Antequam noveris, a laudando et vituperando abstine. Tutum silentium praemium.

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LIBERDADE

Acorrentadas ao passado

Última reportagem da série sobre o universo feminino na prisão mostra o duro retorno delas à sociedade. Dificuldade de conseguir atestado de bons antecedentes, burocracia e preconceito se transformam em uma prisão a mais, mesmo fora das celas

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<p>Luciana (nome fictício), de 27 anos, que foi presa por tráfico, voltou a usar drogas depois de ser solta e hoje luta para retomar a vida e o filho mais velho (Cristina horta/em/d.a press)
%u201C vi que teria que viver com minhas próprias pernas. Eu ia morrer de overdose ou mataria minha mãe. ela não aguentaria passar por tudo de novo%u201D Luciana (nome fictício), de 27 anos, que foi presa por tráfico, voltou a usar drogas depois de ser solta e hoje luta para retomar a vida e o filho mais velho

Presas, condenadas a viver longe da família. Depois de ver de trás das grades parte da existência passar, finalmente chega a hora de colocar o pé fora da cadeia. É o dia mais esperado. É dia de respirar fundo e seguir em frente, com esperança. Elas sonham em reconstruir a família, estudar, trabalhar e, principalmente, não voltar ao crime. Nem sempre é possível. Às vezes, o projeto de futuro é atropelado pela realidade.

Apesar dos obstáculos, o índice de reincidência entre elas é considerado baixo em relação ao dos homens. “No geral, a reincidência da mulher no crime é baixa. Ela só é mais elevada no tráfico de drogas, mas por causa da influência dos companheiros. Sem romper o relacionamento, fica difícil deixarem o submundo”, observa o juiz da Vara de Execuções Penais de Montes Claros, Francisco Lacerda de Figueiredo. No presídio da cidade do Norte de Minas, estatísticas comprovam o baixo retorno delas ao crime: o percentual de reincidência é de 30%, contra taxas superiores a 60% entre os detentos no país.

A secretária-adjunta de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM/PR), Rosângela Rigo, diz que permitir que egressas do sistema prisional tenham oportunidades é o principal desafio. Em Minas, convênios possibilitam a detentas ainda no regime fechado sair da penitenciária sob escolta para trabalhar em horário comercial. Outras, por meio de acordo com a Pastoral Carcerária e uma instituição privada de ensino, conseguem fazer um curso superior gratuito. Todas continuam lutando para que seu passado fique onde deveria ficar: no passado.

Um sonho fora dos muros

Maria de Fátima Souza (nome fictício), de 45 anos, já recebeu até proposta de emprego para quando sair do Presídio Feminino José Abranches Gonçalves, em Ribeirão das Neves, Grande BH. Cumpriu três anos e cinco meses em regime fechado, tempo estipulado pela Justiça, contando a remição por trabalho e estudo. Tinha uma vida estruturada, com emprego e filhos, até ser apresentada ao crack. Já conhecia a cocaína na juventude, mas a pedra a levou aos seus piores dias.A mãe está sempre ao seu lado. Viaja da capital paulista para visitá-la sempre que possível. Mas, entre os demais familiares, são poucos os que sabem do seu paradeiro. Foi no interior de Minas que se envolveu no crime que a levou à prisão. Abriu sua casa para que colegas processassem a droga. A polícia fez o cerco, achou entorpecentes e balança de precisão. “Não sei roubar, matar. Era usuária. Agora estou limpa, totalmente limpa.”Antes de ser presa, Fátima tinha profissão na área de saúde. Na cadeia terminou o ensino médio e trabalhou todos os dias. “Meu foco é a liberdade. E está perto.” Lá fora tem dois filhos, um de 28 anos e uma de 15, namorado e a mãe que a espera ansiosamente. Mas ela não sabe se vai voltar para o interior. Quer tentar a vida em Belo Horizonte. Seu primeiro plano é ajudar outras pessoas. Ainda não sabe como, talvez por meio das entidades religiosas que visitam a cadeia. Quer contar o que passou. “O crack é assim, você não pode dar o primeiro trago. Gastava tudo que ganhava com ele, uns R$ 1.400 por mês.”

