Antequam noveris, a laudando et vituperando abstine. Tutum silentium praemium.

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Gramas

Recado
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“O esperanto me parece admirável precisamente porque não foi adiante ou, pelo menos, não alcançou os fins a que se destinava.”
. Genolino Amado

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Adeus, passarelas
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Gisele Bündchen escolheu a São Paulo Fashion Week pra dar adeus às passarelas. Depois de 20 anos de carreira, não deixou por menos. Cercada de flashes e sob entusiasmados aplaaaaaaaaaausos, a bela desfilou com o charme de sempre. Na plateia, o maridão e os medalhões da moda brasileira.
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A imprensa, claro, noticiou a despedida da modelo mais bem-sucedida do mundo. Mas… encontrou o verbo despedir no meio do caminho. Trata-se da regência. Gisele despede as passarelas ou se despede das passarelas? No duro, no duro, ambas estão corretas. Qual a mais adequada?
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Despedir tem regências pra dar e vender. Escolher uma ou outra depende do recado que se quer dar. Transitivo direto, o trissílabo pode significar fazer sair ou dispensar os serviços: Despediu o filho da sala pra evitar que ele batesse com a língua nos dentes. Despedimos os empregados domésticos porque, com a crise, o dinheiro ficou curto.
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Convenhamos. Não é o caso de Gisele. A ação da top model tem a acepção de apartar-se. Aí, o verbo é pronominal e exige a preposição de: Gisele se despediu das passarelas. Eu me despeço dos amigos sempre que eles partem. Não raras vezes, precisamos nos despedir das pessoas que amamos.
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55 anos
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Viva! Na terça, Brasília completa 55 anos. A cidade se prepara pra festa. Esportistas, músicos, pintores, poetas, cronistas & cia. talentosa querem se exibir pra homenagear a capital que os abraça sem discriminação. Todos têm uma dúvida. Como escrever o ordinal 55º? É fácil, fácil. Cinquenta só tem uma forma. Grafa-se com q. O ordinal vai atrás: quinquagésimo quinto. Assim – sem hífen e sem dar vez ao cardinal.
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Escritores e escritores
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“Tanto luta e pena o bom escritor quanto o péssimo, quanto o medíocre. Quer dizer, o artista inferior dá à sua obra as mesmas horas de trabalho, o mesmo idealismo, os mesmos sacrifícios, os mesmos sonhos que dá à sua o bom artista, o grande artista. Talvez o primeiro dê até mais sacrifício, mais realismo, pois que o bom tem o seu prêmio em aplausos, e o outro trabalha à toa. Só recebe em paga a indiferença ou o esquecimento.” (Rachel de Queiroz)
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É guerra

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A palavra da moda? É terceirizar. Ela está na boca de patrões e empregados. Uns a veem como inimiga das conquistas trabalhistas desde que o Brasil é Brasil. Outros a consideram a salvação da pátria. Moderniza a legislação, amplia o número de empregos e torna competitivos os produtos verde-amarelos.
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Enquanto a discussão corre solta e os protestos paralisam o país, vale a questão. Por que terceirizar se escreve com z? A resposta é pra lá de simples. Não existe o sufixo -isar. Só existe -izar. Ops! Você pode se lembrar de montões de palavras terminadas em -isar. É o caso de frisar, pesquisar, analisar, encamisar. E daí?
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Sagrada família
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Na língua, uma regra vem à frente de todas. Trata-se do respeito à família. “Tal pai, tal filho”, diz ela. Em bom português: se a palavra primitiva se escreve com determinada letra, as derivadas a mantêm: luxo (luxento, luxuoso, luxúria, luxuriante), cheio (encher, enchente), casa (casinha, casebre, casona, casarão), luz (luzente, luzeiro, reluzente, luzir), pesquisa (pesquisar, pesquisador, pesquisado), análise (analisar, analisado), friso (frisar, frisado, frisador, frisante).
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Meio órfão
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Há palavras que não têm s no radical. Pra formar verbos terminados em -izar, só há um jeito. Recorrer ao sufixo escrito com z. É o caso de terceiro (terceirizar), civil (civilizar), normal (normalizar), canal (canalizar), global (globalizar), polo (polarizar), fiscal (fiscalizar), mínimo (minimizar), máximo (maximizar).
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Leitor pergunta
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A música de Dorival Caymmi diz: “O pescador tem dois amor, um bem na terra, um bem no mar”. É dois amor ou dois amores? 
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. Vera Godoi, Belo Horizonte
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Pra nós, mortais, Vera, a concordância exige o plural (dois amores). Mas Caymmi é artista. Tem licença poética. Pode pisar a gramática sem cerimônia. Conhece a licença de Drummond? “Cacilda Becker morreram”, escreveu o poeta quando a grande atriz partiu desta pra melhor.

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FONTE: Estado de Minas.

 



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