Antequam noveris, a laudando et vituperando abstine. Tutum silentium praemium.

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Há alguns anos, o povo da moda adotou a palavra “fashion”. No Brasil, “fashion” virou sinônimo de coisa moderna e estilosa. E começaram a pipocar frases como: “Nossa, essa sunga branca é tão fashion!” ou “Fashion mesmo é usar sapatênis”.

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Se você acompanha o noticiário gastronômico, certamente tem percebido outro exemplo de apropriação de um estrangeirismo: o da palavra “gourmet”. De alguns anos para cá, prédios não têm mais churrasqueiras na varanda, mas “terraços gourmet”.

Termos como “glutão”, “poço sem fundo” ou “draga” saíram de moda. Agora, qualquer um que trace um gigantesco sanduíche de pernil na saída do Pacaembu merece ser chamado de “gourmet”.

O “gourmet” invadiu nossa vida. Uma revista carioca publicou reportagem sobre os “hambúrgueres gourmet” mais caros da cidade maravilhosa. E tome filé-mignon de boi da raça wagyu, foie gras, cebolinhas caramelizadas, tomates confitados, chutney de manga, compota de bacon e até chantili trufado. O sanduba mais caro custava R$ 395.

A sofisticação não se limita aos hambúrgueres. Que tal uma pastelaria gourmet? Sim, já existem algumas, que trazem inovações como essência de baunilha e recheio de alcachofra.

Quanto tempo vai levar para nossas barracas de pastel introduzirem sommeliers de garapa, para harmonizar as iguarias com o caldo de cana apropriado? “O senhor não quer experimentar, com esse pastel de palmito, um sumo antilhano, safra 2009? Ele tem uma coloração clara e jovial, eu diria até mesmo solar, que passeia entre o herbáceo delicado e uma intensa cremosidade.”

A tendência é que todos os clássicos de nossa comida popular ganhem sua versão “gourmet”: nossas empadas trarão azeitonas Koroneiki, importadas diretamente da Grécia, nossos espetinhos de coração de frango virão em varetas de madeira Mpingo, extraídas de florestas da Tanzânia, e o ovo azul será tingido com milenares técnicas de Batik javanês. Ulalá.

André BarcinskiAndré Barcinski é crítico da “Ilustrada” e diretor e produtor do programa “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”, no Canal Brasil. Escreve às quartas, a cada duas semanas, na versão impressa do caderno “Comida”.FONTE: UOL.



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