Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

INVEJA, CIÚME E RESSENTIMENTO

Fui educada para desejar sucesso aos desafetos. Não sei se funcionou porque não tenho inimigo (a preguiça de gastar energia com quem não merece é maior do que a vontade de vingança), mas posso dar exemplos. O chefe quer lhe derrubar? Torça para que ele seja promovido para outra área. A colega está de olho na sua vaga? Reze para ela ser transferida para uma cidade esplendorosa e longínqua, e com salário régio.

Os vizinhos (não os meus) são barulhentos? Faça figa para que eles comprem uma cobertura em outro bairro. Quase que escrevi “Faça figa para que eles comprem uma cobertura na Vieira Souto”, mas me contive a tempo, porque poderia parecer ressentimento. Fui criada para ficar longe de manifestações de ciúme, inveja e ressentimento.

Mamãe explicou bem cedo às filhas as diferenças entre os conceitos.

Inveja

Desgosto ou pesar pelo bem ou pela felicidade de outra pessoa. O desejo de ter o que o outro possui. Pode ser qualquer coisa: aparência, dinheiro, relacionamento, posição na sociedade, um atitude relaxada, uma personalidade extrovertida (a lista é infinita);

Ciúme

É mais complexo que a inveja porque costuma envolver desconfiança, suspeita, suposição. É acreditar que a coisa ou a pessoa que desejo deveria ser minha e de mais ninguém.

Ressentimento

É amiguinho da inveja e do ciúme. Por que não tenho isso mas outros têm? O poder corrosivo deste sentimento é tão forte que pode estimular a raiva, insuflar ódio ou despertar depressão.

Mais tarde, na escola, aprendi que o ressentimento poderia contribuir para escrever a História. O ódio revolucionário contra os privilegiados… Fui correndo perguntar a meus pais o que significava aquilo.

— Será que foi alusão à Revolução Francesa?— ponderou mamãe.

Quis saber se o ressentimento nascia das desigualdades.

— Depende… Tem gente que sempre quer mais. O gênero humano não leu Marx, minha filha — concluiu papai.

Na faculdade, naveguei pela teoria do ressentimento segundo Nietzsche, pelos tipos de ciúme segundo Freud e pelos estágios de inveja segundo Lacan. Travessia turbulenta (fui uma jovem com hormônios e descrenças). Posso ter confundido as teses e os mestres. O que ficou dessa época mesmo foi o que ouvia dos meus pais.

— Não invejar é uma bênção que nasce com a gente. Se um amigo prospera, prospero com ele. Se nasceu próspero, fico feliz por ele. Consolar é fácil: só conhecemos os amigos verdadeiros quando fazemos sucesso.

— Um humorista francês chamado Pierre Daninos explica o problema da inveja comparando os camponeses da França com os dos Estados Unidos. Vendo passar um carro bonito, os franceses gritavam “Desce do carro e vem andar a pé com a gente!”, enquanto os americanos exclamavam “Que carro bacana! Vou trabalhar bastante até comprar um igual”.

Pierre Daninos já morreu (1913-2005) e ainda não li “Les Carnets du major Thompson”, mas fui googlar seu nome e sabe o que descobri? Ele era irmão do criador de incríveis automóveis esportivos da marca Facel.

Detalhe: a marca só existiu entre 1954 e 1964. A companhia faliu por causa de defeito no motor de um dos modelos. Os menos céticos — essa gente que acredita que inveja tem poder — alegam que foi mau-olhado.

Não tenho opinião formada. Sou bem limitada para entender essas manifestações mundanas.

Inveja: só da mulher do Colin Firth.

Ciúme: de namorado.

Ressentimento: o que significa mesmo?”

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FONTE: O Globo.



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