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Faltam ações públicas para facilitar a vida dos daltônicos

Com dificuldade para perceber os tons de determinada cor, daltônicos acabam confundindo uma com outra. Situação traz constrangimento, especialmente quando o assunto é trabalho, mas pode ser superada

'A maior dificuldade que sinto é no trabalho, quando o atendimento é dividido por cor. No caso de um hospital, o grau de emergência é identificado pelas cores azul, branco, verde e amarelo. Muitas vezes, confundo as cores, as tonalidades. Aí preciso pedir ajuda', Felipe Lopes, 30 anos, enfermeiro (com esposa e filho) (Arquivo pessoal)

“A maior dificuldade que sinto é no trabalho, quando o atendimento é dividido por cor. No caso de um hospital, o grau de emergência é identificado pelas cores azul, branco, verde e amarelo. Muitas vezes, confundo as cores, as tonalidades. Aí preciso pedir ajuda”, Felipe Lopes, 30 anos, enfermeiro (com esposa e filho)
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A recente implantação de políticas públicas de acessibilidade no país tem tornado menos difícil a vida daqueles que não podem ver, ouvir, falar ou andar. Neste quadro, uma parcela significativa da população parece, ainda, ser ignorada. Visto menos como deficiência e mais como condição, o daltonismo atinge cerca de 8% da população mundial, sendo a maioria homens.

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Quem tem o problema, lida constantemente com a dificuldade em distinguir as cores do semáforo, o embaraço na hora de escolher um assento no cinema, no ônibus ou avião, se atrapalha ao preencher formulários online (que destacam campos em vermelho) ou ao optar por qualquer coisa que tenha cor. E, apesar da maioria dos problemas indicarem uma solução simples, não existe ainda nenhum tipo de ação pública com objetivo de facilitar a vida dos daltônicos.
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Em 2013, a senadora Ana Amélia (PP-RS) propôs um projeto de lei que estabelece formatos diferentes para os focos luminosos dos semáforos. Se aprovado, a luz vermelha dos sinais terá o formato quadrado, a amarela triangular e a verde circular. O que poderia ser uma boa notícia para os portadores da condição é, na realidade, um desalento. O projeto da senadora é muito parecido com outro, proposto em 2009 pelo então deputado Fernando Gabeira, que acabou arquivado.
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Mas as dificuldades do daltônico vão além da distinção das cores do semáforo. Muitas vezes, a discromatopsia influencia diretamente a profissão e a rotina do portador. É o caso do enfermeiro Filipe Lopes, de 30 anos, que teve que se adaptar ao seu modo à condição.
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Fernando Gentil, de 25 anos, tem daltonismo leve, nunca diagnosticado por um oftalmologista (Fernando Gentil: Arquivo pessoal<br />
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Fernando Gentil, de 25 anos, tem daltonismo leve, nunca diagnosticado por um oftalmologista

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Filipe descobriu o daltonismo quando tinha cerca de 6 anos e, na escola, coloria as árvores de laranja e a grama de vermelho. “Lembro-me também da primeira vez em que viajei sozinho. Tinha uns 17, comprei uma camisa azul e era rosa, uma cinza e era rosa, uma rosa e achei que era cinza”, conta, rindo. Para essas situações ele acha graça, como no dia em que escolheu um cortador de unhas para o filho, Mauro, recém-nascido, e comprou rosa achando que era azul. .
O quadro muda quando o assunto é trabalho. Filipe é enfermeiro e em alguns hospitais os pacientes usam uma pulseira colorida, que identifica o tipo de atendimento que deve ser dado pelo profissional de saúde.
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ATENDIMENTO 
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“A maior dificuldade que sinto é no trabalho, quando o atendimento é dividido por cor. No caso de um hospital, o grau de emergência é identificado pelas cores azul, branco, verde e amarelo. Muitas vezes confundo as cores, as tonalidades. Aí preciso pedir ajuda”, revela. Na maioria das vezes, Filipe conta com a solidariedade e a boa vontade dos colegas de trabalho e do próprio paciente, já que, por enquanto, a diferenciação por cor é a única alternativa encontrada pelos hospitais para identificar as pulseiras.
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Segundo o oftalmologista e vice-presidente do Departamento de Oftalmologia da Associação Médica de Minas Gerais, Luiz Carlos Molinari, não existe, de fato, qualquer tipo de política pública de saúde ou educação no Brasil para a discromatopsia ou daltonismo. Para o médico, o defeito pode ter implicações diretas no processo de ensino-aprendizagem e, por isso, espera-se que professores do ensino fundamental sejam capacitados para identificar prováveis alunos com defeito de visão cromática. Estudo publicado na revista Physis, em 2014, mostrou relatos de desconforto, vergonha e ansiedade no ambiente escolar por parte de portadores de discromatopsia.

Ana Furtado: 'Tomei muita bomba nos desenhos e nas aulas de geografia' (Ana Furtado: Reprodução/Facebook<br />
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Ana Furtado: “Tomei muita bomba nos desenhos e nas aulas de geografia”

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Recentemente, a apresentadora Ana Furtado disse, em um programa de entrevistas, que na escola tomou “muita bomba nos desenhos e nas aulas de geografia”. Ela relatou que, até descobrir o daltonismo, tinha de ouvir das pessoas que “sofria de doença psicológica”. “Quando era pequena, coloria a maçã de rosa, a folha de marrom, o caule de verde, e diziam que eu tinha problema psicológico. Por acaso, descobri (o daltonismo) em uma visita ao oftalmologista”, conta.
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Para Luiz Carlos Molinari, a falta de preparo dos professores pode gerar situações vexatórias, assim como ocorreu com a apresentadora na infância. Para agravar o quadro, Ana faz parte de uma população ainda mais restrita, já que o daltonismo acomete cerca de 0,4% a 0,7% de todas as mulheres do mundo, enquanto nos homens o índice da condição é de 8%.
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Ausência de cones na retina
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Discromatopsia é um termo usado para designar qualquer tipo de defeito de visão de cores. A expressão daltonismo é popularmente usada como sinônimo de discromatopsia, em referência ao químico John Dalton, o primeiro cientista a estudar a anomalia de que ele mesmo era portador. Dalton tinha protanopia, quando há ausência na retina de cones vermelhos. Há ainda a deuteranopia (ausência de cones verdes) e a tritanopia (ausência de cones azuis). O que ocorre nos três tipos, geralmente, não é uma deficiência total.
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O coordenador de projetos sociais e direitos humanos, Fernando Gentil, de 25 anos, tem daltonismo leve, nunca diagnosticado por um oftalmologista, mas diz que, desde que se entende por gente, tem dificuldade em identificar cores. Apesar disso, diz sofrer pouco com o problema.

Wilkins Delmaschio: 'Confundo as cores de tom para tom. Como cinza com verde, roxo com marinho, verde com marrom...' (Wilkins Delmaschio: Reprodução/Facebook)

Wilkins Delmaschio: “Confundo as cores de tom para tom. Como cinza com verde, roxo com marinho, verde com marrom…”

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“Quando tenho que criar uma arte de um convite ou banner, às vezes a escolha de cores não fica legal. Na combinação de roupas também, mas nunca confundi as luzes do semáforo, por exemplo. Então, não são coisas muito graves ou problemáticas. É algo que você resolve rapidamente pedindo a opinião de outrem”, explica.

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O bancário Wilkins Delmaschio, de 50, também mistura algumas tonalidades, mas não acha que o problema interfira muito em sua vida. “O meu grau é baixo. Confundo as cores de tom para tom. Como cinza com verde, roxo com marinho, verde com marrom…”, diz.
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TESTE 
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Independentemente do grau e do tipo de daltonismo, a indicação dos oftalmologistas é que o problema seja identificado ainda na infância, a fim de que o portador entenda, desde cedo, sua dificuldade e crie os próprios meios para conviver com a condição. Um dos testes mais comuns utilizados para fazer o diagnóstico do daltonismo é o de Ishihara, que consiste numa sequência de cartões com ruído de fundo, em múltiplas tonalidades, dentro das quais há uma figura, normalmente uma letra ou algarismo, facilmente reconhecido por uma pessoa normal, mas não por um daltônico. Atualmente, não existe nenhum tipo de tratamento para o daltonismo.