Lenta recuperação Drogas, amor, gravidez, morte, prisão. Uma sequência de acontecimentos na vida de Luciana Silva  (nome fictício), de 27 anos, culminou com a pena por tráfico. Começou a se envolver aos 12 anos, no Bairro Tupi, onde morava. Apaixonada, decidiu morar com um dos chefes do esquema de venda de drogas. No sétimo mês de gestação, o companheiro foi assassinado. Ela passou a fazer parte ativa dos “negócios”. O filho ficava mais com a avó materna, a quem hoje chama de mãe. Quando ela foi presa, ele tinha 1 ano.

Na cadeia, Luciana foi apresentada ao inferno: ficou no castigo, tomou remédios, tentou suicídio. Cumpriu um ano e oito meses em regime fechado. Não achava que sair seria tão complicado. “O que ganho hoje em um mês ganhava com o tráfico em um dia. Ressocializar é muito difícil”, reconhece. Saiu em setembro de 2009. Do lado de fora, continuou usando droga, mas procurava emprego. “Não conseguia por causa da passagem. Ainda não tinha criado juízo quando saí da prisão.”

Foi assim até conhecer o atual marido, que também já foi usuário de drogas. Juntos, decidiram mudar. “Caí na real há quatro anos, quando engravidei do segundo filho. Vi que teria que viver com as minhas próprias pernas. Eu ia morrer de overdose ou mataria minha mãe. Ela não aguentaria passar por tudo de novo.” Com ajuda de um amigo, conseguiu emprego em uma empresa de TV por assinatura.

Poucos sabem pelo que ela passou, por isso Luciana prefere se preservar. “Agora sonho em ter minha casa própria, dar uma condição melhor para os meus filhos, que eles sejam homens de bem. Quero ser um exemplo para eles.” Quando esse dia chegar, quer resgatar o filho mais velho. “Minha mãe é a mãe para ele. De um tempo para cá, isso me dói muito, me machuca. Não cobro dele, o erro foi meu, mas ainda sonho em tê-lo comigo.”

Batalha diária Regiane Santos, hoje com 31 anos, tinha 14 quando um homem de 36 entrou em sua vida. Aos 16 estava grávida e envolvida no tráfico. Queria sair, mas tinha medo. Tentou se separar e não conseguiu. Tinha o segundo filho quando foi presa, em 2006. Longe da família e dos filhos pequenos, entrou em depressão. “Até hoje tenho dificuldade para dormir. Tomava sete remédios por dia.” Foi condenada a oito anos e oito meses de prisão, dois anos e sete meses em regime fechado. Sonhava com a liberdade. Agora, anos depois, mesmo fora da cadeia se frustra com a tal liberdade, tão difícil de alcançar.

Em 2010 começou a cumprir pena em domicílio. “Mas é assim: Não posso viajar, tenho horário para chegar em casa, é tudo dentro da regra.” A cada dois meses vai ao Tribunal de Justiça assinar um termo comprovando que “anda na linha”. Ainda na penitenciária, ganhou uma bolsa para estudar em uma instituição de ensino superior de BH. Cursa direito, sem a expectativa de advogar assim que concluir a graduação, no fim deste semestre. “Só estarei livre mesmo em 2016. Em parte não me sinto livre. A ressocialização é muito difícil e até contraditória. Não posso prestar concurso público, nem fazer a prova da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), por exemplo. É uma luta que não tem fim, até que tenha sua ficha totalmente limpa.”

Regiane distribuiu currículos, mas esbarrava na falta do documento de bons antecedentes. Trabalhou dois anos como cobradora em ônibus, mas os horários por vezes confusos a fizeram optar pela faculdade. Tentou estágios, sem sucesso. Cansada, agora vende produtos de beleza de porta em porta. “Queria que não houvesse preconceito, mas cheguei até aqui e agora quero servir de exemplo. Lá dentro a gente só pensa em sair, mas aqui fora é uma luta diária pela sobrevivência.”

FONTE: Estado de Minas.

