Blog dos alunos da Universidade Salgado de Oliveira, Campus Belo Horizonte, Curso de Direito.

Vida que segue

Depois da ressaca da Olimpíada, é vida que segue, repleta de desejos

Ana Cristina Reis, editora da Revista O GLOBO Foto: Reprodução

Animador de torcida, megafone, dancinhas, enormes bolas leves e coloridas passadas entre os espectadores, plateia fazendo onda para a esquerda, plateia fazendo movimento para a direita, música (de todos os estilos) altíssima, palavrões entusiásticos do sujeito sentado atrás de mim, crianças que não paravam quietas, público entoando “Sou brasileiro,com muito orgulho, com muito amoooor”.

Não enxerguei bem os atletas (nossos adversários eram os italianos, sempre um colírio); perdi bloqueios; deixei passar outros lances porque a algazarra distraía. Em suma: um show, um Club Med do entretenimento, mas minha primeira vez em um jogo de vôlei ao vivo não foi a competição que eu esperava.

— Eles copiaram a fórmula do basquete americano — esclareceu meu amigo.

— Há quanto tempo é assim?

Não ouvi a resposta porque o Bernardinho entrou em quadra e eu me juntei ao estádio para bater palmas. Não bastassem o dom de saber escolher e a competência para formar gerações de ótimos jogadores, ele ainda é elegante. Manter a elegância entre megafone e dancinhas não é para qualquer um.

Por falar em refinamento, a ida e a volta do Maracanãzinho, de metrô e nas ruas, pareciam a saída de uma apresentação do Festival de Bayreuth.

Não estou de ressaca pelo fim da Olimpíada, mas vou sentir falta do clima de civilidade. Não é que eu tenha um caráter excepcionalmente estoico — a verdade é que não houve tempo para uma crise de privação. Desde a final de Brasil x Itália, a vida real me deu:

Incidente. O vento que soprou no Rio domingo à noite derrubou uma janela de casa. Momento “Morro dos ventos uivantes”, mas sem direito a galã torturado carecendo de redenção e sem TV (foi preciso deitá-la num sofá — ela corria o risco de vir a nocaute com a ventania).

Sabor. Revelação, iluminação, lampejo, sopro, elã, centelha… Tive uma epifania comendo o boeuf bourguignon do bistrô Formidable. De repente, a noite ganhou luz, o vinho virou um Cheval Blanc e um dos rapazes na mesa ao lado parecia saído de um sonho. “Ele tem cara de ator de filme de Antonioni”, comentei. “Está mais para Visconti”, corrigiram os amigos.

Constrangimento. Fui com a maior boa vontade à pré-estreia de um musical. Saí no intervalo, com vergonha e pena de tudo e de todos.

Distração. “Memórias secretas”, com Cristopher Plummer (que amo desde “A noviça rebelde”) e outros ótimos atores velhuscos, foi uma descoberta. Na Netflix.

Reencontro. Não nos víamos há oitos meses, mas a conversa engatou com a facilidade que acontece quando os amigos e os risotos (um de pato e outro de camarão) são admiráveis. Um dia depois, na portaria, um presente, “Pequeno tratado das grandes virtudes”. O que falamos que levou ao livro de André Comte-Sponville? Não me lembro. E não tem problema. Amizade prescinde de explicação.

Harvard em casa. Viva o YouTube! Digitando “Justice with Michael Sandel”, você encontra uma série de aulas/palestras de arrepiar com o melhor professor que já vi em ação. Michel Sandel, de Harvard, não veste Armani, não é bonito e nem “chega chegando”, mas nasceu para ensinar — ele transforma Política e Filosofia em novelas de horário nobre. Vou agradecer a quem me indicou com abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim.

No mais, é vida que segue, repleta de desejos: continuar a emagrecer, cultivar mais os amigos, poupar para visitar a Minhoca e ver o novo filme do Woody Allen.

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FONTE: O Globo.



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