Antequam noveris, a laudando et vituperando abstine. Tutum silentium praemium.

Arquivo da tag: curiosidades

Conheça o fazendeiro que fundou a cidade de Pintópolis

Saiba a história do fazendeiro que concebeu a segunda cidade planejada de Minas Gerais, a exemplo de BH, dividindo terras, projetando ruas, erguendo igreja e contratando professores

Paulo Filgueiras/EM/D.A Press

.

Pintópolis – Germano Pinto, um sertanejo do Norte de Minas que já foi dono de um extenso pedaço de cerrado a poucas léguas do Rio São Francisco, gosta de ouvir causos e, sobretudo, contar a própria história. Tão pitoresca quanto verídica. Corria o mês de agosto de 1964 quando ele, um pecuarista então com 40 anos de idade, decidiu transformar a Fazenda Riacho Fundo na única cidade planejada do interior de Minas.
.
Foi assim que o curral e o pasto deram lugar a praças, igreja, escolas e a um manso comércio. A história de Pintópolis – cujo nome curioso é homenagem ao sobrenome de família – começa quase 70 anos depois da inauguração de Belo Horizonte, até então o único município planejado no estado, construído pela comissão chefiada pelo engenheiro e urbanista Aarão Reis (1853-1936), e inaugurado em dezembro de 1897, sucedendo Ouro Preto como capital de Minas Gerais.
.
Já o traçado de Pintópolis nasceu do sonho de um homem sem diploma de curso superior, que pretendia proporcionar uma vida melhor a famílias carentes do Norte do estado. O lugar foi povoado a 650 quilômetros da Praça Sete, entre a Serra das Araras e o leito do Velho Chico, onde a estiagem predomina na maior parte do ano. “Quando cheguei (aos 30 anos de idade), era só mato. Não tinha estrada. Nem casa. Vim ‘de a pé’ mesmo. Dez anos depois, eu quis transformar a fazenda em cidade”, recorda Germano, hoje com 90 anos.
.
Natural de Mocambo, um povoado da vizinha São Francisco, Germano passa boa parte do dia na companhia de familiares – viúvo, ele teve 11 filhos, 49 netos e “um tanto” de bisnetos, como contabiliza. O sertanejo sempre tem tempo para uma prosa com amigos, principalmente quando o assunto é a fundação do município. Afinal, como ressalta, foi uma tarefa difícil.
.
Vídeo: fazendeiro conta história da criação da cidade


Primeiro, o homem acostumado na lida com o gado rabiscou num papel uma linha reta. Era o esboço do que seria a avenida principal, batizada com o nome do fundador. Ele sabia que um dia ia ouvir o barulho de automóveis no lugar onde antigamente só passavam carros puxados por juntas de garrotes. Hoje, a frota do município é de 1.186 veículos.
.
Naquele mesmo “mapa”, o sertanejo desenhou um quadrado. Era o lugar da capela em homenagem a Nossa Senhora da Abadia. “Vendi 10 novilhas, um garrote e um cavalo para construir a igreja. Depois, chamei um padre.” O fazendeiro também pensou em uma praça com palmeiras. As mudas cresceram, e hoje podem ser vistas de qualquer ponto da avenida.
.
Para iniciar o povoamento, Germano doou lotes. “Também vendi uns, por preço bem em conta. Negociei até fiado”, recorda-se. À medida que a população aumentava, o fundador fatiava a fazenda. Resultado: surgiram mais vias, quarteirões, e o comércio cresceu “um cadinho”. Para garantir a educação dos filhos de quem chegava, foi preciso contratar professoras.

Paulo Filgueiras/EM/D.A Press

.
DELEGADO, JUIZ DE PAZ, VEREADOR Mas alguém ainda precisava garantir a segurança pública. Foi assim que Germano, fazendeiro, fundador, espécie de prefeito, virou delegado – naquela época, cargo que não exigia concurso público ou graduação em direito. A cadeia improvisada funcionava no lote de sua própria casa. Depois, também foi o juiz de paz. E por duas vezes foi eleito vereador. Hoje, o prefeito é um de seus netos.
.
Germano tem orgulho do lugar. Ele mora em frente à praça das palmeiras, onde fica uma das imagens do Cristo Redentor – outra foi erguida na entrada do município. Da calçada, o fundador observa o vaivém de gente. O censo de 2010, o último divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), informa que 7.211 pessoas moravam na cidade – 3.778 homens e 3.443 mulheres.
.
Para quem acha que se trata de qualquer cidadezinha, a extensão territorial é de 1.243 quilômetros quadrados, quase quatro vezes mais que a área de Belo Horizonte (332 quilômetros quadrados). Por outro lado, a densidade demográfica (5,8 habitantes por km2) nem chega perto da registrada na capital (7.157 habitantes por km2).

Pintópolis foi “desenhada” por Germano em 29 de agosto de 1964 – acaba de completou 51 anos. Primeiro, foi povoado do município de Urucuia. Era chamado de Riacho Fundo, em alusão à fazenda original. Em dezembro de 1995, se emancipou e teve o nome alterado para Pintópolis, em homenagem à família do fundador.
.
Houve quem defendesse o batismo como Noroeste de Minas. Outros sugeriram Germanópolis, o que também seria uma homenagem ao fundador. Mas o sertanejo, dono de um coração tão bom a ponto de doar suas terras a pessoas que não conhecia, explica que Pintópolis é uma homenagem mais ampla, pois alcança todos os seus familiares.

.

FONTE: Estado de Minas.


Rei do Mocotó completa meio século e tem história registrada em livro

Nonô do Mocotó
A fortificante e gelatinosa sopinha extraída da pata do boi é receita típica brasileira
Parar na avenida Amazonas ou na rua Tupis e pedir, do balcão mesmo, um caldo de mocotó quente com dois ovinhos de codorna estalados no fundo. Pão crocante acompanha. Cebolinha fresca picadinha para o acabamento. Há 50 anos, este “cerimonial sem cerimônia” é repetido em BH pelos fregueses de um dos estabelecimentos mais tradicionais do Centro. Parte de uma história contada pelo livro “Nonô: O Rei do Caldo de Mocotó: 50 Anos de Tradição” (Escritório de Histórias), que será lançado nesta quinta-feira (13), a partir das 19 horas, na Academia Mineira de Letras (rua da Bahia, 1.466).
A fome, ali, é saciada por cerca de R$ 7. No fundo da caneca de cerâmica, os clientes aproveitam os pedacinhos bem cozidos de “barranquinho”, “trupico”, “melequinha”, ou melhor, do colágeno das cartilagens do boi. “É a ‘sustança’”, passa a sua versão de “nome do alimento”, o pintor Elder Elias Rosa, 45 anos, acompanhado da esposa e companheira de caneca, a auxiliar de serviços Elaine Cristina Gomes, 42. Há 20 anos Elias está no rol dos clientes assíduos.
O ritual popular acontece de segunda a sábado, 24 horas por dia. Alguns habitués, mais animados, depois do “calorão” promovido pelo caldo, pedem para descer a cerveja preta gelada para rebater. Pelo menos 4.800 latinhas são consumidas por mês. Um dos maiores vendedores de cerveja preta do Brasil.
Mas o forte do boteco é a fortificante e gelatinosa sopinha extraída da pata do boi. São 900 porções por dia. No frio, passa de 1.300/dia. Só de Cebolinha são 500 molhos por semana. E os proprietários ainda contam com uma “picadora” e “higienizadora” de cebolinha terceirizada. É coisa para encardir.
A receita típica da culinária brasileira, da época dos escravos, foi aprimorada pelo fundador do bar juntamente com a mulher dele. Trata-se do comerciante Raimundo de Assis Corrêa, o “Nonô”, que morreu em 1973. Hoje, cinco dos dez filhos do casal – os chamados “cinco Nonôs” – tocam o empreendimento.
Cubículo
No corredor de pouco mais de 40 metros quadrados tudo é milimetricamente distribuído. Aproveitamento de espaço de dar inveja a arquiteto japonês. A escadinha para subir para a cozinha do segundo andar, igualmente pequena, vai para um lado e para o outro, conforme a necessidade dos funcionários. O vendedor de loteria passa por ali.
O hippie com um gigante mostruário forrado de pano preto cravejado de pulseirinhas de couro também marca presença. “Não tem problema”, diz um dos “Nonôs”, o filho caçula, Dênio Gabriel Corrêa, 47 anos.
Lá em cima, tudo é apertadinho também, mas organizado. Grandes panelas de pressão a mil por hora cozinham os mocotós, as línguas de boi – outra iguaria – e os caldos propriamente ditos. Mais “sustança” para o povo.
Livro não entrega a receita, mas tem história de vida
Mas e a tal receita do famoso caldo de mocotó? “O mocotó é cozido, depois, adicionam-se os temperos no caldo. Aí, não posso falar mais”, desconversa o caçula Dênio Corrêa, rindo. “Eu sei fazer caldo de mocotó. Mas igual a este não fica. Queria saber, mas eles não dão a senha”, lamenta, por sua vez, o pintor Elder Elias Rosa. Ao leitor, um aviso: o livro que será lançado nesta quinta-feira (13) também não revela o segredo.
Mas proporciona o conhecimento de uma bela história de vida de um empreendedor mineiro, ex-funcionário da Mina de Morro Velho, em Raposos, quando esta ainda era distrito de Nova Lima.
Nonô, juntamente com a esposa Alaydes Corrêa, focou num produto e fez fama com ele. “Ela (Alaydes) era a responsável por limpar e cortar o pé do boi para que ele pudesse ser cozido”, rememora o livro.
Nonô, então já na região do Barreiro, e sempre com a família, comercializava alimentos para operários da Companhia Siderúrgica Mannesmann, atual Vallourec.
O “pulo do gato” aconteceu em 1963. Na época, Nonô relatou seu trabalho informal a um ex-prefeito de Belo Horizonte, que lhe concedeu autorização para que utilizasse uma pequena área, de quatro metros quadrados, próxima à portaria da siderúrgica, para fixar seu comércio.
A dica para comercializar o caldo de mocotó surgiu no ano seguinte, por meio de um cliente.
“Nonô gostou da ideia e, como um alquimista que prepara sua porção mágica, cozinhou várias vezes até considerar que estava no ponto ideal para ser servido aos fregueses”, relata o livro.
Estava adaptada a “sustança” aos operários da siderúrgica. Um prato que até hoje faz sucesso – agora, para os funcionários públicos, pintores, jornalistas, faxineiras, torcedores de times de futebol antes do jogo, hippies e vendedores de loterias do Centro de BH.
FONTE: Hoje Em Dia.


%d blogueiros gostam disto: