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Sem valor, dinheiro venezuelano vira artesanato

A hiperinflação leva os cidadãos a usar os bolívares para confeccionar bolsas, carteiras e obras de arte

Quando o sol começa a se pôr na cidade colombiana de Cúcuta, Jesus Campos e sua esposa Gabriela Crespo saem de sua humilde casa com várias bolsas penduradas no pescoço. O casal venezuelano percorre um mercado local e uma praça pública na tentativa de vender bolsas e carteiras coloridas, costuradas cuidadosamente ao longo do dia.

Mas não são acessórios comuns: cada uma é composta por 800 notas de bolívares venezuelanos, dobrados e entrelaçados para formar uma avantajada bolsa retangular. Cada carteira é feita com 200 notas do dinheiro cada vez mais desvalorizado da Venezuela.

Campos afirma que as notas de bolívares usadas para confeccionar uma única bolsa não seriam suficientes para comprar uma garrafa de refrigerante na Venezuela.

Na Colômbia, ele vende suas bolsas grandes por aproximadamente 10 dólares, o suficiente para comprar um quilo de carne, um pedaço de pão, alguns vegetais e a garrafa de refrigerante que não poderia adquirir em sua terra natal.

“Às vezes, as pessoas me perguntam se as bolsas são feitas com cópias de bolívares”, diz Campos, enquanto segura uma delas na mão. “Mas isso não seria lucrativo. É mais barato usar as próprias notas.”

As bolsas de bolívares mostram o quão criativos se tornaram alguns imigrantes venezuelanos, enquanto lutam para ganhar a vida fora de seu país. Mas os acessórios são também um exemplo dramático da inflação extrema na Venezuela, onde uma duradoura crise econômica tem forçado milhares de cidadãos a deixar o país diariamente.

De acordo com Steve Hanke, professor de economia aplicada na Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos, a inflação chegou a 16.000% na Venezuela nos últimos 12 meses. O Banco Central da Venezuela não publica estatísticas de inflação desde 2015, num esforço para esconder a gravidade do problema.

Mas a crescente desvalorização do bolívar venezuelano é evidente para qualquer um que dê uma olhada nas prateleiras dos supermercados da Venezuela. Um quilo de carne bovina é vendido atualmente por 2,7 milhões de bolívares, o equivalente ao salário mínimo no país. Uma xícara de café, que custava cerca de 2 mil bolívares há um ano, agora é vendida por 200 mil.

Essa hiperinflação, aliada à escassez de alimentos e ao aumento da criminalidade, tem impulsionado os venezuelanos a fugir para países vizinhos como Colômbia, Equador, Brasil e Peru. O êxodo venezuelano está se transformando rapidamente numa crise de refugiados na América do Sul. Segundo a Organização Internacional para as Migrações, mais de 1 milhão de venezuelanos deixaram o país desde 2015.

Quando imigrou para Cúcuta, há quatro meses, Campos começou a vender arroz doce para os venezuelanos que chegavam todos os dias à Colômbia, à procura de alimentos, remédios e trabalho. Custava 45 mil bolívares, e muitos pagavam com sacolas cheias de notas de 100.

“Muitas agências de câmbio não aceitavam essas notas. Então foi quando tive a ideia de transformá-las em algo mais útil”, diz Campos. Ele sabia fazer bolsas a partir de pacotes de cigarros e papel de revistas. Resolveu então usar as notas de bolívares como matéria-prima.

“Trabalhamos duro para confeccionar essas bolsas”, conta Campos em seu apartamento, enquanto colocava os últimos pontos de costura num dos produtos. “Mas agora temos dinheiro suficiente para nos alimentar e pagar o aluguel.”

Campos não é o único artista que usa as notas de bolívares como matéria-prima. Na cidade venezuelana de San Cristóbal, as notas são as telas para o designer gráfico Jose Luís Leon. Seus desenhos em notas são feitos com marcadores de texto e esmalte descrevem eventos atuais, pontos turísticos venezuelanos e populares desenhos animados japoneses. Ele publica fotos de seus trabalhos finalizados no Instagram para o mundo ver.

O artista de 25 anos vendeu algumas peças por até cem dólares para clientes nos Estados Unidos, mas também vende as obras na Venezuela por valores que variam de dois a 20 dólares. Leon ainda teve uma de suas peças expostas numa galeria de artes em Caracas.

“Esses desenhos evocam um momento crítico na história da Venezuela”, afirma Leon. “Eles também mostram que é possível fazer algo bonito com algo que agora é sem valor.”

As notas de bolívares venezuelanos se tornaram tão desvalorizados que, enquanto o país se prepara para as eleições presidenciais neste domingo (20/05), críticos do presidente Nicolás Maduro jogam notas de 50 e 100 bolívares na multidão durante comícios da oposição.

Desde 1999 o país está sob a direção do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela), primeiro com Hugo Chaves, atualmente com Nicolas Maduro.

 

Sem valor, dinheiro venezuelano vira artesanato

Jesus Campos vende suas bolsas de bolívares

 

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Gabriela Crespo, esposa de Campos, separa as notas

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FONTE: Carta Capital.


Filho de ditador africano é suspeito de crime no Brasil

O filho mais velho do ditador da Guiné Equatorial e segundo vice-presidente do país africano, Teodorin Nguema Obiang Mangue, 41, é suspeito de lavar dinheiro no Brasil com compra de imóvel.

A suspeita aparece em um documento da Justiça americana, ao qual a Folha teve acesso. Segundo o Departamento de Justiça, Nguema –como ele é conhecido– gastou, em 2008, mais de US$ 65 milhões em bens e serviços, valor 650 vezes superior ao seu salário público anual.

Como funcionário público, Nguema recebe oficialmente, segundo os EUA, US$ 6.799 por mês, ou menos de US$ 100 mil (R$ 225 mil) por ano.

Seu maior gasto individual em 2008 foi a compra de um apartamento tríplex, por US$ 15 milhões, em São Paulo, no bairro nobre dos Jardins. Ele adquiriu também seis quadros de Edgar Degas, Pierre Auguste Renoir, Paul Gauguin e Henri Matisse, num total de US$ 35 milhões, além de carros, joias e antiguidades.

De acordo com os documentos obtidos pela Folha, o ano de 2008 foi aquele em que Nguema mais gastou dinheiro com aquisições. Em 2009, foram US$ 9 milhões; em 2010, US$ 37 milhões e, em 2011, US$ 7,6 milhões.

Responsável pelas políticas de segurança nacional da Guiné Equatorial, Nguema é filho do ditador Teodoro Obiang, no poder desde 1979.

25.jun.2013 – Jerome Leroy/AFP
Nguema em seu aniversário em Malabo, Guiné Equatorial
Nguema em seu aniversário em Malabo, Guiné Equatorial

O país que seu pai governa, uma ex-colônia espanhola, situa-se parte em uma ilha na África ocidental, parte no continente. Rica em petróleo, tem índices extremos de pobreza.

Em fevereiro deste ano, Nguema chegou a ser monitorado pela Polícia Federal. Um relatório foi produzido para a Interpol. Agentes da PF também fizeram uma missão até a casa comprada por Nguema em São Paulo.

“O alvo declara à Receita Federal que reside no imóvel localizado no endereço. Diligências preliminares confirmaram junto a moradores e funcionários do edifício que o alvo é o proprietário do apartamento tríplex”, afirma o documento. Naquele momento, a França emitiu pedido para que fosse confiscado um avião comprado por Nguema, mas ele não veio ao Brasil com o jato particular.

Como a lei brasileira de lavagem de dinheiro exige que seja apurado o crime antecedente, ou seja, o que originou o dinheiro usado para a suposta lavagem, especialistas acreditam ser difícil processá-lo aqui por esse delito.

“Isso não é corrupção africana, é corrupção global. Esses tipos de desvios não existiriam sem uma junção de empresários dúbios, banqueiros, empreiteiros e outros profissionais que pagam propinas ou ajudam a lavar dinheiro”, diz o advogado Kenneth Hurwitz, da ONG Open Society.

NEGÓCIOS

A relação entre a Guiné Equatorial e o Brasil se estreitou nos últimos anos, com a presença cada vez maior de empreiteiras brasileiras nas construções do país.

De acordo com o Departamento de Justiça dos EUA, o ramo de construção civil é justamente a fonte da riqueza de Nguema, sendo a área do governo em que “a corrupção é mais proeminente”.

Em 2009, o diplomata Anton Smith preparou documento informando que o setor de construção era particularmente vulnerável à corrupção na Guiné Equatorial. Segundo ele, é nessa área em que “os gastos perdem visibilidade e em que persistem as maiores oportunidades para a corrupção”.

Um relatório da embaixada em 2011 descreve as diversas formas de corrupção no país –“transações obscuras, ofertas de propina, tráfico de influência em contratos de construção e taxas de sucesso por contratos firmados”.

Folha procurou o governo da Guiné Equatorial para que explicasse a fortuna do filho do presidente, mas não obteve resposta. O embaixador no Brasil, Benigno Pedro Matute Tang, disse não poder tratar do tema por não ter sido oficializado no cargo.

Nos documentos da Justiça americana, Nguema atribui seu enriquecimento a contratos de infraestrutura assinados por sua empresa particular de construção.

FONTE: Folha de São Paulo.



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