Antequam noveris, a laudando et vituperando abstine. Tutum silentium praemium.

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Na pacata Fernandes Tourinho, município de 3 mil habitantes no Vale do Rio Doce, católicos e evangélicos têm locais diferentes para sepultamento desde o século passado

 

Sara Veloso da Silva no Bom Jesus, onde a mãe está sepultada: ela já pagou R$ 2,7 mil por um jazigo no local, que fica a um quilômetro do cemitério para evangélicos   (Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)

Sara Veloso da Silva ao lado do túmulo da mãe, no cemitério Bom Jesus, na rua Joaquim Ribeiro Carvalhaes, para sepultamento de católicos (Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)

Sara Veloso da Silva ao lado do túmulo da mãe, no cemitério Bom Jesus, na rua Joaquim Ribeiro Carvalhaes, para sepultamento de católicos

Fernandes Tourinho – “Que interessante! Ainda mais por se tratar de um lugar pequeno.” Foi assim que João Lopes Oliveira, de 47 anos, que visitava Fernandes Tourinho, cidade de pouco mais de três mil habitantes no Vale do Rio Doce, reagiu ao descobrir uma peculiaridade do município: ali, há dois cemitérios, um dos católicos e outro dos evangélicos.
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O primeiro capítulo dessa história remonta às primeiras décadas do século passado, mas, ainda hoje, há quem não se sinta à vontade para falar sobre o assunto publicamente. Moradores mais antigos do município, cercado por montanhas e a poucos quilômetros da Rio-Bahia (BR-116), contam que uma evangélica morreu na época em que só havia a calunga do Nosso Senhor do Bom Jesus, construída atrás da igreja homônima. Os familiares não teriam concordado com a obrigatoriedade de uma cruz no túmulo – ou próximo dele – e levaram o corpo para casa.
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Sensibilizado, um fazendeiro doou um pedaço de terra para que os parentes construíssem o jazigo da maneira que desejavam. Foi assim que o Bom Jesus ficou conhecido como o cemitério dos católicos e o pedaço de terra doado pelo proprietário rural virou a calunga dos evangélicos. Separados por pouco mais de um quilômetro, cada um ocupa parte do alto de um morro. Ambos são mantidos pela prefeitura.
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Seu Carlos, morador conhecido tanto na área urbana quanto na rural, é o coveiro titular dos dois lugares. Ele conhece bem a história contada pelos vizinhos mais antigos, mas sempre optou pela discrição em relação ao assunto. Diz apenas saber em qual lugar deve preparar a cova quando o alto-falante da igreja informa a morte de um habitante, seja o corpo de um católico ou de um evangélico.
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Homenagens Carlos mora ao lado do portão principal do Bom Jesus, cercado por um muro branco e baixo. Um cruzeiro de madeira se destaca na parte mais alta, de onde a vista alcança todos os túmulos. Há jazigos de diferentes materiais, sobretudo, de mármore, azulejos e cimento. Também há sepulturas simples, onde a cova no chão batido é cercada por finas grades de ferro. Em muitos, destacam-se frases que homenageiam os mortos.
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No da família Santos, por exemplo, há uma dedicatória à memória de uma mulher: “Você brilhou tanto na terra que Deus a levou para ser estrela no céu”. Em outro, um homem foi homenageado pelos parentes da seguinte forma: “Quem vive no coração e na lembrança nunca morre”. Imagens de Nossa Senhora Aparecida e de Cristo pregado na cruz estão em vários jazigos, como no que foi enterrado o corpo de Ana, mãe da costureira Sara Veloso da Silva, de 61.
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“Ela morreu aos 85 anos e sempre dizia que desejava ser enterrada na parte mais alta desse cemitério”, recorda a filha, que já pagou R$ 2,7 mil por um jazigo no mesmo lugar. “Não quero dar trabalho a ninguém quando chegar a minha hora”, explicou a mulher, que mora a menos de 100 metros de lá. Da casa dela é possível ver o cemitério dos evangélicos, onde há quatro palmeiras na entrada.
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É lá que dona Marlene Gomes Costa, de 60, quer ser sepultada. “Quando chegar a minha hora – e que se Deus quiser demore muitos anos – quero vir para cá”, reforça a mulher, fiel da Assembleia de Deus. Ela costuma descansar no banco de madeira em frente ao cemitério, onde sempre dispensa parte do tempo em boa prosa com as amigas.
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O lugar é cercado por um alto muro verde, erguido há poucos anos. Até então, havia apenas uma cerca com arame.

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Atrás do imenso portão, pintado de marrom, também há túmulos erguidos por famílias de diferentes classes sociais – a renda per capita na cidade é de R$ 351,58, segundo o censo de 2010.A maioria dos corpos está em cova simples. O jazigo que mais chama a atenção, erguido com cimento, é o de um homem e o de uma mulher cuja história faz um contraponto com a divisão que provocou o surgimento das duas calungas em Fernandes Tourinho. Trata-se de um casal que viveu junto por décadas.
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O marido era evangélico. A esposa, católica. Quando ele morreu, foi enterrado no cemitério dos evangélicos. Mas a saudade do amado era tanta que a mulher fez um pedido aos familiares: queria ser enterrado ao lado do corpo do marido. Seu último desejo foi realizado.

Cemitério dos Evangélicos, na rua Frei Roberto (Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)

Cemitério dos evangélicos
Marlene Gomes da Costa, fiel da Assembleia de Deus, no cemitério para evangélicos:

Marlene Gomes da Costa, fiel da Assembleia de Deus, no cemitério para evangélicos: “Quando chegar a minha hora, quero vir para cá”

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FONTE: Estado de Minas.


MEMÓRIA
Tradição tropeira valorizada
Cidade de Itabira comemora aniversário do Museu do Tropeiro

Cavaleiros da região de Itabira participam das comemorações

Para recuperar a memória e as antigas tradições dos tropeiros, viajantes que desbravaram Minas Gerais nos séculos XVII e XVIII e por aqui enraizaram parte de sua cultura, o distrito de Ipoema, em Itabira, comemora a Semana da Cultura Tropeira, em homenagem ao 11º aniversário do Museu do Tropeiro.

Com uma intensa agenda de atividades, a programação sofreu uma intercorrência: marcada para esta sexta-feira, a inauguração do monumento ao Tropeirismo, na entrada do distrito, foi adiada. Na finalização da peça, o artista plástico acabou danificando a obra, que não ficará pronta a tempo para as festividades.

Apesar disso, a programação segue. Um dos destaques da agenda é o show gratuito do violeiro Almir Sater, amanhã, no Campo do Aliança. “A apresentação é um dos eventos mais esperados. Em homenagem aos tropeiros, a viola não poderia faltar”, diz a gestora do museu, Aparecida Leite Madureira.

Além da música de raiz, as comemorações destacam outros aspectos importantes da cultura sertaneja, como as cavalgadas, a religiosidade e a gastronomia.

Hoje, como já acontece há 11 anos, uma comitiva de cavaleiros representa as viagens feitas pelos tropeiros, atravessando um trecho da Estrada Real. O grupo vai se reunir no município de Santa Bárbara e percorre 58 km até Bom Jesus do Amparo. Durante o descanso, os cavaleiros vão experimentar o feijão tropeiro feito na fazenda Morro Vermelho.

Amanhã, depois do pouso, eles seguem viagem e se encontram com outras comitivas de comunidades rurais a caminho de Itabira. Na frente do Museu do Tropeiro, no distrito de Ipoema, a chegada dos cerca de 2.000 mil cavaleiros será celebrada à moda antiga, como manda a tradição: estalares de chicote e toque de berrante.

A festa continua com a apresentações de grupos culturais, como as Lavadeiras de Ipoema, que representam as cantadeiras que se reuniam nas beiras de riachos para lavar roupas, enquanto entoavam cantigas.

Depois dessa recepção, um ato religioso finaliza os festejos. “Os cavaleiros vão receber a bênção de um padre, evocando a grande religiosidade dos tropeiros originais, que eram muito devotos de Nossa Senhora Aparecida”, conta Madureira.

Exposição. Até amanhã, o Museu do Tropeiro exibe uma mostra com trabalhos de alunos de comunidades rurais que desenvolveram uma linha do tempo, desde a época dos tropeiros até os tempos atuais.
Agenda

O quê. 11ª edição da Semana da Cultura Tropeira

Quando. Até amanhã

Onde. Museu do Tropeiro (travessa Professor Manoel Soares, 217, Ipoema, distrito de Itabira) e outro endereços

Quanto. Entrada gratuita

FONTE: O Tempo.


CÃO DE GUARDA

Os bons companheirosVira-lata acompanha e vigia menino de 2 anos que ficou perdido por 12 horas em mata na zona rural de Bom Jesus do Amparo, na Região Central. “Foi um anjo protetor”, diz mãe

Oreia e o pequeno Luiz, um dia depois de serem achados em mata  a um quilômetro de casa (Tulio Santos/EM/D.A Press)
Oreia e o pequeno Luiz, um dia depois de serem achados em mata a um quilômetro de casa

Bom Jesus do Amparo – O cão é mesmo o melhor amigo do homem – e, principalmente, das crianças. A história do pequeno Luiz Otávio Soares Barcelos, de dois anos e meio, e seu companheiro, o vira-lata “Oreia”, de três, emociona a cidade localizada na Região Central, a 70 quilômetros de Belo Horizonte, e leva um grande alívio à comunidade rural de Três Barras, a pouco mais de meia hora do Centro da cidade. Tudo começou por volta das 18h de segunda-feira, quando, logo depois de chegar cansada da capital e dar um banho caprichado no filho, a dona de casa Mislene Gonzaga Soares, de 24, por um descuido, não viu quando o garotinho desapareceu, como se fosse num passe de mágica. Amigo verdadeiro, Oreia foi atrás. “Foi mesmo um descuido de segundos. Meu filho é muito esperto, a gente tem que ficar de olho, mas ele nunca sumiu assim”, disse, ontem, Mislene, que só teve novamente os filhos nos braços, para muitos beijos e amamentação, às 6h de terça-feira. “Oreia foi um anjo protetor”, definiu ela.

Mais de 30 pessoas da comunidade, além dos bombeiros do município vizinho de Nova União, se embrenharam no mato até que o menino foi encontrado, sem fralda, dormindo tranquilamente numa moita, a mais de um quilômetro de casa. Ao lado, estava o cão protetor e de estimação. Foram 12 horas de tensão, agonia e muitas lágrimas. Desesperada e aflita, Milene caminhou horas no mato com um lanterna. “Logo que saí à procura dele, encontrei a fralda no caminho. Um motoqueiro passou e, ao me ver nervosa, disse que tinha visto um menino correndo em direção ao alto da serra”, recorda-se Mislene. “Então, ouvi a voz de uma criança, mas não consegui encontrar meu filho”, conta com os olhos brilhando.

Ao serem acionados, os bombeiros chegaram e intensificaram as buscas, que vararam a madrugada. “Eu me lembro que, numa certa hora da noite, quando voltei à minha casa, vi Oreia no quintal. Mas logo ele desapareceu no meio da escuridão”, diz Mislene abraçada ao menino, que não desgruda do cachorro nem de um chapeuzinho preto.

Vira-lata acompanha e vigia menino de 2 anos que ficou perdido por 12 horas em mata na zona rural de Bom Jesus do Amparo (Tulio Santos/EM/D.A Press)
Vira-lata acompanha e vigia menino de 2 anos que ficou perdido por 12 horas em mata na zona rural de Bom Jesus do Amparo

Sem ferimentos Luiz Otávio não para quieto um minuto. Quando não está correndo pelo caminho poeirento, próximo à casa, corre atrás ou ao lado de Oreia. “Ele quase não fala, mas é muito esperto”, brinca a mãe, sem esconder o olhar de vigilância sobre o garoto. Ela conta que, ao ser encontrado, o menino foi levado para o hospital de Itabira, a 45 quilômetros de Bom Jesus do Amparo, para exames. “Felizmente, ele não ficou ferido, não tinha nem arranhão. Imagina, passou a noite no mato.”

Na tarde de ontem, o sargento Rafael Alves, do Corpo de Bombeiros de Nova União, esteve na comunidade de Três Barras e reencontrou a família. Pegou Luiz Otávio no colo e ressaltou que a topografia da região é muito acidentada, além de ter animais peçonhentos, como cobras. “Foi uma grande vitória e este menino é o troféu. É uma história com final feliz”. Ele disse que a lua cheia facilitou as buscas.

O nome Oreia, lembrou a mãe, foi dado porque, ao chegar filhote à casa, o vira-lata era magricelo e tinha orelhas enormes. “Aí, ficou o nome.” Os moradores de Bom Jesus do Amparo também comemoraram. “Este caso mostra que o cão é mesmo o melhor amigo do homem. Estamos todos muito satisfeitos”, disse a agente de saúde Jéssica da Mata Oliveira.

FONTE: Estado de Minas.



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