ELAS NA CADEIA

Um muro chamado distância

Na terceira reportagem sobre o universo feminino na prisão, o EM revela que detentas recolhidas em unidades longe de suas cidades perdem vínculos com parentes, que não têm condições financeiras de visitá-las

Luciene Guimarães e os livros de química e biologia: sonho de se tornar oncologista para ajudar crianças
Luciene Guimarães e os livros de química e biologia: sonho de se tornar oncologista para ajudar crianças

Enfrentar a dura rotina da prisão, a saudade, a solidão e o abandono é apenas parte da pena cumprida por detentas espalhadas pelos presídios do interior de Minas. Para muitas, levadas para unidades longe de sua cidade natal, a distância é mais um muro que se ergue entre elas e filhos, maridos, parentes e amigos trancados do lado de fora. A falta de recursos das famílias para o deslocamento que as visitas exigem as condena a um cotidiano ainda mais solitário. Muitas já deixaram de esperar reconhecer um rosto entre os visitantes dos domingos; outras dizem entender a dificuldade dos familiares; todas sofrem com o isolamento imposto pelo crime pelo qual foram condenadas – ainda que muitas jurem inocência.

Na prisão, receber visita, além de matar a saudade, significa uma chance de contato com o mundo exterior. Uma oportunidade negada a muitas das internas de unidades como o Presídio do Bairro Alvorada, em Montes Claros, cuja ala feminina conta com 56 presas, a maioria (80%) envolvida com o tráfico de drogas. A unidade recebe mulheres de diversas partes do Norte de Minas, diante da falta de unidades femininas em outras cidades da região. Atualmente, 13 delas têm esse perfil. Entre todas, 98% são mães, mas menos de 5% preservam relacionamentos fixos. Somente três recebem visitas íntimas.

O dia de visitação é diferenciado na cadeia. Nele, as detentas acordam cedo, tomam banho e cuidam bem do visual, na expectativa de um abraço, um alimento diferente do cardápio da cadeia ou coisas simples para quem está do lado de fora, como produtos de higiene pessoal. Mas, no caso de internas como Cláudia de Jesus, condenada por envolvimento em latrocínio (roubo seguido de morte), domingo é data como outra data qualquer. Desde que chegou ao presídio de Montes Claros, há cinco meses, ela nunca recebeu ninguém. Quase um semestre sem contato com os três filhos, de 13, 14 e 16 anos. “No início, a gente estranha, mas acaba aceitando. Tenho que sair daqui com a cabeça erguida e não voltar mais para o mundo do crime”, afirma ela, cuja família é de Janaúba, a 130 quilômetros de Montes Claros.

Ex-garota de programa, ela cumpre condenação de 20 anos em regime fechado. Inicialmente, ficou presa seis anos nas cadeias de Itabira (onde o crime foi cometido) e de Rio Piracicaba, no Vale do Aço. Nessa última, conta, recebeu a visita da mãe uma única vez. “Vim para cá exatamente para ficar mais perto da minha família”, diz a mulher, que garante ter sido “envolvida no crime”, de forma alheia à sua vontade. “O problema foi que entrei em um carro com um cara que chamou a gente para tomar cerveja. O dono do carro tinha sido morto momentos antes”, afirma. Em Montes Claros, o único consolo é a permissão para, uma vez por mês, telefonar para um parente, com acompanhamento do Serviço de Assistência Social. “Fico muito feliz de pelo menos ouvir a voz de alguém da família.”

