Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

Obaufa

‘Ter recebido a Olimpíada foi muito bom, mas também é ótimo que esteja acabando’

Ana Cristina Reis, editora da Revista O GLOBO Foto: Reprodução

Entre tantas emoções positivas, três detalhes pouco auspiciosos saltaram aos olhos durante a Rio 2016: a mania dos atletas de morder as medalhas é de lascar, a estupidez não raras vezes tem proporções olímpicas (vide os nadadores americanos, o francês da vara e o judoca egípcio) e o amarelo pode até ser patriótico, mas nem Gisele deve ficar bem com uma camiseta dessa cor. Se for regata, então…

Regata, só para o Anderson Cooper, o apresentador da CNN que consegue ser mais naturalmente elegante que George Clooney. Estou digredindo. O que defendo é que ter recebido a Olimpíada foi muito bom, mas também é ótimo que esteja acabando. Qual seria a expressão para descrever a soma de satisfação com alívio? Proponho obaufa. Gostou? Então você precisa conhecer algumas das palavras que aprendi recentemente. Uma britânica chamada Tiffany Watt Smith, pesquisadora do Centre for the History of the Emotions, em Londres, compilou 156 vocábulos que descrevem sentimentos bem específicos, como basorexia, que significa vontade incontrolável de beijar. Gostaria de compartilhar alguns nomes com vocês:

Greng jai: palavra tailandesa para quando relutamos em aceitar ajuda com receio de incomodar o outro. O mesmo que fazer cerimônia; sinônimo de bem educado. É o antônimo de ser entrão ou folgado.

Iktsuarpok: é como os esquimós chamam o estado de alerta quando esperamos a chegada de alguém. Para nós, seria a soma de expectativa com ansiedade, ou ficar de olho se aquele carro prateado com janelas escuras é o Uber que chamamos; para eles, iktsuarpok é quando vasculham as planícies do Ártico à espera de trenós.

Awumbuk: sabe aquela sensação de “ruim com, pior sem”, ou de síndrome do ninho vazio? É como se sentem os integrantes de uma tribo de Papua Nova Guiné quando um hóspede vai embora. Mas o sentimento passa rapidinho… Os donos da casa botam um pote d’água no quarto onde dormiu a visita e, no dia seguinte, jogam o líquido na árvore mais próxima. Pensando bem, awumbuk poderia ser sinônimo de vá em paz e por favor só volte no ano que vem.

Torschlusspanik: literalmente, é o pânico do portão sendo cerrado. Vem do alemão da Idade Média, para traduzir o frio na barriga quando o sujeito se encontra entre um exército hostil e a porta de um castelo que está prestes a ser fechada. Em português chulo: “Ih, fu…”.

Kaukokaipuu: para os finlandeses, é a saudade de um lugar que você ainda não visitou. Quando eu era menina, vivia sonhando com os desfiladeiros da Irlanda. Detalhe: nunca fui à Irlanda. Minha mãe, uma sábia, mas que não conhecia ainda a palavra kaukokaipuu, resolveu assim a charada: “É hormonal. Uma de suas bisavós era irlandesa”.

L’appel du vide: parado em frente à faixa amarela na estação do metrô, um pensamento lhe ocorre assim que avista o trem chegando — “E se eu me jogasse?”. Descendo a serra de Petrópolis, você espia a pirambeira e por um instante vem o desejo de desviar o carro para o precipício. Psiquiatras garantem que não é um impulso suicida. É, traduzindo a expressão francesa, um chamado para o vazio. Cabe a nós fazer ouvidos de moucos.

Pronoia: o oposto de paranoia. É o universo conspirando a seu favor.

Obaufa: acabou a Olimpíada!

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FONTE: O Globo.

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