Teste Ishihara (Teste Ishihara: Reprodução/Internet<br />
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Teste Ishihara
Teste Ishihara (Ishihara_9: Wikimedia/Reprodução<br />
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Teste Ishihara

FONTE: Estado de Minas.


Nova fórmula para levar à mesa

Pirâmide alimentar é redesenhada com o objetivo de melhorar a qualidade da dieta dos brasileiros. Nutrólogo mineiro, Enio Cardillo Vieira questiona valor dado ao feijão, que deveria estar na base

Nutrólogo Enio Cardillo alerta para consumo excessivo de batata e carne  (Beto Novaes/EM/D.A Press )
Nutrólogo Enio Cardillo alerta para consumo excessivo de batata e carne

Arroz, feijão, carne e salada. O prato presente na mesa de milhões de brasileiros é alardeado por especialistas há anos como uma combinação das mais saudáveis à mesa. Mas esse cardápio tem mudado, e para pior. A população está obesa, ainda que não seja responsabilidade só do que se consome (incluem-se aí o sedentarismo, o estilo de vida, o hábito alimentar e a atividade física), e o fast food assume importância indesejável.

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No Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicou, em 2010,  dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2008/2009) indicando que o peso dos brasileiros aumentou nos últimos anos, devido à alimentação inadequada.
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O excesso de peso em homens adultos saltou de 18,5% para 50,1% – ou seja, metade dos homens já estava acima do peso – e ultrapassou o excesso em mulheres, que foi de 28,7% para 48%.  Para resgatar a importância da boa alimentação e na tentativa de aproximar a informação, a pirâmide alimentar adaptada à população brasileira publicada em 1999 foi redesenhada para o modelo atual com 2.000 quilocalorias (kcal), atendendo a recomendação energética média diária para o brasileiro estabelecida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
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Assim, no desenho atual, os alimentos estão distribuídos em oito grupos e em quatro níveis, de acordo com o nutriente que mais se destaca na sua composição. Para cada grupo são estabelecidos valores energéticos, fixados em função da dieta e das quantidades dos alimentos, permitindo estabelecer os equivalentes em energia (kcal). Outra orientação é o planejamento das refeições conforme os grupos de alimentos. A alimentação deve ser composta por quatro a seis refeições diárias, distribuídas em três principais (café da manhã, almoço, jantar), com 15% a 35% das recomendações diárias de energia, e em até três lanches intermediários (manhã, tarde e noite), com 5% a 15% das recomendações diárias de energia.

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A pirâmide alimentar foi redesenhada com o objetivo de melhorar a qualidade da dieta dos brasileiros, já que ela é o instrumento mais usado no país para nortear qualitativa e quantitativamente o padrão alimentar da população. A pesquisadora Sonia Tucunduva Philippi, do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, elaborou e publicou o primeiro trabalho sobre essa pirâmide adaptada e colaborou com o Ministério da Saúde no desenvolvimento do Guia alimentar brasileiro com os cálculos do número de porções e valor energético médio de cada uma delas, para todos os grupos alimentares e para uma dieta de 2.000 kcal. O trabalho foi apresentado no V Congresso Brasileiro de Nutrição Integrada (CBNI). “A refeição é um momento de prazer e as boas escolhas alimentares devem ser levadas em conta. Não basta falar, é preciso orientar, auxiliar e levar a informação para a população.”

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REGIONAL VALORIZADO

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Sonia Philippi explica que nessa mudança a preocupação foi destacar os alimentos integrais e regionais. A proposta é que sejam mais  aproveitados. “Como o hábito regional não muda rapidamente, o esforço é resgatar o bom hábito alimentar. É preciso valorizá-lo a todo momento e, por isso, é interessante torná-lo mais próximo. Então, valoriza-se, por exemplo, as frutas do Nordeste, ou o maior consumo de leite, iogurte e queijo nas regiões que têm problema de cálcio entre seus habitantes. Ou sugere-se o consumo dos doces de Minas em menor quantidade”, explica.

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Na nova pirâmide podem-se valorizar alimentos como iogurte, leite e queijo, ricos na culinária mineira e fonte de cálcio. Segundo o Ministério da Saúde, o brasileiro deve ingerir diariamente três porções de lácteos ao dia para obter a recomendação diária desse nutriente. Dados da Secretaria de Estado de Saúde de Minas mostram que, na faixa de 10 a 19 anos, 13,8% dos mineiros tinham o índice de massa corporal (IMC) acima do recomendado. Em 2012, eram 15,1%. No Brasil, de acordo com o último Vigitel – pesquisa do Ministério da Saúde feita por inquérito telefônico –, 21,7% dos meninos e 19% das meninas estavam acima do peso em 2008/2009.

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“Quanto mais capim comemos, melhor”

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Com experiência de sobra, o nutrólogo mineiro Enio Cardillo Vieira usa com seus pacientes a pirâmide alimentar do laboratório americano Mayo, um dos mais respeitados do mundo. Em relação à brasileira redesenhada, ele destaca a inversão do carboidrato (arroz, pão, massa, batata, mandioca) com as frutas e hortaliças (legumes e verduras). “Quanto mais capim comemos, melhor. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda cinco porções de uma combinação de frutas e hortaliças. E é importante saber que uma porção é um punho cerrado ou uma mão cheia. Uma laranja, uma maçã, uma mão cheia de couve. O que não se deve é abusar do produto animal. Mas a pirâmide brasileira está correta, não tem grande novidade, a não ser nos detalhes”, diz.

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Com o carboidrato na base da pirâmide brasileira, Cardillo lembra que é preciso ter cuidado com o consumo da batata. “Ela tem o índice glicêmico elevado porque a absorção da glicose é mais rápida que qualquer outro alimento. É contraindicada para quem tem diabetes. Walter Willett, da Universidade de Harvard, desenvolveu um estudo provando que grande parte da obesidade na população é pelo consumo em excesso da batata”, aponta.

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O médico gosta da ideia de regionalização, mas faz uma ressalva: “É importante e lúcido incentivar o consumo de cupuaçu e graviola no Amazonas ou do feijão-de-corda no Nordeste. Mas não se pode perder o óbvio de vista, que o espírito da pirâmide é atender o ser humano, que é um só”.

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Em acordo está o perigo da gordura, que precisa ser consumida cada vez menos. Ela é o maior vilão da alimentação. “Os alimentos que mais contribuem com as calorias são carboidratos, carnes e laticínios, além dos doces e do óleo. A gordura é a mais calórica, tem 9 calorias por grama. Deve ser evitada. É epidemiológica por acarretar alto índice de obesidade”, alerta Cardillo.

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SUBSIDIAR

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Apesar de achar a pirâmide alimentar brasileira sensata, o nutrólogo discorda de um ponto importante. “O feijão no terceiro andar tinha de estar na base. Cereais como arroz, centeio e trigo têm deficiência de aminoácido essencial ao organismo e que precisa ser obtido da dieta. As leguminosas, como feijão, ervilha, lentilha, são ricas em lisina. Portanto, arroz com feijão é a complementação perfeita, um ajuda o outro”.

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Ele reforça que essa combinação, consagrada no Brasil, tem sua versão espalhada pelo mundo. “No México e na América Central é o milho com feijão. Na África, lentilha mais o sorgo. Em determinados países árabes, o trigo mais o grão de bico. No extremo Oriente, o arroz se junta à soja. Essa mistura é das mais saudáveis. Inclusive, o professor Dutra Oliveira, um pesquisador em nutrição, médico e professor aposentado da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, autoridade máxima em nutrição no Brasil, propôs ao governo brasileiro subsidiar o arroz e o feijão. Os produtos ficariam mais baratos e o povo mais nutrido. Mas ninguém se interessou”, lamenta Cardillo.

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FONTES: Estado de Minas e Dieta e Saúde.



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