Da cela para a medicina

Luciene Guimarães tem 23 anos. Maior que a idade é sua pena: 26 anos de reclusão por coautoria em um latrocínio. No presídio de Montes Claros, é outra a sofrer com a falta de visitas dos familiares, que moram em Brasília de Minas, a 100 quilômetros de distância. Em quase quatro anos, foram raras as vezes que recebeu alguém. “No dia da visita, quando a agente (penitenciária) chega e anuncia que alguém veio me ver, fico até surpresa”, confessa. Luciene só recebe visitas de uma irmã, mas faz mais de dois meses que ela não aparece. “Antes, eu sempre esperava alguém. Agora não espero mais”, afirma a mulher, que reconhece as dificuldades da família.A saudade maior é do único filho, Plínio, de 7 anos, que mora com a avó. Desde que foi detida, só o viu uma vez. A dor de mãe, Luciene procura compensar dedicando-se aos estudos. Tenta usá-los para retomar a cidadania e um sonho de criança: quer ser médica. Não qualquer médica: oncologista. Quer salvar crianças, como o irmão de 5 anos, que viu morrer vítima de leucemia. Quando foi presa, tinha parado de estudar na sexta série. Na cadeia concluiu o supletivo do ensino fundamental e conseguiu o diploma do ensino médio. Agora, além de trabalhar na oficina de artesanato, dedica maior tempo à leitura de livros de biologia e química. “O sonho de fazer medicina eu tinha desde criança e achei que tinha morrido, mas, na verdade, estava apenas adormecido.” Pelos cálculos dela, em quatro anos, com a progressão de pena, deve passar para o regime semiaberto e poderá deixar a cadeia para estudar.A detenta que sonha ser médica tem consciência de que vai enfrentar preconceito, mas garante que está pronta. “Sei que algumas pessoas poderão virar as costas para mim, mas isso não vai fazer diferença. Acredito que serei capaz de driblar o preconceito. Não vou entrar numa universidade para sair matando as pessoas. Quero realmente o melhor para a minha família, especialmente para o meu filho.”

UNIDAS NO SOFRIMENTO Apesar da solidão experimentada pelas detentas que cumprem pena no interior, estar perto de parentes pode não ser exatamente um consolo. Que o diga Sheila Rodrigues, de 23 anos. Desde que chegou ao Presídio do Alvorada, em Montes Claros, ela tem contato apenas com uma pessoa da família: a mãe, Cícera, de 58. Mas isso não ocorre no momento de visita: mãe e filha estão presas por tráfico e dividem a cela. Elas são de Várzea da Palma, a 210 quilômetros de Montes Claros.

Sheila foi presa em 26 de dezembro de 2012. Quarenta e dois dias depois, foi transferida para Montes Claros, diante da falta de unidade feminina em sua cidade. Foi condenada a nove anos e seis meses de reclusão. De acordo com a polícia, a filha assumiu no tráfico o posto da mãe, que havia sido presa dois anos antes. Ela, porém, nega a venda de entorpecentes. Alega que quem traficava era o ex-marido, que a abandonou depois que foi levada para a prisão.

Assim como as demais detentas de outros municípios, Sheila reclama que, em mais de um ano na prisão de Montes Claros, além de não receber visitas, sofre com a distância dos quatro filhos, que ficaram com parentes em sua cidade. A dor maior é a saudade do caçula, Yago. Ela conta que quando foi presa, amamentava a criança, então com 4 meses. “Tive que parar de amamentar. Ele ficou com minha sogra. Depois que vim pra cá, só recebi fotos do meu filho uma vez”, diz a detenta. Dele, agora pouco sabe: “Só sei que está com 1 ano e alguma coisa”, afirma.

Sheila disse que seu atual companheiro, Tiago, pai de Yago, que trabalha como vigilante em Várzea da Palma, ainda não a visitou em Montes Claros. Mas ela relata que, uma vez, por mês, fala com ele pelo telefone, em ligações limitadas a 10 minutos. Contatos também são mantidos por carta. Apesar da falta de visitas, a mulher assegura que o companheiro nunca deixou de apoiá-la. “Ele sempre manda cartas, dizendo que acredita em mim. Pede para eu mudar de vida e diz que vai me ajudar a ser outra pessoa, a não mais mexer com esse ‘trem’ (a droga)”.

Além de dividirem a cela, mãe e filha freqüentam aulas da alfabetização de adultos na prisão. Atualmente, estão na quarta série do ensino fundamental. Também trabalham em uma oficina de artesanato. Cícera, a mãe, foi presa em 15 de julho de 2010 por vender drogas na casa simples da família, em Várzea da Palma. Alega que entrou no mundo do tráfico por pobreza e necessidade. Condenada a oito anos e dois meses de prisão, foi transferida para Montes Claros em dezembro de 2011. Sem  visitas, ficou mais de um ano sem ver ninguém da família. Até que a filha chegou para também cumprir pena, em fevereiro do ano passado.

Veja também a parte I e a parte II.
FONTE: Estado de Minas.


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