pneus são lavados, aquecidos e transportados embrulhadinhos até os carros;

Os carros são bem menores do que aparentam na TV;

Felipe Massa é educadíssimo e paciente;

Os pilotos são mais baixos e magros do que aparentam na TV;

Reginaldo Leme é encantador;

Felipe Nasr é mais bonito pessoalmente;

Mecânicos, técnicos, pilotos — todos ficam de macacão;

Max Emilian Verstappen, o holandês de 19 anos, nasceu para as pistas e para as câmeras. E que versatilidade: seu rosto consegue ir do bom moço sexy às caretas do Mr. Bean;

O objeto mais cobiçado dentro e fora de Interlagos é o boné da Pirelli, o mesmo que os pilotos usam no pódio, que não é vendido, mas presenteado;

Consegui ver três das oficialmente oito (registradas até a semana passada) tatuagens de Hamilton. Não foi possível identificá-las ou porque foi muito rápido ou porque me distraí com a definição dos braços do inglês;

O uniforme mais chique da equipe de suporte é o da Mercedes AMG Petronas (apesar de o nome fazer lembrar a Petrobras);

As mulheres lindas e louras que povoam a Fórmula 1 em dia de corrida? Não vi. Eu estava numa sala envidraçada, de frente para a largada, na companhia de 117 homens e duas mulheres;

O paraíso existe.

.

FONTE: O Globo.



%d blogueiros gostam disto: