Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

Não achava que fosse passar dos 18 anos, por isso vivi até lá fazendo o que devia (estudar) e queria (passear).

Ana Cristina Reis, editora da Revista O GLOBO Foto: Reprodução

Fiz 18, e fui levando… Faculdade, o primeiro namorado (que por sorte de principiante era nota mil), trabalho, algumas viagens e o êxito de poucos e bons amigos. Mas como suspeitava que não ultrapassaria os 30, nunca me aprofundei em nada. Por que essa obsessão com prazo de validade, hora para morrer?

Não faço a mínima ideia. E olha que não sou noviça em terapia — minha mãe me inscreveu na análise aos (imagina?) 18 anos. O argumento: estava preocupada com o meu ceticismo. Achei ridículo. Desde quando lucidez era um defeito? Mas obedeci, porque nunca cogitei contrariar meus pais voluntariamente. Adolescente rebelde? Não sei do que se trata. Sempre fui amada e alimentada — por que iria me revoltar?

Cheguei aos 30 anos num piscar. E despreparada. Como assim ainda estava aqui? Não tinha plano a médio prazo, sonhos de me casar ou de filhos; não havia pensado em carreira ou aposentadoria. Trinta anos, e agora? Comprei uma roupa dourada, pesquisei sobre aulas de jardinagem, quase entrei para um bloco de carnaval e marquei consulta com uma taróloga.

Os 40 anos me encontraram entretida (casada), bem-intencionada (planos de andar na Lagoa) e com vista cansada. Comentário do oftalmologista:

— Acabei de dar uma entrevista sobre os benefícios da vista cansada para os míopes. Vocês deixam de precisar de óculos para ler.

Em resumo, aos 40 eu estava casada, fora de forma, lendo sem óculos e indo a aniversário de quarentões em casas de festa infantil. Oh, ironia. As crianças nunca estiveram tão assertivas, tão maduras, tão seguras. Enquanto isso, uma amiga queria festejar seus 40 anos com piscina de bolas de plástico, cama elástica, balanço, joão-bobo, algodão-doce, puxa-puxa e outros brinquedos e quitutes de que não me lembro os nomes porque minha intimidade com o mundo infantil é limitado —meus sobrinhos cresceram longe.

A dois passos dos 50, leio sem óculos, sigo com a intenção de andar na Lagoa, já esgotei o repertório da Netflix, espero que a atual temporada de “Games of Thrones” melhore e continuo recebendo e-mails do meu pai. O mais recente foi este:

EMOÇÕES

Diante da pira, o trocadilho infame: o pessoal pirou. Espetáculo caríssimo, jato da Latam, escolta de caças da FAB, coração de fumaça desenhado nos céus de Brasília para transportar dois fogareiros da Europa até BSB. Emoção, gente chorando, pira (ou tocha) acesa, a Búlgara, o Nuzman, advogado, atleta, político brasileiro casado com Márcia Peltier, emocionadíssimo, mais gente chorando, dragões da Independência fardados, lá se vai a pira de mão em mão, merece helicóptero, canoa no Paranoá e rapel.

Celebridades correm transportando a pira. Tem gente que corre ao lado naquela emoção de milhões de desempregados, milhares de indústrias falidas, 1.300 concessionárias fechadas, mais de 30 mil demitidos só no ramo das concessionárias, montadoras dando férias atrás de férias, milhões de trabalhadores em lay-off e a pira circulando naquela emoção coletiva.

Aliás, as piras, que são muitas. Você pode comprar uma delas por R$ 2.200. O ilustre ministro do Turismo deve comprar pelo menos uma para presentear miss Bumbum, sua cara-metade.

É muita emoção; o suprassumo do ridículo. São 338 cidades percorridas pela tocha, começando por Corumbá de Goiás, enquanto o chefe da organização criminosa continua solto. Tristes trópicos.”

Depois dizem que a cética sou eu.

.

FONTE: O Globo.



%d blogueiros gostam disto: